Eduardo Coutinho: o cineasta dos de baixo.

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“Coutinho teve um papel fundamental para que o documentário brasileiro passasse a ser considerado cinema com “C” maiúsculo. Um mestre de uma geração (…) que viu de perto tantas tragédias pessoais e coletivas do povo brasileiro e acabou cumprindo a sua tragédia pessoal em família”

*por Romero Venancio

“Aqui, a miséria obriga a descer, como há dois mil anos descia para as criptas: hoje ainda, o caminho para as catacumbas passa pelo jardim dos suplícios, e ainda hoje os deserdados são os seus guias.” Walter Benjamin. In: Imagens de Pensamento

   O Brasil perde o seu mais importante e criativo documentarista: Eduardo Coutinho. Autor de uma cinematografia de causar inveja a qualquer cineasta do mundo, Coutinho ainda tinha aquela dimensão “autoral” no seu oficio de cineasta. Sabíamos de pronto um filme de Coutinho pelo seu estilo inconfundível. Mesmo quando esteve na televisão, no programa Globo Repórter, não perdeu esse estilo já desde os seus primeiros documentários já marcantes. Como não achar genial “Seis dias de Ouricuri” ou “Teodorico, o imperador do sertão”? Dois trabalhos elaborados para a televisão nos anos 70.

   Foi com o “épico” Cabra marcado para morrer que Coutinho ganha a primeira e maior notoriedade no cinema brasileiro. O filme reconta e remonta a história de João Pedro Teixeira e sua família de paraibanos resistentes e atingidos tragicamente pelos combates da luta pela terra. Um filme que seria de ficção muda o rumo 20 anos depois de sua refilmagem e do encontro com alguns dos personagens envolvidos na película inicial. Um filme que honra a ideia de história num país tão ignorante de sua memória. O filme é bem aquilo que exatamente disse Roberto Schwarz, num belíssimo ensaio de época: “O fio da memória” (que depois será titulo de um outro filme de Coutinho sobre os 200 anos da abolição da escravatura). Mas não qualquer memória, mas a memória dos de baixo, dos mais pobres, dos sem palavra, dos oprimidos desta Pindorama que adora massacrar sua classe trabalhadora…

   O cineasta carioca passa a se credenciar como aquele cineasta que prioriza filmar pobres de toda sorte nesse Brasil afora. Filma a herança negra em “O fio da memória”, moradores de favela em “Santa marta: duas semanas no morro” e “Babilônia 2000”, filma moradores de um lixão no Rio de Janeiro em “Boca de lixo” (para mim, um dos maiores documentários já feitos no Brasil e uma senhora aula de como filmar a vida do povo pobre sem ser populista) e filma a experiência religiosa de pessoas pobres dos morros cariocas no genial “Santo Forte”. Em tudo que Coutinho fez parecia ter a marca de um “Humanismo radical”, ou seja, um respeito absoluto sobre o “objeto filmado”, o ser humano (de um modo geral,  pessoas das camadas populares).

   Em seu ofício Coutinho conseguia nos passar uma aula de cinema com seus filmes e ao mesmo tempo uma aula de como manter a memória num país levado a perder tal memória cotidianamente. No Brasil, a memória é organizada sempre de cima e pela lógica das classes dominantes. Basta ver as praças, prédios públicos, ruas e avenida, tudo com os nomes dos legítimos opressores deste povo. Uma história feira de “grande vultos” e de sobrenomes afamados pelo dinheiro ou pelo posto que ocupa. Acostumamos a naturalizar esses “feitos” e seus senhores. No cinema de Eduardo Coutinho a história tem outra dimensão e outro percurso. Primeiro, prioriza os de baixo e as suas estratégias de sobrevivências em situações completamente adversa. Coutinho busca humanamente o rosto dos pobres, o seu lugar de moradia, as suas aspirações, a sua religião, o seu modo de vida numa sociedade incluída que faz questão de excluir, de humilhar e de inferiorizar pobres de toda sorte.

   Por tudo isto, afirmamos ser Eduardo Coutinho o mais importante cineasta do Brasil. Viveu a trajetória daquela geração brilhante dos anos 70, do cinema novo, da descoberta do Brasil profundo, aquela geração que deu voz a gente que a história costuma relegar ao esquecimento, um cinema que problematizava um Brasil que teimava em não se reconhecer e acima de tudo, Coutinho teve um papel fundamental para que o documentário brasileiro passasse a ser considerado cinema com “C” maiúsculo. Um mestre de uma geração que nos deixa de maneira trágica e nos faz pensar naquela que viu de perto tantas tragédias pessoais e coletivas do povo brasileiro e acabou cumprindo a sua tragédia pessoal em família.

   Assim como a vida, a história também não é uma reta euclidiana e sendo assim, tem suas idas e voltas e de vez em quando nos pega completamente desprevenidos para situações limites em que a morte é a mandatária chefe. Eduardo Coutinho fez escola e sua obra e seu estilo continuará naqueles e naquelas que sabem que cinema é arte comprometida com a minha e tua vida…

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe e escreve sobre cinema para REVER

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