‘Tatuagem’: mais uma obra da vanguarda cinematográfica pernambucana

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“Percebemos logo de início que são filmes diferenciados na atual conjuntura cinematográfica brasileira e, além do mais, polêmicos em quase tudo que mostram e defendem. Raro momento do cinema brasileiro, vivido só no período do Cinema Novo”

*por Romero Venâncio

Respiro e persigo uma luz de outras vidas
 E ainda que as janelas se fechem, meu pai
 É certo que amanhece.”

                                                Hilda Hilst

  Percebe-se na mais recente produção cinematográfica de Pernambuco um “caráter de manifesto vanguardista” em imagem. “Febre do rato” (Claudio Assis); “O som ao redor” (Kleber Mendonça) e “Tatuagem” (Hilton Lacerda) são filmes que parecem estar à frente de seu tempo, criticando-o radicalmente. Apresentam situações que mais parecem fora da realidade perto do que vemos desfilar como hegemônico na cultura politica brasileira atual.

 Para recobrar a nossa memória, esse filmes são contemporâneos do parlamento brasileiro e sua política, em média, abjeta; de gente como Marcos Feliciano, Silas Malafaia, Marcelo Rossi, R. R. Soares, Edir Macedo e outras lideranças religiosas populares e suas causas; de um tipo de cinema que mais parece uma novela e de dramaturgia bem comportada em tudo; de uma direita midiática militante de comportamento anacrônico; da triste situação da música brasileira e de boa parte do chamamos de literatura. Um tempo em que as discussões públicas sobre drogas ou aborto são completamente dominadas por leituras religiosas sem base empírica alguma e muito menos científica. Em alguns momentos a idade média e o que ela tinha de pior nos é mais do que familiar.

 Essa é apenas uma amostra do que os três filmes citados são contemporâneos no Brasil. Os filmes pernambucanos vão na mais absoluta contramão dessas histórias. Apresentam espaços libertários, numa certa naturalidade no uso de algumas drogas, sexo sem culpa ou compromisso eterno, sátira com instituições tidas como sagradas (família, exército, religião) e uma desconsideração com o Estado, onde tal desconsideração aparece como uma critica radical a sua ausência-presença.

 São de “vanguarda” porque apontam mais para um futuro (mesmo quando tratam de situar o filme num passado) e de forma bem irônica, taxativa, bombástica e debochada. Percebemos logo de início que são filmes diferenciados na atual conjuntura cinematográfica brasileira e, além do mais, polêmicos em quase tudo que mostram e defendem. Raro momento do cinema brasileiro, vivido só no período do Cinema Novo, talvez, e em outra chave de leitura.

  “Tatuagem” de Hilton Lacerda é um filme marcante e que fica para a história do cinema no Brasil desde já. Um filme bem demarcado do ponto de vista da narrativa, em que segue um roteiro clássico e claramente inteligível, usando em alguns momentos imagens de Super-8 – para realçar o momento histórico e o significado deste tipo de câmara nos anos 70 – e nos deixa entrever um filme dentro do filme amarrado pela breve história de um grupo de teatro. Temos dentro do filme, o experimental jogo de imagens vanguardista dirigido por um professor e poeta de caráter anárquico.

 No seu decorrer, o filme provoca instituições como Exército e Família e nos faz ver como funcionam essas ao encenar momentos de uma família tradicional e o cotidiano do exército na cidade do Recife no período da Ditadura Militar. Tem também uma cena interessante onde os pais de um adolescente, “de pai homossexual e mãe solteira” como se define a própria personagem, refletem sobre uma situação de violência do exército contra manifestantes na rua e decidem que o filho não deve ter companhia de pessoas que perseguem, torturam, e matam.

   O mote central do filme é a relação de um artista homossexual com um soldado residente num quartel do Recife e de origem interiorana. Aqui entra todo o lirismo poético de Hilton Lacerda (já conhecido das poesias do filme “Febre do Rato”). Com músicas de Dolores Duran e Caetano Veloso, embala uma relação simples entre dois homens dando um caráter de normalidade que deve chocar um brasileiro médio acostumado a práticas de homofobia e de preconceito de toda sorte contra homossexuais.

 Algo que merece destaque é a “forma não-melodramática” com que trata a relação dos dois personagens (Clésio e “Fininha”) e os coloca diante das mesmas contradições com que vivem qualquer ser humano, de ciúmes, brigas, paixões e separações,  e ao fazer isso nos fornece uma leitura bem “natural” das relações amorosas, sem culpas ou preconceitos. Já o cotidiano da trupe teatral, que vai morar junta para intensificar os trabalhos, não fica muito longe das relações familiares que conhecemos e vivemos: conflitos, disputa de liderança, o papel do mais velho na casa e a necessária organização e suas contradições numa vida coletiva.

 O filme em nada se parece com as novelas da televisão brasileira, ainda que alguns temas do filme já estejam em algumas das novelas da Rede Globo, por exemplo. No filme, a homossexualidade vai até o fim, os palavrões fazem parte do cotidiano da trupe e do contexto, as relações apresentam-se como abertas e como alternativas as relações hegemônicas vividas ao redor da trupe e aquilo que “sagrado” acaba se tornando “profano” sem problemas e com alegria de quem se liberta de um fardo insuportável.

 Por fim, o filme de Hilton Lacerda é uma bela defesa de um tipo de teatro que parece existir hoje de maneira periférica. O teatro é por natureza um arte plástica que define-se pela palavra e pela expressão, sendo assim, não tem limites temáticos ou morais e que sempre indicou uma vivência e um trabalho coletivo. O filme nos lembra que o teatro é uma arte libertária na sua origem e que no mundo moderno é um índice crítico de sociedades caretas e repressoras.

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe e escreve sobre cinema para REVER

3 comentários sobre “‘Tatuagem’: mais uma obra da vanguarda cinematográfica pernambucana

  1. Não tinha lido este teu texto ainda, Romero. Acerca do que está escrito aqui NÃO há o mínimo a discordar. Entretanto, ao menos neste artigo em particular, eu e tu flagramos aspectos diferentes do mesmo filme: tu o destacas enquanto obra revolucionária por conta de seu viés discursivo societal, realçando a sua importância história num momento social do século XXI que parece neo-medieval. Concordo bastante; eu, entretanto, ressaltei elementos mui específicos de linguagem cinematográfica e, neste sentido, apesar de nem de longe negar a extrema coerência dos filmes, ouso dizer que há uma incoesão muito diferente daquela que pontuou o Cinema Novo, em que os olhares diversificados de Glauber Rocha e Cacá Diegues, por exemplo, se justapunham de um modo mais acalorado que o modo como a frieza e/ou rebuscamento do Kleber Mendonça Filho encontra o calor espontâneo do Hilton Lacerda… Mas sigamos avaliando. Aguardando o segundo texto, mais diretamente responsivo! (WPC>)

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