Entre os limites e os avanços – Cinema Brasileiro em 2013

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“O Som ao Redor”, destaque em 2013.

A telona nacional teve avanços dignos de comemoração em 2013, mas segue sufocada pelas mega-produções internacionais, com a falta de salas exclusivas para sua exibição e com a concorrência desleal da atenção do público diante das “comédias globais”. 

*por Adriana Santana, no Tirando da Cachola

Pensei em começar 2014 com um desafio pessoal: assistir a todos os filmes brasileiros lançados no cinema. Fui analisar a empreitada do ponto de vista econômico e logístico, e descobri que não seria tão simples assim. Se o próximo ano seguir o mesmo ritmo de 2013, quando foram lançados 129 títulos brasileiros, eu teria que dispor de tempo e dinheiro para assistir de 10 a 11 filmes por mês, ou seja, de 2 a 3 filmes por semana. Considerando que o ingresso de meia-entrada mais barato em Salvador custa R$ 5,50 – felizmente no Espaço Itaú Glauber Rocha, onde os filmes nacionais são exibidos com maior frequência – eu haveria de deixar R$ 709,50 nas bilheterias ao longo do ano, pouco mais de R$ 59 por mês. Parece pouco? Abaixo apresento os limites dessa empreitada:

A) seria impossível assistir alguns filmes, porque muitos títulos nacionais não estreiam nos cinemas da capital baiana; b) seria impossível assistir alguns filmes, porque muitos títulos nacionais saem de cartaz na primeira semana, quando ainda nem sabíamos da estreia; c) seria impossível assistir alguns filmes, porque muitos títulos nacionais permanecem em cartaz em um único horário, geralmente à noite, quando o retorno para casa fica impossibilitado para quem depende de transporte público; d) constantemente o valor mensal de R$ 59 por mês para o cinema seria extrapolado, visto que o preço de R$ 5,50 por ingresso equivale a sessões no início da tarde, em dias de semana, o que inviabiliza a participação de cidadãos comuns que vivem num sistema capitalista de produção.

Lamentos à parte, se faz necessário observar o que tais limites indicam, para logo concluir que eles dizem respeito ao cinema brasileiro como todo, enquanto mercado. É certo que o número de produções, a frequência do público e a renda proveniente dos filmes brasileiros aumentaram muito desde 2000, mas é preocupante a falta de regularidade do nosso cinema. Quem afirma isso é o cineasta Ícaro Martins, que em artigo publicado no início de dezembro apresenta números: em 2000, 10,6% dos espectadores viram filmes nacionais, em 2003 a porcentagem saltou para 21,4%, caiu para 9,9% em 2008, avançou para 19% em 2010, para em 2012 voltar a cair a 10,6%. Para 2013, a estimativa é que o número suba para 18%, mas com um “porém” que se mantém firme: a má distribuição das películas acarreta na concentração de renda em poucos filmes e num fenômeno cruel, a dos bons filmes que não são vistos. A partir dos dados, o crítico de O Estado de S. Paulo, Luiz Zanin Oricchio, é enfático: “o cinema brasileiro vai bem, mas a maioria dos filmes vai mal”.

Minha mãe é uma peça, um dos filmes nacionais mais vistos em 2013.
“Minha mãe é uma peça”, um dos filmes nacionais mais vistos em 2013.

As comédias, produzidas pela Globo Filmes, com atores globais, continuam como os títulos mais vistos. Em 2013, nenhum filme superou a marca de 5 milhões de espectadores, embora dois longas do gênero tenham se aproximado bastante  – “De Pernas pro Ar 2” e “Minha Mãe É uma Peça”, com 4,7 e 4,5 milhões, respectivamente. Entre os que ultrapassaram um milhão de espectadores, apenas “Somos Tão Jovens” (1,7 milhão) e “Faroeste Caboclo” (1,5 milhão) escapam ao gênero cômico, e certamente só conseguiram esse lugar porque tratam de uma das bandas mais populares do país, a Legião Urbana. Todos os outros filmes que se destacaram são comédias – além dos já citados, entram na lista “Meu Passado Me Condena” (1,8 milhão), “Vai que Dá Certo” (2,7 milhões), “O Concurso” (1,3 milhão) e “Mato sem Cachorro” (1 milhão). A novidade deste ano é que tivemos mais produções em torno de 500 mil espectadores, o que pode ser considerado um sucesso.

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) divulgou que nos primeiros seis meses do ano o cinema brasileiro registrou o melhor momento em participação de bilheteria desde o lançamento de “Tropa de Elite 2″, em 2010.  Filmes nacionais venderam 13,6 milhões de ingressos no período, faturando R$ 141,9 milhões, 90% do total registrado em todo o ano de 2012.  Devemos lembrar que no ano passado o filme nacional mais popular, “Até que a sorte nos separe”, que também se enquadra no “gênero global”, teve público de apenas 3,3 milhões de espectadores.

Concordo mais uma vez com Luiz Oricchio quando ele diz que o estouro das comédias nas bilheterias não é um problema, grave mesmo é que os bons filmes não tenham melhor oportunidade no mercado. O pernambucano “O Som ao Redor”, por exemplo, fez apenas 96 mil espectadores. Este que é um dos melhores longas do ano, apontado como um dos dez melhores do mundo em 2012 pelo jornal New York Times e escolhido para representar o Brasil na disputa pelo Oscar 2014.

Como reagir diante do quadro? Quais os planos para o cinema brasileiro avançar? Só existe uma equação possível, apontam os especialistas: regulação do mercado. A cota de tela para a produção local é o mecanismo mais tradicional de defesa dos mercados nacionais. Hoje, os cinemas cumprem uma cota mínima entre 28 e 63 dias por sala e devem exibir de três a 14 filmes nacionais diferentes, no mínimo. Na última sexta-feira, 6, uma reunião na Ancine discutiu a mudança desse percentual para 2014. Uma das preocupações, segundo Ícaro Martins, é que o próximo ano sofra a diminuição do espaço nas telas para o cinema por conta da Copa do Mundo, considerando que muitas salas exibirão jogos.

O drama ‘Entre Nós’ estreia em 2014 e tem Caio Blat como protagonista.
O drama ‘Entre Nós’ estreia em 2014 e tem Caio Blat como protagonista.

Ainda não temos respostas para questões que se desenrolam sobre o futuro próximo do cinema nacional, mas algumas estreias de 2014 já são conhecidas e muito aguardadas. Além das comédias, sempre bem vistas, outros filmes devem atrair um público numeroso às sessões. “Confissões de adolescente”, adaptação da história que ficou famosa na série homônima exibida na década de 1990, certamente reunirá no cinema os seus antigos telespectadores, hoje com vinte e tantos anos. “O Menino no Espelho”, adaptação do livro de Fernando Sabino, tem o ator da série Game Of Thrones Lino Faccioli como protagonista e deve repetir o sucesso da literatura. Ao vencer três prêmios no Festival do Rio, o drama “Entre nós” desperta a atenção dos críticos desde então. O meio-brasileiro “Rio 2” também estreia no próximo ano e tem a Copa do Mundo como centro da trama vivida pelos personagens da animação.

Tudo indica que 2014 não irá repetir a mesma efervescência de 2013, mas vale a pena o esforço para assistir a todos os lançamentos do ano – mesmo que tenha que recorrer ao Youtube e outros portais de download para sanar as questões apontadas no início do texto.

*Adriana Santana é produtora cultural e escreve para o blog Tirando da Cachola

 

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