REVER DEBATE: ‘Tatuagem’, filme de Hilton Lacerda

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Debate entre Wesley Pereira Castro e Romero Venâncio sobre o filme ‘Tatuagem’, do pernambucano Hilton Lacerda.

 *Wesley Pereira de Castro vs.
Romero Venâncio

 

Nota da REVER: 

   Tema de divergência entre dois cinéfilos, o filme Tatuagem, do cineasta pernambucano Hilton Lacerda, é o assunto central do debate que segue abaixo. De um lado o estreante Wesley Pereira Castro, mestrando em Comunicação Social, do outro Romero Venâncio, professor de Filosofia. Ambos da Universidade Federal de Sergipe.

    O filme, que vem fazendo estrondoso sucesso nesse início de ano, volta a ser objeto de publicação da REVER num formato que pretendemos utilizar com maior frequência daqui para frente: o REVER DEBATE.

    Antes de conferir o material que segue, vale conferir o texto que instigou o debate: ‘Tatuagem’: mais uma obra da vanguarda cinematográfica pernambucana, de Romero Venâncio.   

[I.S] 

 

 

Réplica:  FALHAS E VACILOS

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*por Wesley Pereira de Castro

Ter roteirizado alguns dos novos clássicos do cinema brasileiro, como “Baile Perfumado” (1996, de Paulo Caldas & Lírio Ferreira) e “Amarelo Manga” (2002, de Cláudio Assis), tornou Hilton Lacerda uma espécie de pivô sustentacular da bem-sucedida safra pernambucana hodierna, sem dúvida uma das mais autorais dentre as produções lançadas desde a década de 1980. Provando ser capaz de variar estilisticamente [vide a sobriedade amadurecida de “Baixio das Bestas” (2006, de Cláudio Assis), por exemplo], tal roteirista teve uma experiência irregular como realizador no malfadado documentário “Cartola – Música Para os Olhos” (2006, co-dirigido por Lírio Ferreira) e demonstrou sinais de desgaste e/ou cansaço nas tramas de “Árido Movie” (2005, de Lírio Ferreira) e “Febre do Rato” (2011, de Cláudio Assis), que, apesar de seus diversos méritos, são filmes que pecam pela indefinição de foco narrativo, numa prerrogativa tramática que destoa negativamente em relação aos ótimos filmes-painel anteriormente mencionados.

Em “Tatuagem” (2013), primeiro longa-metragem unicamente dirigido por Hilton Lacerda, o desgaste supracitado aparece de forma ainda mais evidente, sendo magnificamente compensado nas situações desencadeadas num palco teatral, mas, infelizmente, prejudicando a cadência narrativa geral, audaciosamente situada numa época conturbada da ditadura militar, o final da década de 1970.

Protagonizado por um Irandhir Santos em interpretação automática – o que não é tão demeritório quanto soa, visto que ele é um excelente e versátil ator – “Tatuagem” tem em seu viés romântico um ponto fraco, visto que, por mais simpático que seja o casal homossexual composto pelo protagonista Clécio e o recruta Arlindo, apelidado Fininha (Jesuíta Barbosa), as suas divergências ideológicas altissonantes são suprimidas pelas contínuas reclamações do primeiro em relação ao comportamento supostamente birrento do travesti Paulete (Rodrigo Garcia, na melhor e mais arrebatadora incorporação actancial do filme), o que traz à tona algumas irritantes contradições personalísticas do reclamante.

Ou seja: por mais libertário que Clécio se pretenda, o modo como ele se demonstra ciumento após a primeira escapadela orgiática de Fininha evidencia que ele só apregoa o deboche quando está no palco, o que se confirma nas reiteradas imprecações contra o propalado traficante de drogas com quem Paulete se envolve, ignorando oportunamente as conseqüências das obrigações de Arlindo em relação ao Serviço Militar. O mesmo pode ser dito acerca de suas asseverações sobre a sociabilização do filho pré-adolescente Tuca (Deyvid Queiroz de Morais), sendo ele muito mais iracundo que a mãe do mesmo, Deusa (interpretada dignamente por Sylvia Prado). Aliás, por falar neste garoto, ele protagoniza uma das cenas mais desprovidas de funcionalidade (no que tange à pretendida organicidade discursiva do filme), quando o menino, após ser convidado a subir na garupa de uma caminhonete, tem seu rosto focalizado em ‘close-up’, numa espécie de êxtase eólico…

 As situações desencadeadas no quartel – incluindo o beijo agressivo que Fininha troca com um colega recruta (Ariclenes Barroso) – e o modo um tanto precipitado com que o diretor apresenta situações repressivas, como a censura contra o espetáculo do grupo Chão de Estrelas e a invasão derradeira da casa de eventos (em que o amante militar interdito é mostrado mais uma vez, em destaque) são mais alguns dos maus momentos do filme, que não deve ser recriminado pela reconstituição de época, afinal exitosa. Por outro lado, os ainda pouco elogiados números teatrais merecem ser novamente aplaudidos, visto que eles são esfuziantes, tanto nas repetidas execuções da excepcional “Polka do Cu” (ponto alto da magnífica trilha sonora de DJ Dolores) quanto na apaixonada interpretação de “Esse Cara” (canção composta por Chico Buarque e Caetano Veloso) que antecipa a declaração apaixonada de Arlindo em relação a Clécio.

Pena que o envolvimento afetivo entre os dois personagens soe por demais afoito, incondizente com os conflitos psicológicos/morais que Fininha enfrentava, insuficientemente justificados na patética cena em que a sua tia cega acusa-o de ser descendente de comunistas quando ele é tido como ateu ao declarar que não acredita na noção de pecado ou quando ele confessa que tinha um envolvimento sexual com o sargento que lhe lotara como funcionário do consultório odontológico no quartel. Por mais envolvente que seja a entrega de Jesuíta Barbosa ao seu papel, a confecção do mesmo não faz jus à sua graciosidade, resgatada no desfecho dialogístico do filme, quando o seu título revela-se brilhante: ao invés de ser apenas uma declaração de amor cravada na carne, a tatuagem que Fininha dedica a Clécio transforma-se num estigma que o impede de conseguir emprego, o que pode ser estendido para todos os integrantes da trupe Chão de Estrelas, que tatuam na alma a devoção pelo teatro e pela contestação dos valores repressivos.

Comparando especificamente este filme com um roteiro anterior de Hilton Lacerda, o já mencionado “Febre do Rato”, percebe-se alguns problemas recorrentes, principalmente no que diz respeito à dificuldade em tornar crível a recepção excessivamente empolgada do público frente aos rompantes poéticos dos personagens, o que se torna mais gritante nas aparições exacerbadas do artista Joubert (Sílvio Restiffe), responsável pelo pretensioso metafilme “Ficção e Filosofia”, exibido nostalgicamente após a dissolução do grupo.

Ao contrário de uma solução tão esquemática para validar as pulsões licenciosas do grupo, bastava reconstituir a leveza do excelente momento em que Clécio e Paulete conversam na praia, quando este segundo recusa-se, por nojo, a ingerir uma sobremesa gelada improvisada, antes de flertar com dois musculosos desportistas, que reagem positivamente aos desejos sexuais da dupla de amigos. Aliás, nesta mesma seqüência já se podia perceber as limitações “democráticas” de Clécio, quando, num diálogo em que explica os significados das palavras epifania e práxis, o líder da trupe define esta última como sendo “foder, ao invés de apenas bater punheta”.

Noutras palavras: malgrado ser artisticamente hipnotizante (vide a maravilhosa direção fotográfica de Ivo Lopes Araújo), os transes revoltosos em “Tatuagem” são regulados pelos interesses de um líder que confunde as próprias insaciações com desígnios libertários nacionais. Não se nega que haja bastantes intersecções neste sentido, mas louvar o cu apenas porque “todo mundo tem um” é enviesar o discurso combativo, quando o que está predominantemente em voga é a necessidade de extravasar

*Wesley Pereira de Castro (Crítico de cinema e Mestrando em comunicação – UFS)

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Tréplica: VOLTANDO À TATUAGEM

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 *por Romero Venâncio

 Havia escrito para a revista REVER um artigo bem elogioso sobre o filme “Tatuagem” de Hilton Lacerda sem ter lido crítica alguma ao filme. Recebi informações e conferi alguns textos críticos ao filme na Revista Cinética do pessoal do Rio de Janeiro e o artigo de Wesley P. de Castro em seu blog pessoal dedicado a crítica cinematográfica.

Desde já, afirmo: um dos melhores no gênero. Os trabalhos de Wesley P. de Castro são rigorosos tanto do vista formal, quando do conteúdo. Tenho, na maioria das vezes, concordâncias com suas críticas e sempre aprendo algo que não tinha percebido no filme comentado em seu Blog. Não foi muito diferente com as observações sobre “Tatuagem”, mas com uma diferença desta vez: discordei bem mais do que concordei. Destacaria três pontos em discordo da leitura do crítico sergipano. E para que não haja diálogo entre nós, resolvemos publicar aqui na REVER os dois textos.

   A primeira discordância com o autor do primeiro texto aparece logo quando ele usa o termo “sinais de desgaste” no estilo de Hilton Lacerda se referindo ao filme “Febre do rato” (Claudio Assis) e prossegui na afirmação de que em “Tatuagem” teríamos de maneira mais evidente o tal “desgaste” na sua forma mais acabada. Discordo frontalmente das duas indicações de desgaste nos dois filmes. “Febre do rato” é um filme vital e de ponto alto na parceria Hilton Lacerda/Claudio Assis. As poesias do filme construídas por Hilton Lacerda indicam essa vitalidade e uma criatividade fora do comum quando ligada diretamente ao preto e branco da película. Nesse filme não há nada de desgaste, mas vitalidade crescente e que irá desembocar em “Tatuagem”. Se observarmos com cuidado, “Tatuagem” tem algumas coisas de “Febre do rato”: um espaço libertário imaginário (ambos trabalham com uma topográfica libertária interessante); as poesias como forma de ligação das cenas e o mesmo ator protagonista nos dois filmes (Irandhir Santos).

   A segunda discordância acontece na leitura que Wesley P. de Castro faz da atuação do ator citado. Afirma o crítico que estaria “Irandhir Santos numa interpretação automática”. Discordo frontalmente. Obviamente que em “Febre do rato” temos um Irandhir totalmente solto a ponto não percebermos direção (mas que há direção e muito rigorosa da parte de Claudio Assis). Em “Tatuagem” temos um Irandhir maduro em sua forma interpretativa e dirigido por Hilton Lacerda de maneira mais formal ou clássica, mas isto em nada o faz atual de maneira “automática” como viu o crítico sergipano. Temos um ator que faz vários papeis e um mesmo filme. Ele o protagonista do filme e ainda tua no seu papel como diretor de um grupo de teatro num determinado lugar do recife nos anos 70. Ele canta, dança, coordena espetáculo e ainda tem que manter a companhia coesa diante de conflitos internos.

   Por fim, o destaque dado pelo crítico Wesley ao personagem “Arlindo/Fininha”. O crítico sergipano ver nesse papel um “personagem que não faz jus a sua graciosidade”. Vejam que Wesley gostou demais do personagem e queria uma atuação mais eficiente. Concordo com a intenção do crítico, mas discordo da ideia de não fazer jus a graciosidade que merecia o personagem. Achei perfeito o papel de “Arlindo”. Um recruta do interior, inseguro quanto a sua sexualidade, vivendo num quartel reacionário em todos os sentidos. Os breves momentos de desenvoltura e liberação são muito mais por impulso do momento e condiz com a ingenuidade e comportamento ainda interiorano numa recife que ferve de coisas… Vi uma atuação muito boa do personagem e uma direção segura do Hilton Lacerda sobre o personagem.

  No mais, louva inciativa já clássica no Blog do Wesley e sua abertura crítica ao debate, tão raro aqui em Aracaju e mais raro ainda nos espaços acadêmicos dos dias atuais. Sabe o amigo Wesley que estamos no mesmo barco da crítica e da luta por um bom cinema brasileiro e que faça jus ao nome.

*Romero Venâncio (Critico de cinema e professor de Filosofia na UFS)

Um comentário sobre “REVER DEBATE: ‘Tatuagem’, filme de Hilton Lacerda

  1. (risos)

    Uma das coisas que mais sinto falta no panorama crítico hodierno é debates como estes, contendo um “versus” no título, que, apesar de ser fundado em discordâncias de apreciação, não implicam em divergências generalizados, mas no entendimento necessário de que obras de arte são diferentemente apreendidas por diversos seres vivos, no sentido de que, para além de seus quesitos técnicos e/ou conteudísticos, há que se levar em consideração também os atributos passionais dos espectadores, que dotam a recepção das obras com um arcabouço pessoal de emoções e identificações. No meu caso em particular, foi isso o que aconteceu, a ponto de me fazer ficar extremamente incomodado com os dois últimos pontos com os quais Romero discordou: fiquei tão encantado com o personagem Paulete, com o qual tenho tanto a ver em meu histrionismo cotidianos, que achei que o filme “compra demais a briga” do Clécio, numa aparente auto-indulgência que já havia me incomodado em FEBRE DO RATO. Mas isso é uma comparação contextual, visto que, sou muitíssimo mais admirador de AMARELO MANGA e BAIXIO DAS BESTAS que dos filmes subseqüentes do genial diretor (e de seu roteirista também). O motivo: prefiro a estrutura painel daqueles que a personificação em destaque do que se segue, em que tanto Zizo quanto Clécio falam mais “alto” que os demais personagens, como se a poesia deles valesse mais que os atos instintivos dos outros, a ponto de Paulete ser considerada “birrenta” por atrever-se a namorar um traficante, por exemplo…

    No que tange ao “desgaste”, conversei com Caio Amado, via telefone, na manhã de hoje e concordamos mais ou menos neste ponto: tem a ver com uma comparação intra-pernambucana. Ou seja, num cotejo com a produção da Globo Filmes, TATUAGEM é uma obra-prima (risos), mas, em comparação com os filmes que citei anteriormente, ele tem alguns problemas de concepção, visto que, por mais brilhantes que sejam as idéias do autor, nem sempre estas atingem o ponto certo na feitura. Noutras palavras: quando o grupo Céu de Estrelas sai do palco, infelizmente, o filme perde seu ritmo, o que pode ser constatado, por exemplo, em minha opinião, nas cenas sem muito fôlego de Fininha no quartel, em que até mesmo uma desavença normal num jogo de futebol serve como construção do caráter potencialmente revoltoso do personagem. Não sei bem se isso funcionou. Mas amei a leitura da carta do personagem ao final, justificando magnanimamente o título do filme.

    Seja como for, que mais debates como este existam, provando que, apesar do “versus” retórico na manchete, os defensores de idéias opostas não estão um contra o outro. Muito pelo contrário: eu e Romero defendemos um mesmo projeto de cinema, em que os pernambucanos, juntos aos demais nordestinos (os cearenses, principalmente) são os que melhor compreenderam a urgência da brasilidade hodierna. E, apesar de eu não ter gostado taaaaaaaaaaaaaanto assim de TATUAGEM, tenham certeza, leitores, o defenderei com vigor diante de qualquer mau augúrio apolítico campeão de audiência!

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