A anatomia do Hate Click: por que é necessário parar?

Campeã de hate clicks últimos tempos: a bela, talentosa, evangélica e proto-fascista Rachel Sheherazad
Campeã de hate clicks dos últimos tempos: a bela, talentosa, evangélica e proto-fascista Rachel Sheherazad

“Clique da indignação” se torna um grande problema ao dar audiência e notabilidade a ideias retrógradas, através da provocação dos próprios críticos. Entenda-o e saiba por quê é preciso parar

 

*por Irlan Simões

No dia 4 de fevereiro aportou na minha timeline do facebook um link curioso que trazia o título de “7 coisas para abandonar na internet em 2014”. Por ser um certo impulsivo por conteúdo de virtual (pronto, assumi), acessei e vi um post curto, separado por itens. No texto eram dadas dicas sobre coisas que fazemos no mundo virtual da qual mal percebíamos os seus efeitos negativos.

O post traz pontos mais bobos, como propor às mulheres o fim dos “belfies”, como são chamadas as fotos que povoam os instagrans do mundo com bundas malhadas em calças de malhação, até outros mais sérios como o “slut shaming” e o pornô revanche, que são as formas mais expressas do machismo nas redes sociais.

 O ultimo deles, mais precisamente o ponto 7, foi o que mais chamou a minha atenção e que deu aquela repentina necessidade, óbvio, de “COMPARTILHAR”. Muita gente precisava ver isso, em especial o público diverso que compõe a minha timeline (que tem, inclusive, gente que nunca vi na vida mas com quem troco muita informação e opinião). Botãozinho apertado, reservei um comentário curto à parte que me cabe.

“Ponto pertinentes. É a nova tônica da economia da internet: o ódio ou a indignação como vetor de audiência. Não se permitam!

7) Hate click, o clique da indignação
Pra que clicar em algo só por raiva: temos mais é que tirar a audiência desse tipo de conteúdo. Tem muita polêmica inútil por aí, e também muita gente que joga com a sua indignação para ganhar audiência. Apenas ignorar é uma solução mais agradável. Sério, muito coisa não merece ser nem vista, quanto mais comentada.”

(Outra boa definição está aqui no UrbanDictionary.com)

O post não ganhou muita atenção. Quatro curtidinhas e dois comentários, e o debate não engrenou. Curiosamente uma incrível série de acontecimentos começou a me provar de que era mais do que necessário reforçar esse ponto, principalmente diante daqueles mais participativos nas redes sociais (ou mesmo fora delas, sério).

Exatamente no MESMO DIA em que compartilhei o texto, e apenas um dia após sua postagem original no site YouPix.com.br, o seguinte vídeo ganha notabilidade nas redes sociais.

RACHEL SHEHERAZAD e os “justiceiros”

 Sem entrar em maiores debates sobre o conteúdo vomitável do vídeo, aqui já identificamos que a provável campeã de hate clicks da semana foi a jornalista bela, charmosa, talentosa, evangélica e proto-fascista que é âncora e “comentarista política” (nossa…) do principal telejornal da SBT, terceira maior rede de televisão do país. Todos lembram que Sheherazad se notabilizou através de um comentário revoltado sobre o carnaval há uns dois ou três anos que foi esse >>aqui<<.

Pedindo minhas desculpas antecipadas por estar estimulando o hate click, lancei o vídeo para apreciação geral, e a reação foi grande. Numa sequência inicial de sete comentários de pessoas diferentes, das quais apenas quatro conheço pessoalmente, todos foram claramente contrários ao conteúdo do vídeo. Mas aqui que entra a principal questão.

Comentários no post em que colaborei com o hate click de Sheherazad.
Comentários no post em que colaborei com o hate click de Sheherazad.

 Porra, ignorem!

O post ainda reverberou por um tempo a mais, em que apenas um, do total de doze comentaristas diferentes, fez alguma piadinha aprovando conteúdo (sobre isso falaremos lá na frente). Tirando a piadinha, todos os outros, afirmo sem medo de errar, fazem parte daquilo que chamaria de “campo progressista da sociedade brasileira”. São pessoas que reprovam ideias retrogradas e que não compactuam com aqueles reivindicam o papel de um suposto “cidadão de bem”. Pessoas que, nas palavras de Rachel Sheherazad, deveriam adotar um bandido.

O que isso quer dizer? Que noventa por cento das pessoas que tiveram acesso ao vídeo através de mim estavam tão dispostas a criticá-lo quanto que eu fiz. Mas, assim como eu, cairam no vício que acomete o nosso dia-a-dia no mundo virtual: reverberar o conteúdo de um polemista barato. Até a postagem desse texto, o vídeo original continha 70 mil visualizações. Caso a gente siga a lógica da resposta ao meu post, pelo menos 60 mil visualizações foram feitas por hate clickers!

Eis que aparece, ainda no dia 5 de fevereiro, através de Fábio Z. Candioto (que também não conheço pessoalmente) um link de seguinte título: “John Oliver sobre a trolagem óbvia de Sarah Palin: Apenas ignore essa merda!” (copie e cole esse link www.uproxx.com/tv/2013/06/daily-show-john-oliver-sarah-palin-ignore-her/).

“A luta contra o hate click é internacional!”, pensei imediatamente. No link, pode-se assistir a um vídeo de um programa de humor que satiriza os clássicos telejornais norteamericanos.

Sarah Palin é uma política republicana que se notabilizou nas eleições de 2008 ao ser a vice da chapa de John McCain contra o democrata Barack Obama. Conservadores orgulhosos, os republicamos escolheram a sua polêmica figura por ser uma mulher típica da classe média americana: branca, cristã protestante, machista, racista e… mãe de lindas crianças (isso dá votos).

Desde 2010 a figura em questão é responsável por “comentários políticos” na Fox News, emissora historicamente ligada aos republicanos. Portanto, faz o jogo de Sheherazad na hora de falar absurdos em rede nacional de televisão. Diante do retorno da atual ex-Governadora do Alaska (sim, ela governou aquele lugar esquisito), o “âncora” fala, sem tirar nem pôr, exatamente isso aqui:

“Porra, é exatamente isso o que ela quer. Não é porque eu passei por um supermercado de merda que eu preciso comprá-las [se referindo à Fox News e à republicana!!!]. Apenas ignore essa merda. Eu garanto que os Estados Unidos serão melhores. É como se fizéssemos uma limpeza fecal nos nosso cérebros”.

Pesado, mas preciso. John Oliver nos dava, lá do hemisfério Norte, o recado de que o hate click é uma ameaça constante, e que antes de odiar essas figuras, devemos aprender a ignorá-las. Porque o negócio é o $eguinte.

John Oliver e o "Perae, porra. Basta ignorar esse lixo!". Valeu meu brother, você é dez!
John Oliver e o “Perae, porra. Basta ignorar esse lixo!”. Valeu meu brother, você é dez!

 

Audiência na internet

Seus olhos, sua mente, sua atenção e seus sentimentos são A MERCADORIA que interessa a esses provocadores. É a audiência. Pensem que estamos falando da internet, uma plataforma totalmente distinta daquelas as quais estávamos acostumados em outros tempo. O lance dela é o tal do “2.0”, no qual o receptor também pode produzir conteúdo. E é o que mais estamos fazendo ao cair na cilada do hate click.

A provocação é a máquina, nós somos a matéria-prima. Em especial por compormos o tal do “campo progressista da sociedade brasileira” e não aceitarmos que bizarrices como essas existam sem que seja devidamente criticadas e desconstruídas publicamente, ainda que no mundo virtual. São os nossos números que são compilados e apresentados para a ampla variedade de anunciantes que financiam esses programas ou sujeitos.

Aqui entra a contribuição de Xico Sá, com todo o direito à confusão causada pelo provável estágio de cachaça do referido, a considerar que foi lançado às 3h da madrugada de um quarta-feira, dia de jogo de futebol.

Xico Sá, às três da madruga mandando a real. Daqueles momentos em que as coisas ficam mais claras...
Xico Sá, às três da madruga mandando a real. Daqueles momentos em que as coisas ficam mais claras…

Aqui cabe um rápido levantamento de quem são esses sujeitos aqui em terras tupiniquins. No setor da comédia coxinha e babaca se notabilizaram Danilo Gentilli e Rafinha Bastos e seus intermináveis repertórios de falar besteira racista, machista e homofóbica sob o escudo do “sou vítima do politicamente correto” (também vamos evitar entra nesse debate, porque esse é um termo ASSAZ ilógico).

No plano da política, cuja audiência simboliza ganho eleitoral, o time é ainda mais forte. São campeões na lógica do “fale mal, mas fale de mim” os seguintes sujeitos: Silas Malafaia, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro. Não obstante, andam lado a lado nas principais questões que concernem às pautas dos direitos humanos, formando um bloco muito macabro que envolve a ala mais fundamentalista, reacionária e popular do cristianismo brasileiro, ao lado de um proto-fascismo de militar de pijama, agora renovado na figura de um coroa com pinta de galã e ideias de um genocida. Diga-se de passagem, foi o próprio pastor Silas Malafaia que celebrou o casamento de Bolsonaro. Massa, hein?

Também tem a parte dos blogueiros reaças que hoje ganharam um novo exemplar. Essa espécie tem como baluarte o paranóico anti-comunista Olavo de Carvalho (aquele que disse que a Pepsi usa fetos abortados), o irresponsável do Augusto Nunes, o intelectualmente desonesto do Reinaldo Azevedo, e agora o bebêzão da turma que vem ganhando uns biscoitinhos ao som de “bom garoto, agora rola”, que é o tal do Rodrigo Constantino.

Sobre os políticos listados acima vale a pena disponibilizar essa “surra de gato morto até o bicho miar” lançada por Bob Fernandes. É sobre o ovo da serpente do fascismo.

Vale mesmo a pena difamá-los?

Nesse tema, o mais importante de se ressaltar, no entanto, é a quem estamos nos referindo ou dirigindo a nossa crítica com o tal do hate click. Por isso é importante destacar o seguinte: esses provocadores são defendidos por uma parcela majoritária numericamente, mas minoritária da vida real da sociedade brasileira. Estão divididos, basicamente, em três diferentes setores.

O primeiro deles é o Reaça Virtual.  São seres que tem pouca representatividade no mundo real, se escondem atrás dos teclados e das telas de computadores. Povoam as caixas de comentário dos principais portais de notícias falando sobre petralhas, comunistas, maconhistas, gayzistas e abortistas.

O segundo deles é o Zueiro HU3brbr. É o exemplar moderno do tiozão reaça em sua fase adolescente, com a diferença é que são babacas indialogáveis, que reagem a qualquer debate na forma da “zueira”, da bagunça e da avacalhação em grupo. Usam hashtags, memes, frases descoladas, mas pensam como ex-funcionários públicos comissionados dos tempos da Ditadura.

O terceiro deles é o Desavisado em Geral. São, em grande parte, pessoas que deram pouca ou nenhuma atenção às Ciências Humanas e por isso reagem a qualquer assunto de forma impulsiva. Foram às Jornadas de Junho com bandeiras do Brasil nas costas, cantaram o hino, gritaram “sem partido” e “sem violência” e hoje estão perdidos. No máximo se resumem a falar que a corrupção é o mal da nação ou que a segurança se faz dando tiro em bandido.

A tirinha em questão é do gênio fdp do Laerte, pra variar um pouco.
A tirinha em questão é do gênio fdp do Laerte, pra variar um pouco.

Atentem: o Reaça Virtual é inimigo, está do outro lado da fronteira; o Zueiro HU3brbr é insignificante, nem ele se leva a sério; o Desavisado em Geral é disputável.

Cada um desses merece uma resposta diferente ao apoiar conteúdos polemistas que geram nossos hate clicks. Ao primeiro se oferece o embate, o conflito das ideias; ao segundo se oferece o desprezo ou um alerta de que é preciso amadurecer; ao terceiro se oferece o convencimento.

Dar audiência ou reverberar um conteúdo provocativo não contribui na resposta a nenhum desses três. Pelo contrário, só contribui com a proliferação desses exemplares que compõem o que há de mais intolerante e retrógrado numa sociedade em estado de barbárie.

É o que mais estamos fazendo nesse impulso de combater o que acreditamos ser errado. Paremos com o hate click e apenas ignoremos. Será melhor.

victor

 

P.S: atualizado em 07/02/2013, às 22:50

Por outro lado, o hate click também gerou o seguinte constrangimento

*Irlan Simões é jornalista e membro da diretoria da REVER

3 comentários sobre “A anatomia do Hate Click: por que é necessário parar?

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  2. Texto corajoso, sobretudo ao arriscar classificar os reaças… tá valendo como um tipo de mapeamento. Mas o legal é colocar esse tem em discussão. Acredita que não vi a Sherazade? Mas para não deixar esse tipo de postura sem resposta, tem de fazer o que o Psol fez, chamar na chinça na Justiça . Que se explique e comece a falar sério, essa jornalista. Bom texto, Irlan. Obrigada.

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