Violência no carnaval (ou “O carnaval, quem é que faz?”)

apartheidsalvador

Ao investigar violência no Carnaval, artigo questiona: Quais elementos compõem a multidão que enche as ruas de Salvador durante a festa? Como se comportam? Quais os interesses de cada um desses setores? 

*por José Carlos Kizumba, em seu blog

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NOTA DA REVER:

O texto que segue abaixo é a reprodução do trecho de um artigo acadêmico de José Carlos Kzumba. Foi originalmente publicado no seu blog [http://blogdokizumba.blogspot.com.br/], e segundo o próprio autor, foi concluído ainda em 2009. Reproduzimos na intenção de politizar o debate sobre a privatização dos espaços públicos, a violência nas ruas e a segregação racial no Carnaval, aproveitando a aproximação da “maior festa popular do planeta”. O caso em destaque é o Carnaval de Salvador, onde estima-se a presença de 2 milhões de foliões

[I.S]
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O fato

Numa segunda-feira de carnaval, um jovem, mulato, acerta um soco no rosto de outro jovem, branco, que estava distraído no meio da folia. As características do agressor foram pouco reconhecidas, devido a sua rapidez ao se misturar com o restante da multidão. As características do agredido: jovem, branco, músculos definidos, vestido com um abadá de um bloco de carnaval, bermuda e tênis da marca “Nike”.

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O fato, sob o ponto de vista do agredido

             Para o agredido, o ato violento foi totalmente gratuito. Ele não havia provocado nenhuma briga, nem se quer visto o seu agressor. Segundo ele, não houve motivos para a agressão.

 Mapa social do carnaval

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A figura acima representa um esboço da distribuição espacial e social que ocorre no carnaval de Salvador. Os números representam:

 1- Uma fila de soldados quase todos pretos, dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos, tratados como pretos, só pra mostrar aos outros quase pretos (e são quase todos pretos) como é que pretos, pobres e mulatos e quase brancos, quase pretos de tão pobre são tratados.

2- Um confortável camarote, contendo um deputado em pânico, mal dissimulado.

3- Um trio elétrico de um artista, filmado pelas lentes do Fantástico, visto pelos olhos do mundo inteiro, e embalado pelo batuque, um batuque com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária em dia de parada.

4- Vendedores ambulantes, quase pretos de tão pobres.

5- Cordeiros dos blocos, pobres como podres.

6- Foliões da “pipoca”, quase todos pretos e quase brancos e quase pretos. Além de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos.

7- Foliões do bloco, representantes da grandeza épica de um povo em formação, que nos atrai, nos deslumbra e estimula.

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Motivações

 Os policiais estão no circuito carnavalesco a trabalho, sob orientação dos seus comandantes, com a missão de evitar e reprimir eventuais crimes, sobretudo brigas e furtos. Para estarem no carnaval eles precisam já fazer parte da corporação policial.

 Os políticos e demais representantes da elite sócio-econômica da sociedade estão nos camarotes em busca de visibilidade ou diversão, associado a um maior conforto e espaço físico para prestigiar os trios elétricos que seguem. Desta forma eles permanecem afastados dos foliões das ruas, protegidos por uma estrutura particular, onde, inclusive, não circula os policiais. Para estarem no carnaval eles precisam ser convidados pelo responsável pelo camarote ou pagar uma quantia que varia entre 50 a 400 reais diários.

 Os artistas estão interessados em apresentar os seus shows no circuito carnavalesco. As razões desse interesse são diversas, podendo ser apenas por diversão, como também por motivos econômicos, comerciais ou promocionais. Para estarem no carnaval eles precisam ser patrocinados por empresas, pelas secretarias municipais e estaduais ou pela vendagem de abadás – ou por tudo isso junto.

 Os vendedores ambulantes estão em busca de lucros com a venda de seus produtos, para complementar a sua renda mensal que normalmente é baixa ou até inexistente. Para estarem no carnaval eles precisam obter uma licença municipal a partir do pagamento de uma taxa no valor de 25 a 100 reais (ou não pagar, mas correr o risco de terem suas mercadorias apreendidas). Também precisam se alimentar e, sobretudo, dormir no seu ponto de venda, sob risco de perder o espaço para outros vendedores que disputam uma vaga; nem que para isso os vendedores tenham que levar sua família, incluindo crianças, para dormirem na rua e, assim, garantir o seu espaço.

4,

Os cordeiros estão em busca de uma remuneração, ao final de seu trabalho. Para estarem no carnaval eles precisam ser convocados pelos responsáveis pelos trios elétricos, em seguida passar cerca de 4 horas e 5 quilômetros segurando um cordão e controlando a entrada e saída dos foliões nos blocos. Ao final do percurso ele deverá esperar algumas dezenas de minutos para receber cerca de 25 reais pelo trabalho realizado. Em alguns casos é preciso esperar o carnaval terminar e, junto com o sindicato, exigir dos blocos o pagamento em atraso.

Os foliões dos blocos estão interessados em diversão. A opção em participar da festa dentro de um bloco de carnaval se dá pelo interesse em não se misturar com outras pessoas, devido a três principais questões: violência, sexo, status. A primeira questão parte do pressuposto de que o índice de brigas e furtos fora dos blocos é grande, o que justificaria a segregação promovida pelos blocos, onde os brancos, quase negros ou quase brancos de tão ricos se separam dos negros, quase negros, e brancos quase negros de tão pobres – isso garante uma segurança aos foliões dos blocos. A segunda questão é sexual. Quanto mais “branco” for o bloco, mais bonito ele será e, assim sendo, mais sexualmente atraente. Desta forma, se escolhe o bloco também pela beleza física de seus foliões. A última questão é o status social. Quanto mais caro e quase branco de tão rico for o bloco, maior é o status gozado por seus foliões. O oposto também ocorre: quanto mais barato ou mais preto de tão pobre for o bloco, menos status ele proporciona. Para estarem no carnaval eles precisam pagar entre 50 e 890 reais (alguns anos atrás eles também precisavam ser brancos e bonitos, e comprovar isso através do envio de fotos para os respectivos blocos, com antecedência).

Os foliões pipocas estão interessados em diversão. A opção em não sair em nenhum bloco ou camarote se dá a partir de duas principais questões: culturais e financeiras. A primeira questão ocorre com os indivíduos já acostumados em se divertir fora dos blocos, ou que realmente preferem a festa na pipoca, em vez dos blocos. A segunda questão é para aqueles que até gostariam de sair em determinados blocos, mas não possuem dinheiro para tal. Ou até possuem, mas acham que o custo x benefício é desvantajoso. Para estarem no carnaval eles precisam apenas ir ao circuito.

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Os grupos sociais fora do carnaval

 Os policiais, quase todos pretos, são os mesmos que garantem a segurança da sociedade nos 358 dias restantes do ano. São milhares de policiais militares na corporação, o que agrega uma variedade de personalidades e características. No entanto, a imagem dos policiais é: profissionais despreparados, brutos, sob uma estrutura institucional precária, e boa parte corrupta. Além disso, são os que dão porradas na nuca de malandros pretos e ladrões mulatos. Entre um branco e um preto, sua abordagem é feita ao preto, já de forma violenta. Pois todos sabem, como se trata o preto.

 Os políticos, quase todos brancos, são os mesmos que tomam as principais decisões que afetam a sociedade nos 358 dias restantes do ano. São centenas de políticos, o que agrega uma variedade de personalidades e características. No entanto, a imagem dos políticos é: corruptos, comprometidos com a elite econômica e as alianças partidárias, incompetentes e oportunistas.

  Os cantores, de cima do trio, são os cantores que aparecem na televisão, são os atores das telenovelas, os participantes do Big Brother ou os modelos das propagandas de cerveja. São os exemplos clássicos de beleza, riqueza e sucesso. São tudo aquilo que a mídia apresenta como referencial humano e, ao mesmo tempo, tudo aquilo que os malandros pretos, ladrões mulatos, pretos, quase pretos, quase brancos, quase pretos de tão pobre, pobres e podres ambicionarão ser, mas nunca serão. Alguns pretos até conseguirão ser, caso façam sucesso com alguma música de pagode. Mas será esporádico, talvez dure apenas um carnaval. Para atingir o grau mais elevado de admiração, precisarão ser brancos ou quase brancos de tão ricos.

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 Os vendedores ambulantes, quase pretos e quase brancos, podem ser comparados ao grosso da população: trabalhadores árduos, mão-de-obra barata, de família pobre, com pouco estudo e que sustentam com trabalho o divertimento das classes médias e altas. São as empregadas domésticas que acordam 5 horas da manhã, para preparar o almoço dos filhos e, em seguida, ir para o ponto, esperar o ônibus das 6:30; para sair de seu bairro – pobre e afastado do centro – em um ônibus mal conservado e superlotado, para chegar no apartamento de seus patrões às 8:00; para realizar uma cansativa e massiva jornada de trabalho e, ao entardecer, partir de volta para o seu lar, tendo que enfrentar um ônibus ainda mais cheio e um trânsito ainda mais congestionado; ação esta repetida diariamente, o que lhe renderá um salário mínimo no final do mês. Os vendedores ambulantes, além de empregadas domésticas, são também vendedores dos comércios e shopping centers da cidade, são garis e zeladores. São jardineiros, guardas-noturnos, casais. São passageiros, bombeiros e babás. São faxineiros, bilheteiras, baleiros e garçons.

 Os cordeiros são desempregados, moradores de rua, aposentados, viciados em droga, estudantes. Mas são, sobretudo, porteiros e seguranças. São os primeiros no front, a defender a propriedade privada (que não é sua, mas é a que garante o seu emprego). São o elo direto entre a sociedade e os proprietários. São os que autoriza a entrada e saída das pessoas. São os primeiros a morrerem ou serem feitos de refém quando criminosos da sociedade decidem invadir determinado condomínio, ou assaltar um banco.

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 Os foliões dos blocos são milhares, o que agrega uma variedade de personalidades e características. No entanto a imagem que eles passam são de pessoas oriundas de famílias de classe econômica média e classe econômica alta. Jovens que possuem plano de saúde, plano odontológico e que puderam estudar toda a vida em bons colégios particulares, que poderão ingressar em uma universidade pública – mas se não ingressarem, não tem problema, pois existem as faculdades particulares pagas pelos pais – e que poderão começar a trabalhar só a partir dos 25 anos, depois de concluírem sua graduação. São os futuros médicos, advogados e engenheiros. São os que não precisam arrumar a cama, pegar ônibus, nem se preocupar com contas a pagar. São os que podem fazer um curso de inglês ou um intercâmbio na Espanha. São os que podem malhar para ficar bonitos. São os que podem comprar roupas de marca e da moda, para ficarem bonitos. São os que podem comprar os melhores cosméticos, para ficarem ainda mais bonitos. São os que podem amar ao próximo como a si mesmo, não discriminar ninguém por sua cor ou credo; são os que não fazem mal a ninguém, respeitam as leis de trânsito e dão esmola aos mendigos; são os que não têm culpa de terem tido oportunidades e só querem ser felizes. Ainda assim, continuarão sendo quase todos brancos, quase brancos de tão ricos, que atrai, deslumbra e estimula.

            Os foliões da pipoca são milhões, o que agrega uma variedade de personalidades e características. Na pipoca, ao contrário dos blocos, há uma menor segmentação. Há uma grande variedade de cores, roupas, sexos, culturas, classes. Há também os malandros pretos e os ladrões mulatos. Dentre eles, o mesmo jovem mulato – o agressor do início do capítulo.

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O fato, sob o ponto de vista do agressor

 Para o agressor, não houve gratuidade em sua ação. Talvez esse ladrão mulato seja filho de um cordeiro com uma vendedora ambulante. Talvez.

  Provavelmente ele se frustra por não ser um artista em cima do trio, ou por levar porrada na nuca, de uma fila de soldados quase todos pretos. Provavelmente.

 Mas, certamente ele viu uma representação simbólica no jovem branco– que nunca se saberá se ele é um mocinho ou vilão; uma pessoa boa ou ruim; uma pessoa rica ou pobre, filho de uma mãe prostituta ou advogada; ou que quer construir um país ou abandoná-lo por uma pasta de dólares. Nada disso importou para o agressor. E o que ele viu foi um jovem, branco, músculos definidos, vestido com um abadá de um bloco de carnaval, bermuda e tênis da marca “Nike”. E a representação social que ele tirou é que esse jovem era branco, com todas as oportunidades que o ladrão mulato nunca teve (incluindo o plano odontológico); que tinha músculos definidos, fruto de uma malhação em academia, onde o ladrão mulato nunca pôde freqüentar, o que só perpetuará ainda mais a sua feiúra (o que não deve ser fácil, em uma sociedade que coloca a sensualidade em primeiro lugar); viu também que o jovem branco estava vestido com um abadá de um bloco, o que significa dizer que ele tem dinheiro de sobra

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Pense no Haiti

             No carnaval de Salvador, com cerca de 2 milhões de pessoas por dia, quase ninguém se conhece e, portanto, é missão quase impossível decifrar a personalidade e história de cada um que se diverte na folia. É por isso que, mais do que nunca, a imagem passa a prevalecer sobre a essência de cada indivíduo.
            Desta forma, a imagem da elite branca gozando de espaço, conforto e comodidade no seu camarote é bastante violenta para o folião pipoca espremido entre a maderite que separa o camarote, da elite, e as cordas que o separa do folião do bloco, da elite. E muitas vezes, neste espaço físico, onde só cabe uma fileira de pessoas, ainda é necessário dividi-lo com uma fileira de policiais que passa para garantir a ordem da festa. Neste caso, só restam duas opções: agarrar a maderite do camarote, coberta de mijo, ou se lançar na direção das cordas do bloco. Neste caso, só restam duas opções: ser empurrado pelos cordeiros do bloco, ou receber uma porrada de um dos cassetetes de um dos policiais. Neste caso, a violência física é bastante dolorosa. Em todos os casos a violência moral e imagética é ainda maior.
            É por isso, também, que imagem do cordeiro segurando sua corda e o folião do bloco se divertindo é violenta. O cordeiro é preto e pobre. O folião do bloco é branco e quase rico de tão branco, ou quase branco de tão rico. O cordeiro está passando três horas de bloco para ganhar menos de 10% do que o folião pagou para poder se divertir no dia. O cordeiro queria mais era estar se divertindo, em vez de trabalhar. O folião não só queria, como pode. O cordeiro não pode, por isso trabalha em condições miseravelmente violentas, para sustentar a diversão dos foliões dos blocos. O folião pode até ser uma pessoa boa, e o cordeiro pode até ser uma pessoa má, mas a imagem deles dois, juntos em uma mesma fotografia, lembra a época do adro da Fundação Casa de Jorge Amado, onde os escravos eram castigados.
            A imagem de um malandro preto arrancando a carteira de um homem descuidado é violenta.
        A imagem de um deputado mal dissimulado, diante das lentes do Fantástico, enaltecendo a grandeza épica de seu povo e a grande festa carnavalesca de sua cidade também é violenta. Sobretudo para os vendedores ambulantes que enfrentam filas por um atendimento médico, que perdem filhos e netos pela falta de um atendimento médico; que não têm emprego e ainda têm de pagar uma taxa de 25 reais para poderem trabalhar no carnaval, cuja arrecadação vai parar na secretaria governada pelo mesmo partido do deputado, que aumenta o seu próprio salário anualmente, aumentando também o preço das passagens de ônibus, e aumentando também a propina paga pelas empreiteiras. Talvez não haja nada mais violento para o vendedor ambulante do que o sorriso de um deputado, diante das tv´s, em pleno carnaval.
            Por fim, é também violenta a imagem de um ladrão mulato dando um soco “gratuito” em um jovem folião.

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