O filme de Roberto Marinho e os 50 anos do Golpe Militar

Digitalizado em 20-01-2011 10-34

 O documentário “Roberto Marinho: Senhor do Seu Tempo” conta a história do homem que já foi um dos mais poderosos do país. Ainda que criado para enaltecer a sua figura, filme traz, se visto através de uma leitura mais crítica, muito do que representou à nossa realidade 

*por Romero Venâncio

  Lançado oficialmente em 2011, o documentário “Roberto Marinho: senhor do seu tempo” dirigido por Rosane Braga e produzido pela FBL Criações e Produções e com amplo apoio de empresas nacionais e multinacionais. Temos um documentário “simples” em sentido formal e todo voltado para uma “visão épica” do biografado. Seu inicio no jornalismo nos anos, a criação do jornal O Globo, a Rede Globo, uma série de problemas políticos que via do governo Vargas ao Governo Collor e a sua simpatia por óperas (Carmem, em particular) e quadros modernistas.

Um homem refinado, de fala calma e quase sem se alterar, erudito e de gosto ímpar. Tudo isso tentam nos fazer crer um mordomo, alguns auxiliares de trabalho, alguns jornalistas e os filhos. O documentário procura por todos os meios passar um tom lírico com uma musica suave ao fundo nos quase 60 minutos de duração. A imagem do trabalhador do jornalismo e amante da noticia é a tônica mais forte no filme. Fala-se pouco da vida pessoal, direito reservado aos filhos e ao mordomo.

  Duas coisas me chamam a atenção no trabalho documental: a forma arquitetônica da mansão do Cosme Velho no Rio de Janeiro onde ele morou em quase seis décadas e a “implícita concepção de história” que nos que fazer entender todo o documentário. Logo do inicio, ouvimos o mordomo Edgar descrever o cotidiano do empresário Roberto Marinho na mansão onde vivia: o que comia, o quarto luxuosíssimo, os quadros e esculturas numa decoração bem tradicional em termos burgueses.

   Há um momento luminoso no que diz respeito a casa do biografado: a descrição da planta da casa. Feita num modelo colonial da “casa grande” dos antigos engenhos, nos mostra como certos hábitos do personagem estão vinculados á mansão. Lá, ele recebia para festas e jantares as “pessoas importantes do Brasil” e lá ele fazia um espaço de trabalho. A forma de começar dando voz a um mordomo numa casa ao modelo de “casa grande” já nos indica, implicitamente ou inconscientemente, um traço forte da personalidade dita mansa, fidalga e erudita do empresário.  Há um fala de um dos auxiliares de Roberto Marinho bem ao gosto de tudo isso: ele jamais dizia uma palavra, mas quando o fazia, fazia em francês…  A explicação arquitetônica da mansão acaba se tornando reveladora de como o “senhor do seu tempo” tornou-se “senhor” mesmo num País em que “Senzala” teima em existir aos olhos frios e assustados dos senhores do Brasil.

   O segundo destaque que faço no filme diz respeito à concepção de história que nos quer passar todo o tempo. É notório, em todos os depoimentos, que Roberto Marinho sempre esteve ligado a alguma forma de política: do governo Getúlio Vargas (que ele combateu e sentiu na pele as consequências do suicídio do presidente) até as relações com a ditadura pós-64 e com o Collor,  a se perder de vista as brigas com Leonel Brizola. A ideia é tratar a história de maneira linear e sempre de acordo com uma leitura coerente com a visão de mundo do biografado.

  Fica claro na fala dos depoentes: Roberto Marinho tinha “horror a qualquer coisa fora da ordem” ou procurasse quebrar os valores estabelecidos. Daqui fica claro o seu apoio incondicional aos golpistas de 1964. O argumento do filme é de que o empresário acredita piamente num golpe “comunista de Jango” e em reação a este, apoio os militares que tinham um “projeto de Nação democrática”. No ano em que lembramos os 50 anos do golpe militar de 1964 (2014!), esse documentário é ilustrativo de como se trata a história de um ponto de vista dos “vencedores desta história”.

   Todos os pontos críticos que poderiam manchar a imagem do democrata e cordial Roberto Marinho são claramente revertidos em seu favor. O seu interesse era sempre livrar o Brasil de aventureiros, populistas e comunistas. Resguardado por este objetivo em dose tripla, tudo é justificado na prática jornalística e de homem de poder do empresário Roberto Marinho. Esse tipo de leitura da história que tanto agrada a certos acadêmicos que adoram “monumentar pessoas” e a teóricos da política que se servem de figuras do poder para fazer suas óbvias “análises” tem servido no Brasil hoje para turvar qualquer possibilidade de leitura crítica da história e livre dos delírios da direita militante de hoje nas redes sociais, jornais, livros e televisões.

   Estamos claramente num campo hermenêutico em disputa de um passado brasileiro que teima em não passar. Torturas, exílios, assassinatos, indústria cultural, criminalização de pobres e movimentos sociais e manipulações políticas travestidas de jornalismo, nada disso podem aparecer ou tornarem-se popular. É preciso que não saibamos da história que não tenha passado pelo crivo dos vencedores: essa é a lição que nos transmite o documentário em que um ser humano é classificado como “senhor do seu tempo”.

 Como diz a epigrafe dessas notas pela boca de Walter Benjamin, “nem tudo na vida é modelar, mas tudo é exemplar” ou ainda podemos aprender alguma coisa fazendo uma história a “contrapelo” a partir das narrativas dos “vencedores”. Antes de tudo para os dominados e resistentes: memória para uso diário.

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

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