Do Cu ao Precaju

foto: Marco Vieira
foto: Marco Vieira

*por Vinícius Oliveira

Gosto é que nem cu, cada um tem o seu. Gosto não é que nem cu, nem a pau (os moralistas param por aqui). Gosto é construído socialmente, a partir de referenciais. Ou você gosta daquilo que nunca viu ou ouviu, ou sabe que existe? Em uma sociedade baseada no dinheiro, na propriedade e na concentração dos meios de produção, o gosto é construído a partir dos referenciais da lucratividade da forma mais ligeira possível. E aí não tem jeito, a concentração televisiva e radiofônica ainda é o que mais influencia no cu, quer dizer no tal gosto.

Mas aí você junta tudo, a negação do direito humano a comunicação, do direito do artista em divulgar sua obra independente das mega gravadoras com um Estado que financia os ricos empresários e negligencia a cultura local. O Estado cumpre um papel tipico do coronelismo de sempre fazendo uma verdadeira distribuição de renda, muitos para os que tem muito e muito pouco para os que tem pouco, e assim, as migalhas jogadas viram argumentos e burocracias para os artistas independentes se matarem ou tentar reproduzir o de sempre. A desculpa para desigualdade é sempre a mesma: “mas é o que o povo gosta”. E gosta mesmo, não temos dúvida, mas temos que debater o gosto pela perspectiva da economia política, e para isso nem precisa falar em números e corrupção, o próprio jornalista Rian Santos já citou todos eles, a raiz está na relação entre o empresariado e o Estado.

A corda separa as classes sociais, e mostra as cores da festa. O negro que segura a corda separa o próprio negro da festa. O trio acaba simbolizando a imposição cultural e o percurso impõe a imobilidade urbana. Tudo deve parar para a festa do empresário enriquecer. A polícia – que se aumentarmos qualquer batuque afro com alguns decibéis à mais aparece rapidamente pra atrapalhar qualquer festa – faz a “segurança”, sem qualquer segurança do bônus salarial. A saúde pública – que só funciona com filas e esperas – faz um verdeiro bom atendimento para que todos no outro dia não acordem de ressaca. Até barcos e salva vidas rodam para que nenhum folião descubra-se Zé peixe de uma hora para outra.

É um verdadeiro semi-Estado de utopia, se não fosse a violência tipica, de quem sempre é violentado, e tem a violência como linguagem de comunicação e necessidade de sobrevivência. Os abusos sexuais às mulheres são naturalizados e vistos como premiação da contagem do dia posterior, mas sempre com recorte entre os que estão dentro da corda e os fora da corda.

Mas se tem algo de bom neste processo, é que o declínio do axé vem sendo anunciado. A música que imperou na década de 90, com bundas e pegações, disputam nas periferias (friso periferias), as bicicletas de som com o hip hop, reggae e funk. Por isso o irmão gêmeo do axé, o sertanejo universitário começa a aparecer timidamente, detalhe que não tem nada da realidade do sertão e nem da universidade, apesar que até tem a ver com o pensamento médio dos universitários brasileiros que pensam que vivem deslocado do território, vivem nas festas e idolatram aos Deus Empresário pelo trabalho concedido que ele acha que é livre e autônomo, porque sustenta os fins de semana regados as mais variáveis drogas, desde as mais antigas,como as mais sofisticadas como a internet no celular. Não é uma critica elitista, pelo contrário, se tem uma coisa (anti)democrática é que ainda não podemos fugir totalmente desta lógica, podemos em parte, construir espaços alternativos. O provincianismo de Estado gera lucros e concentração financeira, e logo cultural.

Este ano qual será a música do Precaju? Será Elba e seu trio alternativo que alternativamente entra na mesmo lógica econômica e política, apesar de variar na cultura? Ou será que será Ana Júlia em nova versão, talvez sertaneja? Por falar em Los Hermanos, lembramos do cu da Ana júlia. Que virou música do Precaju em algum passado e do carnaval de Salvador. A banda gravou apesar de nem gostar tanto, nem ser sua obra mais criativa mas, tocou na novela, aí algum baiano fez uma versão em axé, e pronto, ganhou o carnaval. Não me importa se você gosta de axé, sertanejo, Chico Buarque ou música clássica, a questão é quais as possibilidade de construção de referencias para o seu GOSTO. Ainda bem que temos algum alivio na internet.

Fico imaginando se a Naurêa que tem até banda cover na Alemanha fizesse isso ou talvez a The Baggios ou Plastico Lunar. Talvez ElvisBoaMorte, Reação ou KilodoInhame. Poderiam até tocar nas propagandas do governador (neguem pelo amor de Jah!), quer dizer do governo, porque passa a cada comercial televisivo. Seria um teste interessante, usar a indústria cultural contra a lógica dela mesmo, mas ainda não temos governo sério para isso.

Cultura é sinônimo de propaganda. É sim. Desde o decreto do ex-governador Albano Franco, que os gastos em publicidade estatal entram no orçamento de cultura do Estado. Por isso sem proporção o Estado investe absurdos em cultura. A cultura é reverenciar o cu do governador da vez, reforçando o gosto de cada um. O gosto é pelo dinheiro, pelo poder. A cultura é moeda de troca, reproduzindo a lógica provinciana na vida e no GOSTO. O cu não. O cu é democrático, parafraseando o filme Tatuagem, todo mundo tem cu e poder fazer com ele o que quiser.

 

*Vinícius Oliveira já foi para vários precajus e não é jornalista porque não é dono de jornal.

 

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