A cultura do outro lado da rua

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Arte de rua se fortalece em Aracaju enquanto movimento de retomada. O hip hop, o grafitti, a poesia e a afirmação do espaço feminino se cruzam num momento de efervescência criativa. 

*por Ayalla Anjos

Para nós a rima é um barril.
Barril de dinamite. O verso um estopim.
Alinha se incendeia e quando chega ao fim
explode e a cidade em estrofe voa em mil. (Maiakovski)

 O rap nas periferias brasileiras surge em meados da década de 80 em São Paulo e aos poucos é difundido em todo o país. O ritmo, que vai além de um gênero musical, é uma manifestação cultural que integra o hip hop e inicialmente fez parte de um contexto de protesto social e afirmação da negritude.

Desde seu surgimento no Brasil foi bastante marginalizado, infelizmente um fato comum quando o assunto é música produzida na e pela cultura popular negra. Pensar no hip hop como cultura das periferias necessita de uma reflexão que vá além do óbvio. É sem dúvida seu patrimônio, uma forma de mostrar a sociedade a sua arte e protesto. Entretanto, não se restringe a ela.

A exemplo disso, vemos o grafite colorindo e estampando muros por todos os lugares, o break nas ruas, o rap nas rádios e programas de tv, os dj’s em campeonatos mundiais patrocinados por grandes empresas e a literatura marginal ocupando os mais diversos espaços, inclusive nas universidades.

Saulo Darthayan, rapper e técnico em tecnologia da informação, acredita que o hip hop não se restringe ao rap ou break, agrega toda e qualquer manifestação artística ‘de rua’ ou divergente. “Nos dias de hoje não se resume apenas a periferia, é de todo povo, é a luta por direitos iguais, a expressão de uma forma completa, seja dançando, cantando, pintando, riscando discos… Dentro da periferia com certeza tem uma função particular que é a de dar um novo rumo, salvar vidas através da arte”, afirma.

Para a estudante Clara de Noronha, vai além do local de moradia e condição financeira. “Já fui chamada de patricinha por morar na zona Sul, algo que acho sem cabimento, pois onde eu moro não deve me definir”, diz. A estudante explica que o rap tem uma voz muito forte dentro da periferia, devido a sua linguagem e pela maioria das músicas abordarem fatos recorrentes que acontecem dentro da favela, como o tráfico de drogas, a repressão policial ao povo negro e pobre, dentre outras questões.

Entretanto, o rap se resignifica como cultura popular e modo de expressão, como afirma o rapper do grupo Diagonal Crew, Maeed Menezes. “Todo ser humano precisa de alguma forma expressar o que a alma e mente grita”. O estudante Thiago Andrade acredita que é de extrema importância difundir essa cultura para os próprios periféricos e principalmente para a classe trabalhadora.

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foto: Fernando Correia

 Lugar de poesia é na calçada

O movimento também é uma ferramenta poderosa de inclusão social e construção de identidade, levantando possibilidades dos jovens se tornarem protagonistas da sua própria produção cultural.

Um exemplo disso é o “Sarau de Baixo” que acontece sempre na terceira terça-feira do mês embaixo do viaduto Jornalista Carvalho Déda, no Distrito Industrial de Aracaju (DIA).

O Sarau surge a partir das inquietações de diversos artistas sobre a falta de espaços para manifestação da cultura. “A cultura sergipana passou a ficar enclausurada nas casas, nos teatros, nos lugares fechados, afastando por completo a possibilidade de envolvimento e contato com o povo, com as pessoas que fazem a rua, que estão trabalhando”, afirma o jornalista Pedro Alves.

A ideia é que seja um espaço para interagir, com música, dança, pintura, artes plásticas, literatura onde se reúnam poetas, rappers, grafiteiros, músicos e a população. “Os locais de cultura públicos foram tirados da gente a força, nos colocam locais que para mostrarmos nossa arte precisamos primeiro ser ‘aprovados’. O Sarau Debaixo é manifestação do nosso ir e vir”, diz Saulo Darthayan. O evento não cobra ingresso e é aberto para participação do público. “Precisamos devolver para o povo a nossa cultura, a nossa arte, a nossa poesia”, enfatiza Pedro.

As mulheres do Hip Hop

Em 2010, foi criada a Frente Nacional de Mulheres, uma organização de mulheres dentro do movimento hip hop. Hoje ela tem representatividade em 18 estados e dois países. O grupo atua através de cursos, congressos, debates e criação de projetos de lei que contemplem as mulheres da cena.

Ainda este ano, lançaram o livro Perifeminas escrito por 67 mulheres e que trata das vivências, dramas e conquistas ligados à cultura hip hop, urbana e do dia-a-dia nas periferias.

Segundo a Mc Mariáh Médici, diretora estadual da Frente de Mulheres do Hip Hop de Sergipe e funcionária pública, essa cultura vem crescendo a cada dia e conquistando espaços. “Analisando a cena, posso dizer que dia a dia estamos progredindo. Após ser a primeira capital brasileira a instituir a Semana Municipal do Hip Hop, Aracaju tem ganhado diversas manifestações culturais a exemplo do Sarau Debaixo que está engrandecendo e valorizando ainda mais nosso movimento”, fala.

Nos últimos três anos, tem crescido a participação feminina aqui no estado, com a formação de grupos composto somente por mulheres, de bgirls no break e crews de grafite desenvolvendo seus trabalhos dentro da temática ‘mulher’, como por exemplo, as Arteira’s Crew.

Além da crítica social, a violência que circunda a mulher em qualquer âmbito, a questão feminista, o cotidiano e a luta por melhores condições são temas bastante abordados nas rimas. Inclusive, o espaço da mulher na cena do rap e o preconceito. A estudante Clara Ramalho conta que já viveu isso na pele. “Já sofri preconceito em roda de freestyle (rap feito de improviso) e já rolou comentário machista nas rodas de rima”, desabafa.

Thiago Andrade considera que o preconceito com as mulheres é bem mais forte dentro da antiga escola do hip hop e que a geração mais nova consegue compreender melhor a questão da opressão de gênero. “As mc’s estão se colocando ainda mais e rimando tanto quanto os homens, ainda há muito a ser superado, mas o cenário já é bastante diferente”, afirma.

Para a Mc Mariáh questões como essa continuam centrais no debate e dentro dos temas que lhe inspiram a compor suas músicas. “Nunca sofri preconceito por ser mulher dentro do movimento, pelo contrário sempre tive incentivo e admiração. Mas desde os meus primeiros contatos com o rap e entendi a missão deste, não só como ritmo, mas como um instrumento de protesto, construí minhas rimas com conteúdos feministas. Eu não escolhi o hip hop, o hip hop me escolheu”, conclui.

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