O humor polêmico – e paradoxal – de Dieudonné M’bala M’bala

Dieudonne-M'Bala-M'Bala

Polêmica na França envolve humorista negro acusado de instigar o “anti-semitismo”. Medida judicial proibiu seus shows, causando revolta dos fãs.

*Gauthier Berthélémy

 Há várias semanas, Dieudonné M’Bala M’Bala, humorista, ator e militante francês, se tornou um dos assuntos mais falados na imprensa, na esfera política e, de fato, na sociedade francesa. Mas hoje em dia, as piadas do homem que foi um dos mais engraçados da França não provocam mais os risos, mas sim, as polêmicas.

 Aconteceu em Nantes, dia 9 de janeiro de 2014. Na frente do Zénith, maior casa de show desta cidade do oeste da França, centenas de pessoas esperam o início do espectáculo do humorista Dieudonné. Elas porém, não entrarão, serão barradas por policiais. A apresentação acabou de ser proibida pelo Conselho do Estado, a maior juridição do país.

 A razão da interdição se  motiva por uma ordem, enviada pelo Ministro do Interior, Manuel Valls, a todos os governadores, que impede a execução dos espectáculos do ator por  riscos de “atentado à ordem pública e à dignidade humana”. O que motiva o ministro são os possíveis ataques evocados pelo Dieudonné à comunidade judia durante a apresentação,  e de fato o caráter anti-semita do espectáculo. No dia seguinte, uma outra apresentação é proibida em Tours.

 O humorista já se destacou por outras polêmicas. Após uma breve militância na esquerda, Dieudonné se aproxima da extrema-direita e de alguns protagonistas deste lado político. O mais notório é o escritor Alain Soral, fundador do movimento Igualdade e Reconciliação, se definindo “revolucionário nacionalista”. Os dois homens são considerados por analistas como representantes do “novo anti-semitismo”. Segundo o sociólogo Michel Wievorka, eles usam o anti-sionismo como forma de dissimular as suas opiniões anti-semitas. Dieudonné teve várias oportunidades de demostrar seus ressentimentos com a comunidade judia convidando, por exemplo, um teórico do negacionismo, Robert Faurisson, no palco.

Anelka, futebolista francês que atua na Inglaterra, jogou lenha na fogueira ao reproduzir o "Quenelle" ao comemorar um gol.
Anelka, futebolista francês que atua na Inglaterra, jogou lenha na fogueira ao reproduzir o “Quenelle” ao comemorar um gol.

 O apoio ao humorista – tal como o famoso jogador de futebol Nicolas Anelka fazendo a “Quenelle”, gesto “anti-sistema” usado por Dieudonné como marca, mas também outros famosos – provocaram muitas reações de desaproção. A semelhança do gesto com uma saudação fascista atraiu as dúvidas e levou à investigações na França e na Inglaterra, país onde atua o jogador francês.

 Várias vezes o humorista foi condenado por ter proferido ataques contra a comunidade judia em seus espectáculos. Se defendendo da acusação de anti-semitismo, Dieudonné se define como anti-sionista. Isto é, a oposição às várias correntes ideológicas incluídas no sionismo, que justifica, entre outras coisas, a criação ao estado judeu de Israel e o colonialismo efetuado por ele.

 Se a classe política e várias associações de luta contra o racismo parabenizaram a ação da justiça no caso de Nantes, intelectuais e organizações mostraram uma certa preocupação. A Liga dos Direitos Humanos (LDH), conhecida e reconhecida na França, estima que esta decisão do Conselho do Estado instaurou “uma jurisprudência com possíveis consequências pesadas na questão da liberdade de expressão”. O presidente da LDH, Pierre Tartakowsky, acresentou : “nós nos enganamos a pensar que vamos resolver o problema a partir de uma interdição estritamente jurídica. Temos que usar a pedagogia, a repressão e engajar um trabalho de longo prazo”.

Apoiadores de Dieudonne provocam polícia reproduzindo o "Quenelle" em frente à casa de shows onde aconteceria uma apresentação de Dieudonne
Apoiadores de Dieudonne provocam polícia reproduzindo o “Quenelle” em frente à casa de shows onde aconteceria uma apresentação de Dieudonne

E afinal, quem é Dieudonné ?

 Nos nos 90 aparece nos palcos e nas televisões uma dupla cômica que iria se tornar um clássico do gênero humorístico francês. De um lado, Elie, um pequeno branco agitado, a voz aguda, o sotaque judeu e o xingamento fácil. Do outro, um negro grande e forte, de tom tranquilo e pesado, usando facilmente o sotaque africano e o xingamento fácil também. Os dois exploraram durante anos os preconceitos racistas para os denunciar pelo humor. Depois de vários anos juntos, a dupla se separa e cada um segue seus pórprios caminhos.

 E a curva para ao lado polêmico começou em dezembro de 2003. Durante um programa na televisão publica, Dieudonné é convidado para apresentar um “sketch” (cena curta de um espetáculo humorístico). Nessa apresentação, Dieudonné interpreta um judeu mascarado, que ataca um dos humoristas presentes no programa, Jamel Debbouze, o chamando de humorista terrorista ou moudjahidine, nome dado aos combatentes muçulmanos na guerra santa. No final do stand-up, o personagem pontua sua intervenção por um gesto fascista. No dia seguinte, várias associações de luta contra o anti-semitimo iniciam uma ação na justiça contra difamação racial. O humorista não sofre pena, mas se torna totalmente marginalizado.

Começa então sua transformação. Após, alianças, amizades, espectáculos e palavras polêmicas, Dieudonné se tornou hoje alvo do poder público. Investigações para seus atos e possíveis irregularidades fiscais poderiam forçar o humorista a deixar a cortina cair pela última vez.

* Gauthier Berthélémy é jornalista, reside em Lyon, na França, e é colaborador da REVER

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