Enquanto eles se batem, dê um “rolê”: Quando os negros das periferias decidem ocupar espaços brancos

rolezinho-Robson-Ventura-Folhapress

“A violência efetivada pelo setor público e privado nos shoppings espalhados pelo Brasil por conta do “rolezinho” não é um caso isolado. Para refrescar a memória dos sergipanos, no ano de 2012, o motorista de ônibus Leidson Reis dos Santos, 39 anos, foi asfixiado até a morte pela segurança do Shopping Jardins”

*por Pedro Alexandre

Nos últimos meses nós pudemos acompanhar através da televisão e demais meios de comunicação, uma série de encontros, ou “rolezinho”, como é conhecido, marcados por jovens de periferias em shoppings nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Vitória, onde tais reuniões acabaram por sofrer perseguições, além de agressão física por parte de seguranças particulares e polícia militar.

Apesar de estas ações apresentarem em seu plano de fundo, questões fundamentais para entendermos como se estruturam as relações sociorraciais no Brasil, a grande mídia, através duma atitude política, define tais intervenções como simples “arrastões” para o furto de lojas- se de fato isso houver, eu prefiro considerar essa atitude como um ato de expropriação.

Apesar dos vícios midiáticos supracitados, nós devemos analisar com mais cuidado o caso, para que assim possamos entender as entrelinhas das diversas questões sociais, políticas e econômicas que se confluem no momento em que os cassetetes dos novos capitães do mato descem sobre o lombo negro.

As ocupações como as que ocorreram nestes centros comerciais que desembocou na ação violenta por parte da polícia, atrelado à liminar que proíbe a entrada de menores de 18 anos nestes shoppings, externam as fissuras históricas das quais a população negra enfrentou e enfrenta por conta do racismo. Limitações de frequência em espaços públicos ou privado, perseguição constante dos aparelhos de repressão do estado e criminalização da pobreza, são capazes demonstrar como a elite branca brasileira ainda necessita fortalecer a manutenção da injúria racial para legitimar a exploração e domínio da mão de obra negra como dispositivo de reprodução do modelo socioeconômico em que nos encontramos.

São inúmeras as arengas e malabarismo feitos pelos empresários para defender a ação militar. Justificativas como as de que a ação da polícia serviu para preservar a integridade dos clientes, ou de que se fez necessária a intervenção para manter a ordem, na verdade, escondem o seguinte posicionamento: “nesse mundo mágico que é o shopping negro só entra se for serviçal”.

Segundo a nota feita pela Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), acredita que esses estes passeios causam pânico nos clientes, e, por conseguinte, podem prejudicar as vendas. A nota ainda exige com que o atual governador do estado de São Paulo, pudesse construir espaços públicos para que estes jovens pudessem parar de frequentar os centos comerciais. “espaços públicos pouco utilizados na cidade para que esses jovens possam organizar suas festas de maneira passiva. Além disso, a Alshop busca com Secretaria de Segurança do Estado o apoio para que policiais militares trabalhem fardados nos shoppings”.

Apartheid sociorracial através da liminar jurídica.

Após os vários encontros realizados nos shoppings de São Paulo, um juiz concedeu uma liminar que veta por meios (i) legais encontros e entradas da juventude negra nos centros de consumo. Além da proibição, o documento ainda assegura uma multa de R$ 10 mil caso o adolescente da periferia seja encontrado dentro das instalações do comercio.

Leis de cunho segregacionista análogas à liminar concedida pelo juiz que proíbe a entrada de jovens assemelham-se as chamadas leis Jim Crow que, por exemplo, proibiam negros de usarem os mesmos locais públicos, como escolas, ônibus e trens, nos Estados Unidos durante o século XIX.

O que vale não é a quantidade e sim a qualidade.

A violência efetivada pelo setor público e privado nos shoppings espalhados pelo Brasil por conta do “rolezinho”, não é um caso isolado. Para refrescar a memória dos sergipanos, no ano de 2012, o motorista de ônibus Leidson Reis dos Santos, 39 anos, foi asfixiado até a morte pela segurança do Shopping Jardins, que fica no município de Aracaju. Segundo o outro trabalhador que aplicou o conhecido “mata leão”, o motorista foi abordado dentro da loja, e se negou a cumprir com o pedido do segurança para sair da mesma. Esse foi o parecer do segurança, que na época, fora orientado pela administração do próprio estabelecimento em manter essa versão. Contudo, a morte de Leidson Reis também é fruto do mesmo processo de discriminação racial que ocorreu com os adolescentes, ou seja: o racismo.

Assim como outros casos de morte por conta da cor da pele e classe, o caso do trabalhador negro no estado de Sergipe foi abafado, e, certamente ele não foi e nem será o último. Muitos Leidson, Amarildos e “jovens do rolezinho” sentirão no lombo o que significa carregar na pele a cor negra.

A questão é: mesmo não compreendendo tanto como funciona a engrenagem que roda o estado racista e burguês em que vive, essa juventude vivência todos os dias na prática o que é ser excluídos e violentados dentro do mesmo modelo de sociedade em que outros utilizam da miséria alheia para se manter na mesma condição socioeconômica. Outros “rolezinho” já foram anunciados, e a burguesia branca terá de encarar que agora a favela vai cobrar cada gota de sangue e suor derramado por um estado racista em prol do sono de poucos.

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