CRISTIAN GÓES: PARTE 2 – O PROCESSO

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Na segunda parte da entrevista de Cristian Góes ao coletivo A MOSCA, parceira da Revista REVER, o jornalista fala do processo sofrido, do jornalismo em Sergipe e dos seus atuais desafios.

*por A MOSCA

– INTRODUÇÃO.
– Parte 1: DA INFÂNCIA AO JORNALISMO.

A MOSCA: Já que estamos falando de críticas, PT, vamos falar do processo, do seu artigo “Eu, o coronel em mim”.  O que motivou a escrever esse texto?

Cristian Góes: Na verdade fui participar de um encontro estadual de direitos humanos, promovido pelo Instituto Braços e veio uma professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), não lembro o nome dela, fazer uma palestra, ela diz que ainda hoje muito de nós carregamos personalidades autoritárias de coronéis conservadores, outros afloram uma personalidade mais escrava que aceita tudo, e segundo a professora cada um de nós tem essa característica em função da nossa cultura do Nordeste, coronelista e tal. Dai pensei em fazer um artigo com base naquelas falas da professora.

Eu fiz um artigo sem ser na primeira pessoa.  Mas eu percebi que ele poderia ser entendido como se estivesse atacando alguém, como se eu estivesse falando de alguém.  Ai eu disse “Não. Pronto, não vou fazer em terceira pessoa, vou fazer em primeira pessoa, sou eu o coronel”.  Então fiz o artigo, uma tardezinha, sem muita expectativa, fui rápido pra poder publicar.

Achei interessante, guardei aquela frase, aquelas ideias que ela passou “cada um tem um coronel dentro de si” e resolvi colocar em primeira pessoa pra evitar qualquer problema. O texto foi publicado em maio de 2012, e imediatamente quando foi publicado, como em outros artigos que faço, as pessoas entraram com comentários lá e algumas pessoas fizeram a relação do coronel, daquela personalidade.

Eu falava de escravo, falava de senzala, falava de casa-grande, não está contextualizado que é Sergipe.  Algumas pessoas fizeram seus comentários dizendo que aquela personalidade era o Marcelo Dedá, que aquela figura parecia Marcelo Dedá.  Outros diziam que era eu mesmo, que não sabiam que eu tinham essa personalidade, outros falaram que era José Sarney, outros falaram que era Renan Calheiros, outros disseram que era ACM, outros falaram que era João Alves,  todos sobre o coronel que é a figura do texto. Várias pessoas fizeram os maiores comentários, como sempre, uns 32 comentários.

Depois desse artigo, outros artigos vieram. Para minha surpresa no final de 2012, em Novembro, recebo um telefona da Raquel da Infonet (Raquel Almeida – Coordenadora do Portal Infonet), me informando que um oficial de justiça estava na Infonet para me intimar em função de um processo cível contra mim. Eu disse: “Um processo? Tô tão quietinho, já fazendo um mestrado, não tava fazendo nada, esquisito”. Eu já tinha recebido vários processos de outras matérias, de outras coisas, mas achei esquisito. Ai eu perguntei: “É sobre o que ?”  Ai ela disse: “ é sobre esse texto “Eu e o Coronel em mim””. Ai eu disse: “’Eu e o Coronel em mim’? Aquele texto de maio?  E quem foi? Quem é?”. Fiquei curioso, ai ela disse: “foi o Desembargador Edson Ulisses”.

Fiquei sem entender, eu nem lembrava mais do texto. Desliguei o telefone e fui ver o texto, conferir se tinha falado de Edson Ulisses e não vi absolutamente nada. Vi que falei um momento de justiça, ai depois minha esposa olhando disse aqui, se algumas pessoas disseram na época nos comentários que o Coronel era Dedá, quando você diz que “o marido de minha irmã que é o jagunço das leis”, eu acho que ele… Ai eu pensei, será que é por ai que o cara vestiu uma carapuça que não era para ele, que não cabe nele? E eu conheço o Edson Ulisses de outros carnavais.

Eu recebo depois a intimação já não mais a cível, recebo a intimação criminal, onde realmente é ele de fato que entra com ação que ele afirma que eu chamei o governador, que é seu cunhado, de Coronel e, por conseguinte quando eu escrevi lá que o Coronel chamou o irmão, o marido da mulher pra dar uma multa no povo que tinha entrado lá na casa-grande e disse que era jagunço,  eu estava me referindo diretamente a ele. E aquilo era injurioso e difamatório e tal, tal, tal. E ele me pedia quatro anos de prisão e depois chega outra oficial de justiça com o pedido de indenização por danos morais. E ai eu fui procurar advogado e reler o texto pra vê pra ver as argumentações.

Ele fala lá que o texto é jornalístico, matéria jornalística. Não é matéria jornalística, é texto de crônica. Segundo que o texto jornalístico ele tá baseado em fatos, em evento, com data, hora, local, dia, pessoas reais. Naquele texto não há isso. Naquele texto não há nome nenhum de pessoa, nem de José, nem de João, nem Maria. Em nenhum momento diz que é Sergipe, Alagoas, Bahia, Brasil, onde for. É tanto que várias pessoas de outros lugares leram e fizeram referência aos seus respectivos locais.

No texto não diz a data, onde aconteceu, que coronel, que dia estava, onde estava… Apenas a data da publicação.  O texto não traz nenhuma relação com funções públicas como juiz, como desembargador, como governador, nada. Apenas as figuras que aparecem é um coronel e o jagunço das leis. Achei completamente absurda a ação, mas existe nos bastidores uma lógica de que juiz não perde uma ação, imagine um desembargador. E fomos para audiências. Elas foram as mais tristes possíveis, porque a gente sentia um direcionamento muito grande. É uma situação muito vexatória, porque a pessoa que ta julgando, a juíza, é subordinada ao autor da ação, fica uma falta de isenção absurda.

Numa dessas audiências, o desembargador chegou primeiro e sentou na cadeira da juíza, a juíza chegou toda sem graça e disse “não, doutor, você senta do outro lado”. Essas situações muito delicadas da isenção. Então desde primeira audiência eu percebi que seria condenado, que eu não teria alternativa aqui (Sergipe). Pela forma que foi conduzido.

Para se ter uma idéia, toda ação foi movida segundo o desembargador porque eu chamei o governador Marcelo Déda de coronel. Então, o que eu sugeri foi que o governador fosse ouvido na ação. Porque o governador não entrou com ação, não quis saber dessa ação. A juíza negou que o governador fosse ouvido. Ora, por isso que considero esse processo complicado. Nem direito a juntar provas eu tive. É muito complicado. Veja como são as coisas. O juiz que é presidente da Associação dos Magistrados, que é quem ta pagando o advogado do desembargador, da qual a juíza que julga a ação é filiada. Entre vários outros problemas.

Numa dessas audiências, o desembargador chegou primeiro e sentou na cadeira da juíza, a juíza chegou toda sem graça e disse “não, doutor, você senta do outro lado”. Essas situações muito delicadas da isenção.

Outro juiz na sentença que me condena a 7 meses e 16 dias  de prisão e que foram convertidos em prestação de serviços, ele diz que eu estou sendo condenado por “dar a entender” que o que eu escrevi se referia ao governador e ao desembargador. Ninguém pode ser condenado criminalmente, ser taxado de criminoso por “dar a entender”. O juiz chega a escrever que para bom entendedor, meia palavra basta. Como alguém pode ser condenado com coisas desse sentido? É uma decisão extremamente frágil. E que a gente ta recorrendo ao próprio tribunal de justiça, e eles mesmos que vão julgar, e não tem data para ser julgado o recurso , mas se o recurso for indeferido aqui, iremos recorrer a Brasília e muito provavelmente esse caso vai parar no Supremo Tribunal Federal.

A parte cível ainda não foi julgada, ainda ta sendo instruída, colhendo nossas argumentações e as deles. Na parte cível não há um valor determinado, mas já um valor determinado no conjunto, que os honorários advocatícios. O desembargador estabeleceu que fosse de 25 mil reais, ou seja, se eu for condenado terei que pagar 25 mil reais ao advogado dele mais a indenização.  Caso sejamos condenados, também vamos recorrer.

O resultado desses processos é o seguinte: essas decisões tiveram enorme repercussão nacional e internacional. Saiu em várias partes do mundo, especialmente a condenação. Em função de uma boa relação que tenho com a organização o Repórter Sem Fronteiras que fica na França e que abraçou o caso, divulgou relatórios etc. Só pra vocês terem ideia eles divulgam, no relatório anual 2012, que Sergipe nunca tinha entrado nesse relatório. Foi a primeira vez que o estado entra em um relatório mundial dessa associação em função desse fato, que é de uma gravidade absurda porque alguém sendo julgando numa ação onde a pessoa é sequer citado, com base num texto ficcional, tem reflexo profundos na atividade jornalística no estado de Sergipe. Por isso teve uma repercussão absurda, muito grande, muitas entrevistas, nos principais veículos de comunicação impressos terem divulgado.

AM: Mas você imaginava que as pessoas fariam essas associações ao governador?

Sim, mas mesmo assim não justifica uma ação criminal. Mesmo que eu usasse o nome de Déda como coronel, ou nome do desembargador como jagunço das leis, eu tava exercendo meu direito de critica, o que não é pecado nenhum. É meu direito de crítica.

Eu escrevi em outro tempo e ele não entrou com ação contra mim. O governador nomeia o seu cunhando desembargador, ai surge uma ação do governo do Estado, o desembargador que foi nomeado pelo governador, dá a liminar em favor do Governo do Estado. Ai eu escrevi dizendo que isso era uma incoerência. Como alguém pode ser nomeado pelo governador e no papel de juiz julga a favor de quem o nomeou? Ele no mínimo deveria se julgar impedido de tomar aquela decisão. Por isso é um direito de crítica, mesmo que eu tivesse colocado o nome do desembargador ou do governador no texto, mesmo assim não é motivo nenhum para ações criminais, indenizações.

Ele poderia fazer como João Alves fazia muito para me intimidar quando era governador. Ele entrava não com ação judicial, ele entrava com uma interpelação judicial. Umas quinze, vinte perguntas se eu confirmava ou desconfirmava o que tava ali, de acordo com o que era argumentado pelo advogado. E ai ele se dava por vencido, mas todo artigo ou matéria que eu escrevia ele entrava com interpelação. Por que isso? Para que cada vez que eu escrevesse uma matéria eu lembrasse. Por isso se alguém receber uma grave denuncia contra o desembargador do estado de Sergipe, primeiro nenhum veiculo publica, nenhum veículo tradicional.

AM: Cristian, você recebeu algum tipo de ameaça?

CG: Por conta desse caso? Não. Nenhum tipo de ameaça direta, nem me senti ameaçado indiretamente. Em outros casos, sim. Na época do Cinform mesmo, quando eu era o autor da maioria das matérias sobre o grupo A Missão, grupo de extermínio dentro da Policia Militar. Teve momentos muito tensos. Nesse caso específico não, pelo menos do ponto de vista direto e indireto.

Um fato curioso: numa das audiências, que foi no TJ, onde ele é vice-presidente, e as pessoas que acompanham esse caso: movimentos sociais, sindicatos, partidos e tal, queriam assistir a audiência – era uma audiência pública, é aberta – e quando chegaram lá  foram impedidas de entrar, já havia policiais. A sala já estava ocupada por cargos de comissão do tribunal. Exatamente para impedir que as pessoas da sociedade pudessem acompanhar.

São coisas assim que me deixam triste, e ao mesmo tempo revela o quanto o judiciário precisa ser passado a limpo nesse país. É uma das instituições que menos se toca é o judiciário.  A gente escracha o executivo, o legislativo. De quatro em quatro anos, de dois em dois anos, a gente tem eleição, a gente tem possibilidade de alteração. Mas o judiciário não, o judiciário é intocável e é impressionante a falta de cobertura da mídia local sobre esse caso.

 

AM: Você falou da repercussão nacional e internacional, mas sentimos um certo silêncio da mídia local, não só dentro das empresas, mas até em seus perfis pessoais em redes sociais. Poucos se posicionaram.  Como você vê isso?

CG: Silêncio completo. Primeiro não estranho. É triste, é frustrante, mas é natural para nossa realidade. É aquilo que eu falei, a gente tem uma relação de comunicação aqui profundamente arcaica, pré- artesanal. Onde o poder econômico e político definem a vida das pessoas. É muito impressionante isso. As pessoas não se sustentam como profissional, elas tem medo de perder o emprego, medo de contrariar, de ser olhada diferente.

Eu vou dar um exemplo de quando eu fui presidente do sindicato dos jornalistas (SINDIJOR). Quando fui presidente passamos por momentos meio duros contra os patrões. Nós temos em Sergipe uma mania de marcar as pessoas feito gado, no curral. E está ferrado pro resto da vida. Você não pode se misturar, aqueles estão ferrados e estarão sempre ferrados. Vou dar um exemplo. Eu fui distribuir o jornal do sindicato em um Jornal. Saía com o jornalzinho deixando na mesa dos colegas. Algumas pessoas falavam por educação, mas não pegavam. Outros guardavam na bolsa. E o jornal tinha informações sobre assembléias, reajuste salário e tal. E um colega escreveu um bilhete pra mim “quero conversar com você no banheiro”. E eu olhei pro bilhete e fiquei sem entender. Ai eu perguntei “onde é o banheiro?”. Aí fui lá. Daqui a pouco o cara chega. Perguntei: “o que foi cara, você tava agoniado, não conversou comigo na redação”. Ai ele falou; “como é que ta a campanha salarial?” E fiquei sem acreditar.  Ai eu falei: “rapaz, porque você não me perguntou isso na redação?  “ Ai ele disse “não é bom ser visto conversando com você, as pessoas vão pensar que eu sou do sindicato também”.

São essas coisas que quando surgiu o fato, que envolve alguém ligado ao Tribunal de Justiça, que é cunhado do governador do estado, governo do estado, que patrocina todos os veículos de comunicação, muitos e muitos dos colegas são assessores do Governo do Estado. Então qualquer manifestação, mesmo de curtir nas redes sociais, não digo nem de escrever, poderia ser interpretado como uma “adesão a causa”.

Outros valorosos companheiros não se intimidaram, mas poucos. Mas isso é fruto desse sistema de comunicação que a gente tem aqui. Infelizmente é um sistema de comunicação que desprofissionaliza, você não é um profissional. O profissional aqui é entendido como aquele que não mexe com essas figuras. O judiciário tem figuras, na política tem figuras intocáveis. Se você recebe uma denúncia, você não a escreve, o jornal não publica. Por isso não achei estranho, a gente fica triste, chateado. Mas isso condensa como as coisas acontecem aqui em Sergipe, e vai demorar muito pra ser mudado, e só com a participação dos jornalistas isso será mudado.

Isso não quer dizer que nunca será mudado, eu sou otimista, acho que as coisas estão mudando, muito lentamente. Lembrei de um fato, veja como é comunicação. Ia completar 25 anos do assassinato do Vladimir Herzog, e todo mundo sabe que é porque ele é lembrado.  E ai o SINDIJOR resolveu fazer um ato lembrando o Vladimir, para mostrar ainda hoje mesmo sem a ditadura física, ainda há ditaduras com relação à comunicação, liberdade de expressão. E ai o sindicato dos patrões ingressou uma ação, uma ação criminal contra mim, para proibir que fosse realizado o ato. Acredite nisso, impedir que fosse realizado um ato público que lembrava o assassinato de Vladimir Herzog. Não só isso. Conseguimos derrubar em forma de liminar a ação, e fomos fazer o ato, e colocamos um pequeno carro de som na praça.

Uma das empresas de comunicação colocou um trio elétrico que passava pela praça na maior altura do mundo. Tínhamos um ato com trinta, quarenta pessoas. E nosso carro de som foi engolido pelo trio elétrico. E além da ação judicial, além do trio elétrico, eles fizeram uma edição especial dentro de um jornal para dizer que em Sergipe havia liberdade de imprensa. E havia jornalistas dando depoimentos me criticando e criticando o ato. E esse material foi distribuído durante o ato e no calçadão. Para você ver como é pequena a mentalidade com relação à comunicação aqui no estado.

[no Jornalismo] as pessoas são movidas por mimos, são compradas às vezes por pequenos presentes, pequenas corrupções que ferem a dignidade das pessoas. Eu tive vários problemas, por não aceitar determinadas coisas.

É muito complicado, nós temos que fazer ainda. Eu não entrei agora na eleição do sindicato dos jornalistas por conta do mestrado e do meu projeto de doutorado, mas acho que essa é uma tarefa de todos. Veja, não é ser porra-louca, jogar tudo pro alto. É atuando na área e tentando alterar essas correlações. O problema que a gente é tomado muitas vezes por um sentimento de acomodação. Então eu não saio da minha zona de conforto. Quando eu decidi fazer jornalismo, muita gente falou “olha, vai aparecer na televisão” quando não foi isso, disseram “deixe disso. Não vai aparecer, não vai ganhar presentinhos”.

É terrível isso aqui, as pessoas são movidas por mimos, são compradas às vezes por pequenos presentes, pequenas corrupções que ferem a dignidade das pessoas. Eu tive vários problemas, por não aceitar determinadas coisas.

AM: Hoje essa zona de conforto também está em crise. O mercado está em crise, várias demissões, mesmo nas assessorias não há garantias.

CG: Por isso, desde a época da faculdade nunca me contentei. Sabia que não ia escrever por muito tempo. Até sobrevivi bastante no Cinform, até porque o Cinform na época que eu trabalhei tinha outra postura que foi mudando aos poucos. Acho que jornalista não é que faz oposição, o problema é que a situação político-econômica de políticas públicas é tão ruim, que se você fizer jornalismo, você é visto como jornalista de oposição.

Eu tive algumas conversas, inclusive dando aula de Teoria do Jornalismo e eu disse “não pensem que todos terão trabalho nos veículos. Esses veículos contratam cada vez menos”. O jornalismo passa por uma crise significativa. Vai continuar? Vai ter emprego? Vai, mas cada vez menos. O que se tem que se fazer é buscar alternativas. E tem alternativas! O modelo de fazer comunicação e jornalismo como se fazia há dez anos não existe mais. Eu dou alguns exemplos que vi. Não dá pra esperar o Jornal da Cidade abrir vaga, o Correio (De Sergipe) abrir vaga. Tem que se criar alternativas e não é o mercado que cria alternativas, são as pessoas.

AM: Podemos dizer que você é um militante da informação?

CG: Eu me considero assim. Eu sou um militante do jornalismo. Nunca me curvaria e nunca me curvei, sempre trabalhei com alguma liberdade. É claro que ponderando. Eu já fui convencido de não publicar determinadas coisas. A informação é essa e isso não procede, ok, não tem problema. Mas meu trabalho será feito. Enquanto eu for jornalista, eu sou jornalista. Por isso que às vezes eu já pensei em desistir. Porque isso causa alguns problemas, do ponto de vista pessoal.

Outra alternativa para jornalista é fazer concurso público. Tanto que chegou um determinado momento, que eu disse “êpa”, eu tô com muitas arestas abertas aqui e fui fazer concurso público, porque não ia ter como sobreviver aqui. O que não se limita, colocaria uma banca de banana, laranja na porta de casa, mas queria continuar sendo jornalista e fui estudar pra concurso e estou aí, concursado. Agora ninguém me segura (risos).

 

 

AM: Tem planos de publicar livro?

Tenho, tenho. Na verdade teve dois ensaios, só que não deu.  Ia sair um livro sobre a avaliação do governo João Alves, tinha muito material, denúncias, ia ser uma bomba da desgraça (risos) Mas perdeu o tempo, porque alguns livros são tempo.

AM: Mas ele ainda está atual…

É, talvez. O livro está guardado. Não está conclusivo. Talvez se ele se arvorar a ser candidato ao governo, quem sabe. Quando eu morei em Recife comecei a escrever um romance sobre Mauricio de Nassau, lia muito sobre ele. Eu produzi um bom material que também podia render um livro que ainda ta sendo maturado, mas esses projetos pararam por conta do mestrado, que foi quando eu vivi quinze dias num barco no Pará, na ilha de Marajó e Santarém.

Quinze dias vivendo mesmo dentro de um barco, uma experiência extraordinária. Alguns desses casos eu coloquei lá na Infonet. Teve um que foi bem comentado, foi a “A menina que se vestia de sol”. Tem uns três ou quatro lá. E tem um que é muito provável que assim que eu terminar o mestrado é o “Coronel e o Jagunço”, essa história vai virar livro. Outro processo né? (risos).

AM: Qual sua pesquisa no Mestrado?

CG: A pesquisa que eu faço é sobre o jornalismo sensacionalista. Não por acaso meu objeto é o jornal Cinform. Eu pesquiso o Cinform de 2008 a 2012, a manchete principal e o texto principal. E o que eu defendendo é que é um jornalismo de desserviço. Um jornalismo que o título da dissertação é “Jornalismo e Barbárie”.  Eu lendo e relendo as matérias é de um aspecto de um jornalismo pra barbárie, o que a do submundo do humano, é absurdo o que se faz o que se fez. Acho que acabei fazendo algumas coisas quando trabalhei por lá, mas eu peguei de 2008 a 2012.

Outro caso que quase rolou um livro foi sobre “A Missão”, tinha muitas reportagens, muito material. Durante as reportagens descobri que um amigo meu de infância que era sargento fazia parte, e logo depois disso ele morreu de forma muito esquisita num acidente de carro. Depois familiares me contaram que ele queria largar, que ele estava cansado de fazer esses serviços para políticos, gente da alta sociedade. As pessoas eram assassinadas e tidas como ladrões de gado. Teve um caso que um desembargador demitiu seus funcionários da fazenda, e não pagou os direitos trabalhistas. E um desses trabalhadores ameaçou denunciar e logo em seguida foi encontrado morto, ai descobrimos que foi a mando desse desembargador.

Os corpos eram jogados na Bahia e em Alagoas, isso entre 92 e 98. E não eram só um esquadrão da morte, eles faziam assaltos. Passei uma semana escondido em Salvador por conta das ameaças.

AM: Mais alguma coisa que você que você queira acrescentar?

CG: É isso, dizer que estou à disposição. Eu me amarro nessas conversas sobre jornalismo. Acho que a gente aprende, vê e revê coisas. O grande estímulo para quem está começando é sempre pensar a mais. Não se contentem com emprego. Exemplo “Pô, fui chamado pra trabalhar no Jornal Cidade, porra, cheguei” veja isso como o começo. É importante, vital, interessante. Faz relações: numa cidade pequena como a nossa fazer relações funcionam muito, infelizmente o profissionalismo deveria ser o mais importante mas não é, mas não se limitem a isso.

Lembro que quando eu cheguei ao Cinform, sabia que tinha meu tempo limitado ali. Foi importantíssimo, me abriu muitas portas, aprendi muita coisa, desaprendi outras, mas foi importante. Nunca me dei por satisfeito, sempre procurando, uma coisa ou outra. Nunca tive medo de desemprego, e também nunca fiquei parado no tempo. Sempre fazendo alguma coisa, me atualizando, percebendo as possibilidades colocadas. O que pode agregar à Mosca além do ego? A vida acadêmica é outra possibilidade, o concurso público. Tem cinco anos que eu passei no concurso do INSS, passei para Brasília, passei dois anos em Brasília, depois fui pra Recife e daí consegui ser transferido pra cá. Ai eu decidi fazer mestrado, passei agora to me preparando pro doutorado, ou em Minas ou Recife. Não dá pra ficar só no serviço burocrático, principalmente como jornalista. Por isso ainda mantenho minha coluna na Infonet onde eu deságuo o que penso. Quero continuar escrevendo.

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