Copa do Mundo: festa da democracia ou uma guerra à vista?

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O que o ano de 2014 reserva às ruas brasileiras? Acreditando no futebol como instrumento de apassivamento, pensou-se na Copa do Mundo como uma grande festa popular abraçada por todos os brasileiros. Os exemplos do ano passado mostram que o megaevento apenas atiçou as insatisfações populares.

*por Priscila Viana

 As Jornadas de Junho que eclodiram no ano passado representaram um significativo termômetro das contradições que envolvem o discurso oficial brasileiro do desenvolvimento e do progresso urbano. Sob o manto de uma política econômica supostamente próspera, se escondem o crescimento das taxas de desemprego, o aumento nos preços da cesta básica, a tensão entre a falta de políticas públicas de moradia e a conivência estatal com a agressiva especulação imobiliária e o caos do transporte público – só para listar alguns sintomas de uma agenda governamental mal resolvida e, ao mesmo tempo, camuflada.

  Os protestos que tomaram as ruas em várias cidades do país há cerca de seis meses podem ter sido inovadores na quantidade de manifestantes, mas não em seu conteúdo – entre eles a reivindicação do direito à cidade. Como uma panela de pressão, o espaço urbano segue acumulando conflitos sociais mal resolvidos e, quando a situação se torna insustentável, está armada a arena de combate entre a população insatisfeita e o Estado, através de seu aparato militar. Há pouco tempo, os moradores de regiões como a comunidade Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro; a Cracolândia, em São Paulo; o bairro Pinheirinho, em São José; e, para chegar mais próximo da realidade sergipana, o povoado Aguada, no município de Carmópolis, tiveram seus direitos violados e foram duramente violentados e reprimidos pela força militar de um Estado que tem como objetivo a formalização do “progresso” imobiliário e comercial da cidade.

  Mas, afinal de contas, o que há em comum entre as violentas ações de desapropriação em detrimento da especulação imobiliária e as Jornadas de Junho no Brasil? Em todos esses casos observamos a clara demonstração de um projeto governamental autoritário para lidar com as relações entre o poder público e a população quando se trata de ocupar o espaço urbano – tudo sob um discurso falacioso de direitos humanos, mas limitados pela lógica do mercado, o que é contraditório com a própria ideia de humano, como afirma o filósofo Edson Teles.

  É inegável que os primeiros passos das Jornadas de Junho foram dados pelo Movimento Passe Livre, em São Paulo – embora sejam diversos os motivos que levaram milhares de pessoas de diferentes classes sociais às ruas. Mas, por outro lado, foram a força e a desproporção da repressão policial que atuaram como catalisadores das manifestações – como um fósforo que acende a pólvora e se encarrega de dinamitar todo o processo. Com a população nas ruas, o direito à mobilidade se entrelaçou com outras pautas referentes à questão urbana, como a crítica à segregação do espaço urbano e à lógica da gentrificação e limpeza social, acionadas principalmente pela preparação de megaeventos como a Copa do Mundo. É justamente a proximidade da Copa que vem intensificando ainda mais as insatisfações de uma população que carece – e muito – de mais investimentos em serviços essenciais, como saúde, educação, moradia e saneamento básico.

 Da mesma maneira que os índios da Aldeia Maracanã se tornaram um obstáculo às preparações da Copa do Mundo em 2014, agora os inimigos são os manifestantes que questionam os gastos públicos exorbitantes voltados à realização do evento e a repressão com que diversas pessoas – consideradas empecilhos à ideia moderna de desenvolvimento – são tratadas e segregadas do espaço urbano.

  Não é à toa que, em diversos estados – inclusive em Sergipe –, os governos anunciam concursos para aumentar o efetivo da Polícia Militar. Também não é à toa que, no final de dezembro, tenha entrado em vigor Portaria do Ministério da Defesa que, junto com o Manual “Garantia da Lei e da Ordem”, regulamenta o uso das Forças Armadas em manifestações sociais, protestos e outros “distúrbios em ambiente urbano” que possam comprometer a ordem pública durante os jogos da Copa do Mundo. Qualificados como “forças oponentes”, os manifestantes são encarados pelo governo como “ameaça” à preservação da ordem pública – governo formado pelas mesmas pessoas que há quase meia década faziam o mesmo: questionavam a governabilidade e se manifestavam nas ruas. Como um efeito bumerangue, todos aqueles que sentiram na pele a dor de serem tratados como “terroristas” – principalmente a presidenta Dilma Roussef -, estão agora jogando o jogo da Ditadura, inclusive mantendo ao lado os mesmos aliados do Governo Militar.

  Como numa Guerra Fria, os dois lados da trincheira já estão devidamente tensionados. Por um lado, o movimento “Não Vai ter Copa” ganha coro nas mídias sociais e já delineia sua atuação pelas ruas. Por outro, um governo inseguro, temeroso e autoritário, mas que sabe o poder de mobilização de um povo. Se, em junho do ano passado, a repressão policial mostrou seu potencial de intensificar os conflitos, o que esperar de 2014 – quando as pautas que ganharam as ruas em 2013 continuam mal resolvidas, acumuladas às insatisfações com os gastos e a preparação da Copa do Mundo?

 Há quem diga que dessa vez “o gigante acordará de novo”. O jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto afirma que, ao contrário do que muitos pensam, o povo não “acordou agora”, a não ser uma boa parte que viu nas Jornadas de Junho uma oportunidade de sair de casa com a roupa da moda e postar sua foto nas mídias sociais. As ruas estão tomadas pelo povo que nunca dormiu, afinal de contas não tinha tempo nem local para isso – estava sendo expulsa, segregada e violentada, enquanto o tal “gigante” dormia o sono da ascensão social.

 A prova de que nunca dormimos está no acúmulo de forças e na persistência que o atual cenário político exige. Existem diversas formas de suprir as demandas sociais de um país que dorme no berço esplêndido da desigualdade e de resolver os conflitos sociais que são nada mais do que consequência desse contexto. Jogar mais polícia nas ruas e militarizar ainda mais a frota são as opções de uma forma de governar que vê no Direito Penal a repressão – não a resolução – desses conflitos. Vale tudo para manter a lógica do desenvolvimento urbano e os acordos financeiros da Copa do Mundo – até mesmo jogar álcool na fogueira que há muito já segue acesa.

 A Copa certamente revelará um bom saldo de gols para os mais afoitos nas arquibancadas e bolões de todo o país. O grande dilema está no saldo dos conflitos que o evento certamente deixará nas ruas – e que não se pode prever, mas poder-se-ia evitar, caso houvesse vontade política e democracia para tanto.

  Por falar, em democracia, nada mais apropriado que o questionamento acerca da tão falada democracia. Nas palavras do filósofo Vladimir Safatle, assim segue: “Nos ensinaram que, se criticarmos a democracia parlamentar tal como ela funciona hoje, estaremos, no fundo, fazendo a defesa de alguma forma velada de autoritarismo. Mas a democracia parlamentar é incapaz de impor limites e resistir aos interesses do sistema financeiro. O regime que nos governa pode não ser uma ditadura nem um sistema totalitário, mas ainda não é uma democracia”.

*Priscila Viana é jornalista e mestranda em Antropologia Socia

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