“Vulva, minha máxima vulva”: notas sobre ‘Ninfomaníaca’ de Lars Von Trier

 nymphomaniac

“Von Trier acaba resvalando para um certo “moralismo” ao tratar da personagem [Joe] e de suas práticas sexuais. O sexo em sua forma radical é visto como penoso, frio e cruel; como forma de sofrimento e não de prazer livre

  

*por Romero Venâncio

 

   Começo fazendo uma confissão: identifico-me muito com o cinema de Lars Von Trier. Tenho como referência três grandes filmes dele, a saber, “Os idiotas”, “Dogville” e “Anti-Cristo”. São filmes marcantes e de um caráter de radicalidade estética rara no cinema mundial, além de um conjunto de temas existenciais e políticos raros. Um cinema claramente filosófico aparece nesses filmes.

   Afirmo isto para dizer que o mais recente filme de Von Trier, “Ninfomaníaca”, é de menor monta ou, sendo mais claro, é mais fraco do que os citados: foi muito mais marcado por um golpe publicitário que por uma força cinematográfica própria. Isto não diminui a grandeza do filme em alguns temas: e pretendo destacar um deles sem ter a pretensão de esgotá-lo em nada. “Ninfomaníaca” é marcante e importante, mas sem a força plástica e sem a grandeza existencial da produção anterior de Von Trier.

   Destaco um tema que mais chamou a atenção no filme e que tem caráter pessoal na minha leitura. Trata-se de uma “relação impossível de convivência” entre sexo e religião. No livro “Eunucos pelo Reino de Deus”, de Uta Hanke (Editora Rosa dos Tempos), temos um painel interpretativo sobre como os cristãos católicos tratam de temas relativos à sexualidade humana de Santo Agostinho até Papa João Paulo II. A teóloga vasculha documentos da Igreja Católica no que diz respeito a moral sexual e a maneira peculiar de se defrontar com as formas e as práticas sexuais vividas pela humanidade. A tese da autora é clara e rigorosa: os cristãos trataram e tratam mal a vida sexual. Sempre moralizam antes de qualquer julgamento empírico, partem de posturas bíblicas na maioria das vezes anacrônicas e se tornaram fontes repressoras no que diz respeito ao sexo.

 Isto não significa que todos os cristãos e cristãs sigam a doutrina das Igrejas e nem que concordem com os documentos assinados por padres e pastores, em sua maioria teólogos. O chamado “Magistério da Igreja” tem posição firme e clara sobre o significado do sexo na vida dos cristãos. A forma como a cultura cristã se posiciona sobre temas sexuais marcou de maneira indelével a cultura ocidental na direção de uma “impossível convivência normal entre sexo e Religião” – e não acho que na cultura oriental foi muito diferente em termos de moral sexual. A probabilidade de uma sexualidade sem culpa no Cristianismo é muito pouco provável ou vivida por poucos Cristãos. O sexo é uma “tentação incomoda”, voltada para a procriação e seu momento prazeroso é sempre mal visto ou visto com profunda desconfiança. As historias escabrosas sobre práticas sexuais de religiosos são, em parte, a prova dessa vivência doentia e não-livre do sexo. O pecado sexual sempre ronda o fiel e tem ele que fugir das tentações, sempre ligadas a alguma forma do desejo. Pecar, num certo cristianismo hegemônico na cultura ocidental, é sempre relativo a sexo.

    Dum outro ponto de vista, o processo de secularização do sexo na modernidade é um caminho à parte na modernidade burguesa ocidental. Cada vez mais temos a autonomia e a defesa da vida privada no que diz respeito a práticas sexuais. A imaginação ganha foro privilegiado na vida pessoal e na realização das pessoas. O sexo vira lugar privilegiado para felicidade humana em detrimento do que diga qualquer religião. De Sade a Freud, o sexo e sua cultura passam a ser destacados como forma imperiosa de realização do sujeito no mundo moderno.

    O filme de Lars Von Trier nos mostra ficcionalmente essa situação de maneira exemplar e metafórica. Primeiro na estrutura de confissão que segue o filme: a personagem protagonista, Joe, passa todo o filme contando sua vida sexual de ninfomaníaca para um personagem bem mais velho de origem judia. Trata-se claramente de uma forma de “expiação” de suas práticas sexuais abundantes. A frase do título vem de uma fala da personagem onde faz de um ritual católico de uma oração. Joe parafraseia um a oração e inclui a palavra “Vulva” no lugar da palavra “culpa”.

  Já temos aqui uma estrutura religiosa em conflito patente. O sexo passa a ser objeto central no filme e motivo de “discurso sobre a verdade” (Foucault). O filme tem momentos sublimes como o da referência a Bach e sua polifonia de vozes necessárias à gigantesca música desse alemão e no que a torna um marco na música moderna. A  protagonista toma a explicação do judeu erudito e seu interlocutor para associar as suas prática sexuais como uma forma de “polifonia sexual”. O que Bach faz na música, a personagem faz no sexo. Ela ainda descreve em detalhes três dos seus amantes numa clara referência a polifonia de Bach.

    Um problema merece destaque aqui: Von Trier acaba resvalando para um certo “moralismo” ao tratar da personagem e de suas práticas sexuais. Percebe-se uma perturbação e uma insegurança de Joe no que diz respeito a sua descoberta e ao prosseguimento de suas “manias”. Não há tragicidade, mas remorso e dúvida; não há liberdade, mas sofrimento. O sexo em sua forma radical é visto como penoso, frio e cruel; como forma de sofrimento e não de prazer livre. Nota-se desde o início do filme, quando a personagem é encontrada em farrapos e ensanguentada num viela fria de algum lugar da Europa.

  O filme acaba moralizando o sexo fora da sua forma tradicional e “permitida” no ocidente cristão mesmo depois de toda a modernização das praticas sexuais. Obviamente, isto não invalida a película e sua importância. O filme de Von Trier é muito bom, apesar de não estar altura de alguns anteriores do diretor, mas em nada perde aquela pegada existencial tão comum ao estilo do cineasta dinamarquês e da tradição escandinava em que está inserido o diretor de “Ninfomaníaca”.

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe e escreve sobre cinema para REVER

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