Dois anos depois, dos Ultras Ahlawy aos mártires da Revolução no Egito: Não Esqueceremos

imagem da homenagem
Cada uma, das 74 vítimas do Massacre de Port Said, foi homenageado com um mosaico, uma bandeira e uma faixa com o seu nome. (foto: reprodução do vídeo)

Homenagem da principal torcida do maior clube do Egito inspira combatentes do regime autoritário que domina o país. ‘Choreo’ fez menção às 74 vítimas do confronto político que marcou o Massacre de Port Said.

*por Irlan Simões

O feito é de uma relevância tão grande que chega a assustar. Sinais ainda mais claros de que os momentos mais complicados de um povo são aqueles que inspiram a criatividade e sua capacidade de organização. Os ultras Ahlawy, que apoiam o maior clube egípcio, o Al Ahly, deram mais uma prova de que se renovam e continuam inspirando o povo do Egito a combater os regimes autoritários que teimam em continuar dominando o país.

O vídeo que segue abaixo é o que traz imagens do evento que ficou conhecido como Massacre de Port Said, ocorrido em 1º de Fevereiro de 2012, no jogo Massry 3×1 Al Ahly. A torcida local entrou em campo e seguiu ao setor onde se encontravam os torcedores do clube da capital Cairo. Ao todo, foram assassinados 74 torcedores do Al Ahly.

O Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF) teria sido responsável por planejar o massacre, já que a torcida do Al Ahly representava uma das principais organizações na luta contra Hosni Mubarak e o consequente regime de transição proposto pelos militares. O SCAF servia de entidade de “controle provisório” do país durante a instabilidade gerada pela deposição do presidente Mubarak após 30 anos de poder.

Uma série de coincidências dá força à tese de que o evento foi planejado. O “Massacre de Port Said” aconteceu no jogo contra o Massry, clube cuja principal torcida é rival à do Al Ahly, e declaradamente pró-regime. Sobreviventes apontam que a barreira que separava as torcidas foi aberta pela própria polícia, enquanto a saída de emergência para os ultras do Al Ahly, que era a torcida visitante e portanto minoritária na ocasião, se manteve fechada mesmo durante o momento mais crítico da confusão.

Após a tragédia, jogadores do Al Ahly manifestaram apoio à família das vítimas e pediram punição aos culpados pelo acontecido, inclusive as forças de segurança que foram negligentes durante o episódio. Os atletas do clube, liderados pelo ídolo Aboutrika, prometeram vencer a CAF Champions League, maior torneio continental de clubes africanos. Prometeram e cumpriram, ganhando notoriedade no Brasil ao jogar contra o Corinthians no Mundial da FIFA, no mesmo ano.

O Massacre de Port Said se tornou um símbolo da resistência e suas vítimas se tornaram os mártires da Revolução do Egito. Os Ultras Ahwaly que já se notabilizavam por compor grande parte das ocupações, em especial na Praça Tahrir, além de estar sempre na linha de frente nos confrontos físicos contra a Policia, ganharam ainda mais apoio popular.

No dia 2 de fevereiro de 2014, portanto no “aniversário” de dois anos do Massacre de Port Said, os torcedores fizeram uma das mais criativas e complexas coreografias já vistas na história do futebol.

Cada uma, das 74 vítimas do Massacre de Port Said, foi homenageado com um mosaico, uma bandeira e uma faixa com o seu nome. Dentre as faixas que aparecem estão as seguintes frases: “Os mártires são medalhas em nossos peitos”, “Vocês escreveram seus nomes na história com o sangue de vocês mesmos” e “Nós nunca esqueceremos vocês”.

A música que é cantada ao final do vídeo é o hino das forças populares e democráticas que combatem o regime autoritário egípcio. A letra trata do Council of Bastards (Conselho de Imbecis), ao se referir ao SCAF. Na época o fundamentalista Mohamed Morsi ainda não havia sido eleito, o que só aconteceria quatro meses depois. Seu governo duraria apenas um ano, quando um novo golpe é dado, voltando o poder ao SCAF.

A letra de Rami Essam faz menção ao Massacre de Port Said e aos jovens mortos na ocasião. Traz o estilo clássico da cultura popular egípcia e seus traços árabes, ao tratar de sangue, honra e vingança. Chama os policiais de “cães” e pergunta se o preço do sangue dos mártires teria custado o suficiente: afinal, a Revolução não ia parar.

Oh, Conselho de Imbecis
(Rami Essam)

Em Porto Said, as vítimas viram a traição antes da morte  
Eles viram um regime que só oferece o caos como única alternativa
O regime pensou que esse fato os tornaria intocáveis
E fazer o povo revolucionário se ajoelhar diante das regras militares

Tire a coleira de mais cães seus
E espalhe caos por todo o lado
Nós nunca confiaremos em vocês
E não deixar que nos controle nem um dia a mais sequer

Em Porto Said o regime os cães foram soltos
Numa ação orquestrada pelo SCAF
Eles foram às pessoas:
Espalhando o caos e matando a nossa mais valiosa juventude

Nossa juventude tinha engenheiros, trabalhadores e crianças
Eles se foram, mas seus sonhos são o fim do seu domínio

Oh, Conselho de Imbecis!
Quanto custa o sangue de um mártir?
Você vendeu nosso sangue por muito pouco
Para defender o regime do qual faz parte

Os Ultas Ahlawy aproveitaram a música e fizeram uma versão com uma nova letra, contando um pouco da própria história, e qual a relação entre futebol e a Revolução Egípcia. Juntas, as duas contam o que acontece no Egito atualmente.

Nossa História (Ultras Ahlawy)

Quando nós chegamos o futebol era cheio de mentiras e enganação
Era uma distração, uma máscara para o autoritarismo
Eles tentaram controlá-lo e torná-lo uma paixão nacional
Esqueceram que os estádios estavam cheios de milhares

Tente matar a nossa ideia mais e mais. Fazer injustiças pro todo o lado
Nunca esqueceremos o seu passado, seu escravo do Regime

Quando a revolução estourou, nós tomamos as ruas de toda a nação
Morremos pela liberdade e pela cabeça dos corruptos
Não estamos satisfeitos: o regime ainda comanda
Com os seus cães e com a injustiça por todo lado

Tente matar a revolução mais e mais
A palavra “Liberdade” te deixa louco!
Não importa a agressividade do guarda
Ele é uma galinha, diante da minha voz

Nós dissemos dos estádios para milhões de pessoas
Derrubemos o regime que massacra a nossa geração todos os dias
Nos apoiaram e fizeram o inimaginável
“Eles mataram nossos amigos mais preciosos e o sonho dos jovens”

A lição que o Massacre de Port Said deixa é que um jogo de futebol é um evento que possibilita uma ampla variedade de acontecimentos. Basta uma uma faísca para que um verdadeiro barril de pólvora se acenda gerando uma série de acontecimentos violentos em cadeia. No Egito isso se deu de forma planejada, com fins políticos, num país em uma verdadeira guerra civil.

Os casos brasileiros mais recentes podem nos levar à desconfiança de que não estaria havendo, também, uma certa negligência e manipulação dos acontecimentos para outros fins políticos. Basta lembrar que a Policia Militar de Santa Catarina, com o aval do Ministério Público Estadual, se absteve da responsabilidade de garantir a segurança de uma partida em que duas Torcidas Organizadas, historicamente rivais, se encontrariam em um campo neutro sem qualquer barreira física que proporcionasse as suas divisões. Uma gama de elementos que se soma ao fato se ser a última rodada de um longo torneio, decisiva para ambos os clubes.

Os Ultra Ahlawy, por sua vez, mostraram como o futebol também pode ser apropriado para outros fins que não sirvam à propaganda do capital ou do Estado. Simbolizaram a contra-propaganda que se aproveitava dos estádios, da paixão e de toda estética que envolve o futebol a favor da luta popular e anti-autoritária.

Seus exemplos seguiram pelo mundo, como os ultras dos principais clubes da Turquia. Eles criaram Istambul United, “ombro a ombro, contra o fascismo”, que virou até documentário.

*Irlan Simões é jornalista e membro da diretoria da REVER

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