‘Clube de compras Dallas’: a tese de Susan Sontag chega à telona

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Filme tem a famigerada doença da AIDS como tema central, remetendo a leitura feita há 26 anos por escritora americana. Estreia no Brasil no dia 21/02.   

*por Romero Venâncio

    Um filme nada “revolucionário”, mas que poderia ser catalogado enquanto conteúdo “humanitário” e “reflexivo” pela gravidade do seu motivo: a AIDS nos anos 80. Sabemos o quanto foi catastrófico a aparição desta doença e todo o estigma que carregava contra homossexuais… Morria-se aos montes e rápido demais e foi se tornando o “câncer dos gays” (como inventaram os fundamentalistas norte-americanos da época).

 Estou falando/sugerindo o bom filme “Clube de compras Dallas” (Direção De Jean-Marc Vallée). O filme se passa no Texas em 1986 e acompanha a história do eletricista, apostador de rodeios e homofóbico de primeiro Ron Woodroof (Mattew McConaughey em papel genial). A trama é bem ao gosto melodramático: Ron descobre ser portador do vírus da AIDS e eu terá seis meses de vida e frustrado (como uma imensa maioria de pobres dos Estados Unidos) com os remédios disponíveis, decide começar a usar drogas alternativas e acaba, juntamente com um travesti, criando um negócio “meio” cooperativa para contrabandear medicamentos para soropositivos.

 O filme acaba nos revelando o papel desgraçadamente capitalista da indústria farmacêutica, do Estado e sua política fiscal, o Poder Judiciário e seu legalismo e formalismo de costume, o moralismo de alguns médicos e o quanto o soropositivo homossexual e pobre se degrada cotidianamente. De imediato o filme me remeteu ao livro de Susan Sontag, “AIDS e suas metáforas”, de 1988. No Brasil foi publicado em 1989 pela Companhia das Letras. A tese principal deste ensaio de Sontag é simples e nos faz pensar: a maioria das metáforas a respeito da AIDS e o câncer, por exemplo, apresentam-nas como sinônimo do mal. É por esta razão que a sociedade parece avalizar a punição das “vitimas” e nessa lógica tortuosa e desonesta, a AIDS é interpretada como uma doença que deriva de excessos e da sexualidade desviante (sobretudo naqueles anos 80 onde os Estados Unidos pareciam ser a pátria dos “pecados sexuais”).

 Sontag nos apresenta assim e faz uma crítica radical a essa leitura: “Sem dúvida, é impossível pensar sem metáforas. Mas isso não impede que haja algumas metáforas que seria bom evitar, ou tentar retirar de circulação… O que não impede que às vezes devamos ser contra a interpretação” (p. 09). Para Sontag, o fato da AIDS não ter cura, ser epidêmica e ser transmitida principalmente – mas não só, obviamente hoje – pelo contato sexual aumenta espetacularmente as interpretações sobre a doença e aqui temos uma razão e um sacada extraordinária da filósofa americana no seu empenho de interpretar a AIDS a partir de metáforas que estigmatizam, ofendem e geram culpa e vergonha em pessoas não deveriam ser tratadas assim na sua condição de fragilidade e condenação à morte. Um livro que nos transmite uma segurança na interpretação como era do costume de Sontag e ao mesmo tempo nos engaja na desconstrução de teoria metafóricas que discriminam e ensejam posições preconceituosas e tristes.

 “Clube de compras Dallas” é um filme bem ao gosto de um americano médio. Trata de um tema severo, mas mantendo aquele humor (às vezes sem graça) diante de uma situação limite. O filme tem cenas marcantes no registro do era ter AIDS na década de 80 e as consequências estigmatizantes que carregavam seus portadores. Mas ao mesmo tempo, no personagem de MacConaughey, nos brinda com cenas de resistência a uma sociedade homofóbica, preconceituosa e hipócrita na sua religiosidade (nada mais atual no Brasil contemporâneo). Como nos informa Sontag no final do seu ensaio: “Assim como a questão da poluição industrial e a do sistema de marcado financeiros globais, a crise da AIDS aponta para o fato de que vivemos num mundo em que nada de importante é regional, local, limitado; em que tudo que pode circular acaba circulando, e todo o problema é – ou está a fadado a tornar-se – mundial.” (P. 108).

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

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