Cristian Góes: Parte 1 – Da infância ao Jornalismo

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Na primeira parte da entrevista de Cristian Góes ao coletivo A MOSCA, parceira da Revista REVER, o jornalista fala da sua infância, da sua formação e da sua experiência com a política enquanto militante do Partido dos Trabalhadores

*por A MOSCA

Antes de ler a Parte 1 da entrevista com Cristian Góes, confira o texto introdutório, clicando aqui.

A MOSCA: Bom, aqui na Mosca a gente sempre quer saber dos primeiros passos da pessoa. Onde você nasceu e como foi sua formação ?

Cristian Góes: Eu nasci em Aracaju, filho do bairro America e com muito orgulho, meus pais são servidores públicos, hoje aposentados. Minha mãe foi professora de português e meu pai foi agente administrativo. Eu nasci aqui e cursei o primeiro grau na escola  Arício Fortes, depois fiz meu segundo grau no Salesiano, mas como curiosidade os dois primeiros anos, primeiro e segundo ano estudei no Salesiano em Carpina, em Recife. O terceiro ano estudei aqui em Aracaju via bolsa e fiz vestibular para medicina e para jornalismo. Ainda bem não passei em medicina, fui talvez influenciado muito jovem e acabei passando em jornalismo, fiz jornalismo na Fit (Faculdades Integradas Tiradentes) funcionava na Rua de Lagarto no Centro, hoje conhecida como Unit. Antes de terminar jornalismo, já estava  trabalhando no Cinform. Trabalhei quase nove anos Cinform, várias editorias e experiências marcantes por lá. Uma grande escola. Também trabalhei paralelamente ao Cinform com a Assessoria do Sindicato dos Professores (SINTESE). Trabalhei sete anos lá, uma outra grande escola também, onde pude ter uma outra visão e compreensão de comunicação.

AM: Voltando a sua juventude, na época de estudante como se deu seu contato com a literatura e o que te fez vislumbrar ser jornalista? Você já escrevia?

Cristian Góes:  Teve uma grande influencia de minha mãe, que era professora de português e lá em casa era meio que “obrigado” a ler, ela era muito rígida sobre a leitura, lembro que tinha uma coleção chamada Para gostar de ler, coleção fininha que era composta por vários contos, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, então essa foi uma presença constante na minha formação a leitura. A leitura não só de contos, mas de romances também. Acredito que li grande parte dos romances da literatura brasileira por conta de minha mãe. Ela era professora, recebia os livros e me obrigada a ler. Além de ler, eu era obrigado a fazer os resumos, era uma espécie de fichamento com minhas palavras. Eu agradeço muito ela ter me obrigado, porque foi importantíssimo na minha formação e ai tem coisas, por exemplo, no Arício Fortes, ainda no ensino fundamental, além das leituras obrigatórias que fazia em casa, não pela escola, por conta de minha mãe. Por exemplo, hoje não tem mais isso, me lembro que era um sucesso interessante quando foi instalado um quadro e o jornal Gazeta de Sergipe ia para lá, eram colados dois quadros, então a gente lia e os professores passavam trabalho sobre a leitura do jornal.  Sempre, eu tenho alguns livros em função das leituras dos contos, a leitura de poemas, a leitura de romances.  Surgiam alguns poemas de infância, até tenho uns livros lá, caderninhos guardados das minhas produções. Sempre gostei sempre influenciado por essa literatura familiar, mas que tornou-se depois de um momento muito prazerosa.

AM: E a faculdade de jornalismo, quem estava com você na época da turma?

CG: Da turma muita gente acabou entrando na profissão, uma turma muito produtiva nesse sentido. Lembro-me de algumas figuras como Carla Suzane, Hélio Argolo, Ana Fontes… Lembro desses, Adelson Barreto, hoje deputado foi meu colega de jornalismo inclusive companheiro de sala e algumas outras figuras que estão até fora do estado, e trabalham no jornalismo em São Paulo, Valquíria Miron, Rita, a irmã da dela…

AM: Você também já chegou escrever para imprensa de fora?

CG: Sim, trabalhei durante dois anos como free lancer da revista ISTOÉ, foi talvez uma das experiências mais gratificantes, porque a primeira matéria, me lembro como se fosse hoje, fiz uma matéria com a menina chamada Anete, ela foi fotografada pelo Sebastião Salgado em Poço Redondo, eu trabalhava no Cinform e nós encontramos ela, foi uma foto em que ela aparece em uma cadeira escolar para uma campanha da CNBB, era campanha da fraternidade correu pelo mundo, no Brasil muito fortemente.

Nós encontramos a Anete, ela era sem-terra, e aí fizemos uma matéria sobre aquela personagem, quem era aquela menina daquela foto. Teve uma repercussão absurda porque ela era muito conhecida de foto, foi fotografada por Sebastião Salgado, era a capa da campanha da CNBB no Brasil e na America Latina e vivia numa situação de extrema pobreza. Mandamos essa matéria para ISTO É e foi publicada, com enorme repercussão a vida da menina virou de cabeça para o ar, ela saiu no Fantástico, Jô Soares, etc. Em função dessa matéria eles gostaram muito do texto, da história e passamos a fazer textos recorrentes, eu acabei ficando na Revista como free lancer para assuntos relacionados à Sergipe e Alagoas no período de 1997 e 1998. Fiz alguns materiais para Agência Brasil e para IstoÉ Dinheiro também.

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Foto da Campanha da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros, cuja personagem, Anete, foi tema da primeira matéria de Cristian Góes para a ISTOÉ.

AM: E no período da faculdade quais eram suas pretensões?

CG: Boa parte dos colegas da época tinha uma tendência para televisão, mas quando cheguei à faculdade não era televisão que eu desejava, aliás tinha um preconceito com televisão, já superei este preconceito (risos). Acho que tem muita gente boa e capacitada na TV. Eu costumava dizer que o texto exige mais do jornalista, mas depois eu vi que quem faz televisão também tem que trabalhar muito bem com texto. Mas, o meu xodó talvez pela formação de leitura e de escrita era o impresso, que era a minha praia, e foi definido isso logo no começo, logo nos primeiros períodos já estava definido. Fiz estágio em rádio e na televisão, mas não era aquilo que eu queria.  Quando trabalhei na televisão fiz estágio na Aperipê, trabalhava na edição.

AM: Nesse período de faculdade você e seus colegas de curso já tinham contato com a política? Havia algum tipo de movimento estudantil?

CG: Nós tivemos uma participação muito grande no movimento estudantil, durante os quatro anos fomos extremamente ativos na atividade política estudantil mesmo sendo de uma universidade particular. Nós fizemos paralisações, fizemos suspensões de aulas, muita reivindicação, ocupamos reitoria. Foi muito interessante. Eu participei do Centro acadêmico de Comunicação Social na época. Pessoas, como hoje a ex-deputada Tânia Soares, estudante de comunicação também, na época Rivando Goes também, o Chico Freire, fizemos parte de um movimento estudantil muito ativo e significativo, era muito atuante na Faculdade Tiradentes. Alguns já estavam envolvidos partidariamente e  também acabei me envolvendo e participando em uma agremiação  partidária, que era o PT, alguns foram PCdoB e eu fui para o PT.

AM: Como você enxerga a relação de ser jornalista e ser filiado a um partido, já que muitas pessoas questionam essa participação política do jornalista?

CG: Veja, eu sempre tive desde a faculdade boas discussões sobre ética jornalística, é um dos temas que eu gosto de debater e nosso código de ética diz que o profissional que trabalha em uma emissora ou veículo de comunicação e é assessora ou participa de uma outra atividade , não pode exercer a sua profissão de jornalista em benefício daquela assessoria, por exemplo. Eu nunca fiz matéria política essencialmente enquanto estava filiado ao partido, me sentia impedido, sei que vários colegas não sentem este impedimento, conseguem superar estas dificuldades e tal. Entendo como uma incoerência, claro uma coluna, um material que eu assino extremamente opinativo, posso falar de política e as pessoas sabem e defendo isso, acho que o jornalista e essa história de imparcialidade é uma idealização necessária, embora na prática nós seres humanos não somos imparciais, somos parciais.

  Eu costumo dizer que, por exemplo, não há condição de você como jornalista fazer uma matéria sobre os pescadores artesanais da Resina, em Brejo Grande,  que estão sendo ameaçados de expulsão por grandes construtoras e você não tomar parte para relatar o fato, você é ser humano, você participa. Imagina um jornalista cobrir a briga entre Davi e Golias, entre um gigante e um anão, aquilo não é uma briga, um conflito, e sim uma tentativa de massacre. Claro que nas histórias bíblicas o mais fraco acaba derrotando o mais forte, mas nem sempre é assim. De forma como nunca tive grandes problemas em fazer a relação entre política e redação jornalística porque nunca na verdade me envolvi na chamada política partidária de mais baixo nível, ou seja nunca utilizei os veículos onde trabalhei para fazer propaganda partidária. Aliás, as vezes fazia críticas e muito fortes, e foi por isso que deixei inclusive o PT faz tempo. Algumas pessoas não compreenderam eu sendo jornalista criticando o partido que estava.

  O jornalista tem um compromisso com a sociedade e como jornalista ele não faz propaganda do seu partido, ele não deve fazer na atuação jornalística. Em Portugal, por exemplo, há uma regra muito clara, lá ou você é jornalista ou você é assessor de comunicação, lá não pode exercer as duas funções, são profissões completamente diferentes. Se você é jornalista e é convidado para ser assessor de comunicação você tem obrigação de ir no sindicato devolver sua carteira de jornalista para trabalhar como assessor de comunicação. Tem alguns lugares que são mais rígidos nesse sentido do que no Brasil, aqui não há essa rigidez, o que há é uma recomendação para que você não misture as coisas.

Em Portugal, por exemplo, há uma regra muito clara, lá ou você é jornalista ou você é assessor de comunicação, lá não pode exercer as duas funções, são profissões completamente diferentes. Se você é jornalista e é convidado para ser assessor de comunicação você tem obrigação de ir no sindicato devolver sua carteira de jornalista para trabalhar como assessor de comunicação.

AM: Voltando a sua formação, o que você consegue identificar durante a universidade, algo marcante que tenha contribuído para sua carreira profissional?

CG: Estive na universidade entre 1990 e 1994, o curso ainda estava no começo, tivemos muita dificuldade, eu não tinha uma noção clara da idéia do que era um profissional do jornalismo, mas faltava algumas coisas que só depois vamos avaliando como foi falho, por exemplo, a baixa formação humana. A universidade tinha uma formação técnica bem razoável, mas não era boa. Os veículos de comunicação estavam introduzindo os primeiros computadores em Sergipe e ainda estávamos aprendendo a datilografar, tinha uma distância significativa entre o mercado e a formação. Além disso, nós não tínhamos professores na época com qualificação necessária para isso, eram pessoas da sociologia, letras, um jornalista mais desenvolvido na fala que acabava sendo professor.

  Veja, estou fazendo a critica à luz do hoje. Na época era o possível, o que era possível fazer e era bom que fosse feito, pois era única universidade que existia, não tinha outra faculdade, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) depois de dez, quinze anos que veio a ter a primeira turma de jornalismo. Aquilo era o possível, a nossa formação, era uma formação muito na prática, então praticamente as pessoas bem antes de se formar já estavam trabalhando, então aprendiam o exercício profissional naquele momento trabalhando. Aprendi um pouco do jornalismo, trabalhando, mas sentia sempre a necessidade de uma formação complementar, é tanto que antes mesmo de me formar em jornalismo comecei a fazer história na UFS, porque achava que o curso de história podia me dar uma bagagem mais humana, compreensão dos contextos sociais mais interessantes, acabei depois não concluindo porque o trabalho acabou me absorvendo.

  O curso de História na época era todo pela manhã, mas a formação naquele momento não foi das melhores, não tínhamos laboratório, era com muita dificuldade, o curso era só noturno, o estágio proibido. Não tivemos, por exemplo, a disciplina de assessoria, então o currículo era muito simplório. Um dia desses peguei meu histórico das disciplinas que fiz comparando com as de hoje, tem diferenças absurdas, o currículo era mínimo e com muitas dificuldades. Diante dessa dificuldade, buscamos outras formações, onde tinha curso íamos fazer, não ficamos dormindo em berço esplêndidos esperando que a faculdade nos formassem jornalistas.

  Primeiro nos formamos jornalistas pela faculdade, mas trabalhando e fazendo outros cursos e outras coisas. Muitos foram fazer Letras, no meu caso História, outros Direto até como possibilidade e alternativa de sobrevivência, pois o piso salarial não muito diferente do de hoje, era muito inferior. Era salário mínimo, você ia passar quatro anos na faculdade e estudar para ganhar um salário mínimo. Então era muito sofrida a formação jornalística, era tão sofrida que quase vinte anos que deixei a formação, fui fazer mestrado em comunicação na UFS, estou relendo teorias do jornalismo, coisas que não tive acesso no curso de comunicação, hoje a UFS tem me possibilitado começar a fazer isso.

AM: Você falou das diferenças da faculdade de antigamente e hoje. E do jornalismo? Quais são as diferenças do jornalismo sergipano, das empresas de comunicação?

CG: Infelizmente não mudou muito, essa é a realidade. Mudou a estrutura da formação. Sei que tem um processo evolutivo no processo de formação dos jornalistas, não tenho dúvida disso, em função de uma série de tecnologias e novas possibilidades, conheci rapidamente a estrutura física da Unit, conheço um pouco a qualidade dos professores de lá e da UFS sei que é um corpo de formação mais sólido, de mais qualidade que era antes. Hoje temos profissionais, professores com doutorado, isso ajuda significantemente.

  Bom, esse é ponto de vista da formação. Do ponto de vista do mercado a situação não é boa. Não é boa não por conta dos profissionais e sim por termos uma cultura empresarial, que considero pré-artesanal. São culturas familiares, empresas familiares que não são empresas de comunicação, nós temos aqui uma empresa que em função somente das suas obrigações nacionais possui um cheiro de empresa de comunicação, que é a TV Sergipe, o restante não são empresas de comunicação, não vivem exclusivamente de comunicação. Não temos empresas comunicação que vivam essencialmente da informação.

  Eu era presidente do Sindicato dos Jornalistas (SINDIJOR), nos reuníamos com a classe patronal para discutir e discutia individualmente com algumas empresas, quem cuidava da parte pessoal de alguns jornais era a mesma pessoa que cuidava dos cortadores de cana, era a mesma pessoa que cuidava do salário, da gestão de pessoas e da construtora, do engenho de cana de açúcar e não era o objetivo final da empresa a informação. E isso tem um reflexo significativo. Nós temos uma situação das mais vexatórias possíveis dos jornais diários, com dois mil exemplares que são impressos. Eles não vendem isso. Eles faturam mais com a assinatura em órgãos públicos do que compra e venda, por exemplo é muito difícil ver em Aracaju uma pessoa que vá banca e compre jornal.

  A situação é muito complicada nesse sentido. E as empresas que não demonstram nenhuma preocupação em quanto a isso? Por que não tem nenhuma preocupação? Porque não vivem da venda de jornais, não vivem da informação. Elas vivem de uma relação extremamente perniciosa, obscura, entre as empresas e o poder público. É isso que mantêm nossos veículos de comunicação, ora quando uma sociedade é o poder público que financia todos os meios de comunicação, não vamos ter empresas de comunicação onde a informação é o ponto central, não vamos ter profissionais valorizados, não vamos ter uma sociedade bem formada e isso é um grande problema.

  O “X” da questão sobre a comunicação em Sergipe se localiza no financiamento das empresas de comunicação. Esse financiamento hoje é quase todo voltado para os órgãos públicos é prefeitura, o governo, estado, governo federal quem financia os órgãos públicos através de publicidade. Diz um ditado que quem paga a conta escolhe a música, ou seja, temos uma comunicação do ponto de vista do interesse público em Sergipe, mas não só aqui, um interesse público extremamente comprometido, e isso não é culpa do jornalista, é culpa de uma estrutura de comunicação sem sentido. Você não tem uma iniciativa privada que sustente os veículos de comunicação, você não tem empresários de comunicação, o que você tem é empresários da construção civil, empresários da cana de açúcar, empresários que são donos de veículos, que você não sabe de onde veio a riqueza e poder econômico deles, mas são proprietários de veículos de comunicação e eles mantêm esses veículos como uma espécie de ponte, para que os veículos de comunicação recebam o governo do estado.

  São situações muito vexatórias, complicadas que tem reflexos grandes no profissional, tem reflexo na qualidade da informação, na compreensão do interesse público, tem reflexo em uma lista cada vez maior de assuntos que são tocados e a que não podem ser tocados. Passei um tempo no Cinform, eu recebia os estagiários de comunicação e tinha como tarefa no jornal orientá-los. Os estudantes já chegavam para o estágio devidamente moldados como deviam fazer a matéria para não contrariar fulano, cicrano, se ele fizesse naquele enquadramento a matéria seria publicada, se ele fizesse no enquadramento rigorosamente como deve ser feito a matéria não seria publicada, porque poderia contrariar os interesses de A, B e C que jornal tinha. Então esse reflexo profundo, a estrutura e o sistema de comunicação em Sergipe é bastante perverso nesse sentido.

AM: Você foi filiado ao PT e citou vários colegas seus que foram candidatos ou são parlamentares. E você? Nunca pensou em disputar as eleições, em concorrer a algum cargo?

CG: Não, sempre estive nos bastidores, e nunca digo “dessa água não beberei”, mas não. Entendo a política como uma prestação de serviço público, de alto interesse e não deveria ser remunerado para esta atividade. Mas nunca tive interesse pessoal nesse sentido, nunca tive oportunidade também, cheguei a ser convidado, mas acredito que contribuiria mais atuando como jornalista e tentando fazer alguma coisa mais séria do que na atividade política partidária inicialmente. Hoje sou filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), é um partido que já foi um grande partido e hoje é pequeno, mas em Sergipe e no Brasil passa por um processo de reconstrução histórica revolucionária muito significativa e me lembra um pouco do PT das origens, no final da década de 80 início da década de 90, onde alguns princípios eram muitos caros como a democracia, a participação, a luta por uma outra sociedade. Mas isso tem uma coisa que me anima, perceber um pouco da liberdade do meu exercício. Acredito que as pessoas precisam ter liberdade de atuar de falar, de colocar suas posições de discordar principalmente, e nos lugares onde não se encontra isso tem que buscar outros caminhos. Por enquanto continuo lá no PCB, mas como falei, muito pequenininho formado por estudantes basicamente, muitos da UFS, muitos estudantes de mestrado e doutorado, é um partido que chamo de “partido acadêmico” .

AM: O que é liberdade de expressão para você? E até onde dentro de um contexto jornalístico essa liberdade acaba?

CG: Eu tenho uma posição muito clara quanto ao processo de liberdade. Eu considero que existem dois direitos que são fundamentais, e que eles estão profundamente interligados: um que é o direito da vida e outro que é a liberdade. O parâmetro para defender o direito à liberdade é a defesa pelo direito à vida. Por exemplo, eu defendo rigorosamente e amplamente o processo de liberdade, qualquer tipo de liberdade, qualquer forma de liberdade, só que essa liberdade é absoluta até chegar no direito à vida. Ninguém tem a liberdade de sair matando, o ato de assassinar vai de contra à vida. As pessoas têm liberdade de agir no sentido de garantir a posse da terra, porque a posse da terra é um principio que garante a ação pela vida, a defesa da água, da energia, do meio ambiente. Não existe expressão sem que as pessoas possam viver para exercer essa expressão, é infinitamente mais do que a própria liberdade de imprensa. No Brasil costumamos dizer que não temos a plena liberdade de imprensa, temos apenas a liberdade de empresa. Empresas ditam, fazem e acontecem. Quanto a esse direito é fundamental, qualquer movimento que questionem o direito à liberdade da empresa é tido como censura, e não é bem assim, como já falei só existem dois direitos absolutos que o direito da expressão e o outro da vida. Essa é a minha concepção, vivemos momentos muito delicados sobre o direito da expressão, liberdade de expressão.

AM: E sobre as manifestações de junho, como você enxergou esse “gigante acordando”?

CG: Veja, achei como diz a expressão: “massa” (risos). Primeiro é preciso dizer que muita gente já estava ‘acordada’ e lutando e nunca baixaram as bandeiras de luta por melhorias, segundo que não acredito em movimento sem cabeça, nada é feito por acaso, ninguém acorda da noite para dia, faz cartazes… Não! Isso tem todo um processo de mobilização de várias pessoas, então não é um movimento sem cabeça. Existem pessoas que lideram, são pessoas que influenciam, estabelecem suas redes e tem o poder de convencimento para que as pessoas saiam às ruas, isso é fundamental, eu acho que essas manifestações são muito interessantes, foram pontuais e seriam pontuais, pois ninguém sustenta isso por muito tempo, as pessoas tem seus trabalhos, tem suas atividades. Mas o importante é que várias pessoas foram, apareceram, mostraram, outras apenas só para sair na foto e colocar no facebook, mas apareceram, estavam presentes. Essa mobilização é muito interessante só que ela não é uma manifestação vazia, ela não tem uma clara movimentação de controle, mas possui encaminhamento e direções, porque nenhuma sociedade caminha sem saber para onde vai, sempre tem as figuras que fazem os seus encaminhamentos as suas lideranças e que algumas pessoas se espelham se referenciam então se determinadas figuras estão caminhando nesse sentido, vamos para o mesmo sentido. O grande perigo em função do desgaste natural de representações políticas, sindicais e etc. Muita gente considerada de direita gritavam “sem partido”, eu vi inclusive uma pessoa que conheço que é participante ou participou do Movimento João 25 da juventude dos Democratas (DEM) e gritava “sem partido”. Ora, por que isso de partido e gritando sem partidos? As pessoas mais cedo ou mais tarde votarão nos partidos que apresentam seus candidatos, nas próximas eleições por exemplo, as pessoas para serem candidatas elas são filiadas a partido político e elas são eleitas pelas pessoas que estavam lá na rua gritando “sem partido”, o que é necessário é reforçar  os partidos e não dizer “sem partido”. Tem muitas mobilizações no Brasil, e elas poderiam facilitar transformações, elas não foram aproveitadas pelos políticos.

Muita gente considerada de direita gritava “sem partido”, eu vi inclusive uma pessoa que conheço que é participante do Movimento João 25 da juventude dos Democratas (DEM) e gritava “sem partido”. Ora, por que isso de partido e gritando sem partidos?

AM: Você foi secretário de comunicação de Aracaju, então já esteve dentro da esfera do poder público. Conte-nos um pouco dessa experiência. O que você viu?

GG: Sim, fui Secretário de Comunicação da prefeitura de Aracaju, foi uma oportunidade extraordinária assim que Déda foi eleito prefeito. Trabalhava no Cinform e fui convidado inicialmente para ser diretor de imprensa da Secretária de Comunicação. Passei na prefeitura dois anos, entre 2001 e 2002, era primeira vez que o PT chegava à prefeitura de Aracaju. Eu tinha participado do processo, acreditava que poderia ter mudanças significativas nesse sentido, lembro que a campanha falava da desprivatização da prefeitura. Fui muito imbuído nesse espírito. Eu sou muito movido por projetos e acredito em alguns projetos, claro que sem muitas possibilidades de muitas transformações de coisas que poderiam ser feitas. Quatro meses depois que estava na prefeitura, o secretário pediu exoneração eu que estava adjunto acabei ficando na interinidade, assumindo a secretária. Foi uma experiência muito interessante e digo que fiquei do outro lado do balcão para saber como os veículos de comunicação lidavam. Era muito curiosa, muita insinuação para acordos e coisas, mas também tinha um coisa interessante, colegas da época se insinuavam, era impressionante a quantidade de amigos que, da noite para o dia, era muito mais que Facebook.

 Foi um aprendizado do ponto de vista sociológico muito interessante para mim, mas também tive frustrações muito significativas como, por exemplo, era administração do PT, era o modo petista de governar, o que propus, ousadamente, que invertêssemos a lógica de financiar os veículos de comunicação, que nós tivéssemos nosso próprio veiculo de comunicação; nossa TV, rádio, conselho de comunicação na prefeitura, que fizéssemos concursos para jornalistas, isso não foi além. Então fui amargando algumas frustrações nesse sentido, onde pude perceber que a prioridade da prefeitura era outra em termos de comunicação e eu não aceitava fazer algumas coisas e tentava implementar uma série de atividades alternativas de comunicação. Nós fizemos um projeto chamado “TV de Rua” que era com carro de som da Prefeitura e telão da prefeitura, onde íamos nos bairros – defendia que era preciso reduzir a quantidade de publicidade na televisão e botar essa publicidade no telão do carro e ir para as pessoas, mas não era só publicidade – levávamos filmes e fazíamos debates e etc.

  Fizemos o Jornal do Buzu, Fax da Cidade, começamos a fazer a primeira agência de notícias na internet, onde mandávamos boletins eletrônicos para as pessoas que tinham o e-mail cadastrado, colocamos o “Fala Cidadão”, que era uma possibilidade de ligação direta com a comunidade, mas infelizmente em função dos acordos políticos, dos processos eleitorais, quando foi em dezembro de 2002 já estava em uma situação política já difícil. Nunca tive um padrinho político para segurar o cargo, era filiado, mas estava trabalhando tecnicamente e propondo uma comunicação alternativa, só que essa lógica não é uma lógica geral da administração. Então percebi que não tinha mais condição política para continuar e pedir para deixar. Recebi um convite da deputada Ana Lúcia para um cargo administrativo, inclusive muita gente ficou sem entender na época. Como é que se deixa de ser Secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju para ser assessor de imprensa de uma deputada?  Eu não tinha mais condições de sustentar os projetos que estávamos tentando implementar, já tinha muita dificuldade os projetos alternativos de comunicação, implantamos  o pessoal de relações públicas, departamento de publicidade  e o departamento de jornalismo. Fizemos um trabalho bem razoável, na verdade é o trabalho que acabou ficando institucionalizado, como não conseguimos fazer o conselho de comunicação, na verdade a implantação dele era provocar um processo de transparência nas contas da administração e da atuação da comunicação do município, sindicatos e associações iriam participar de um conselho que ia discutir, debater, caminhar e deliberar sobre a comunicação na prefeitura, não o secretário. Mas esse projeto infelizmente não foi levado adiante.

A secretária de comunicação de Aracaju nunca teve um concurso para jornalista, deixamos um projeto para doze jornalistas para ser encaminhado para câmara de vereadores e não foi para frente. Foi uma experiência rica e me deixou a convicção que é possível fazer, agora é preciso ter muita vontade política para isso, segurar isso muito firme porque as pressões no sentido contrário são muito grandes.

AM: E sua relação com Marcelo Déda, como ficou depois ?

CG: Ficou ruim, mas pedi para sair, ele não aceitou logo no começo, mas não deu para ficar e eu sou jornalista, quando estava na prefeitura e via coisas erradas não ficava calado , escrevia e isso  não soava bem. Lembro-me de uma vez, eu fiz um artigo para Infonet, depois que a cidade ficou infestada de radares, fotosensores, então fiz um artigo chamado “Déda do Radar” foi uma confusão, muita gente não lidou bem com isso, sendo que foi uma critica administrativa e não pessoal. E fiz outras já no governo  sobre uma série de frustrações e de mudanças que não foram feitas, pelo contrário, o que vimos em Sergipe era a esperança de que, com eleição de Marcelo Déda, fosse rompido um círculo  de autoritarismo, totalitarismo que vinham de João, Albano, Valadares.  Havia expectativa sobre esse círculo terrível que só faz empobrecer o estado, nós temos o nível de miserabilidade muito grande ainda, fruto desses acordos políticos arcaicos com essa elite podre do estado e ai vem o governo do estado com essa proposta e não faz. Então gera uma série de frustrações que como jornalista não podia deixar de fazer minhas críticas, por isso não sou muito bem vindo nessas questões, não sou e confesso a vocês que me sinto confortável. Ainda bem que não sou bem visto.

 AM: Mas você ainda cultiva amizades do PT?

CG: Sim, tenho pessoas do PT extremamente sérias, fui assessor de Ana Lúcia, uma mulher extremante correta. Ana Lúcia e Iran, trabalhei com os dois, posso dizer que são pessoas incorruptíveis dos princípios que eles defendem, acho que estão completamente isolados e perdidos no PT, acho que eles não tem espaço e não vislumbram para onde podem ir, fica uma situação muito complicada, contraditórias para o  partido que é dos trabalhadores, massacrados pelos os próprios parlamentares, mas tenho amigos no partido de pessoas que são corretas, poucos, mas tenho.

 *Fim da primeira parte da entrevista com Cristian Góes

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