Saldo positivo do Carnaval: os tapuias ocuparam a avenida

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ACM Neto representa esta tentativa nefasta de usurpação da própria cidadania, de nos tirar o direito sagrado às discordâncias, pois, afinal, tudo estará lindo e maravilhoso.

 

*por Franciel Cruz, no PassaPalavra

Conforme já ensinou o menino Paulo Emílio Sales Gomes, “o papel do profeta não é acertar, mas sim profetizar”. Porém, na Bahia é muito fácil ser profeta e acertar, concomitantemente. Basta sempre apostar no óbvio e no absurdo, que aqui são sinônimos.

Noves fora o cabotinismo, recorro às premonitórias prosopopéias abaixo, que proferi em outubro de 2012, antes, portanto, da eleição do atual prefeito de Salvador. Às aspas, maestro.

“Vocês, moços, pobres moços, não lembram, mas eu me lembro e lhes digo: era (e é) insuportável este ranço de Bahia mágica, folclórica, que interdita o debate e não aceita o contraditório. Na época carlista, crianças, criticar a Bahia era como insultar o estado, pois o estado sempre foi dele, ou ele se arvorou a ser o estado, como aquele rei francês.

À mínima crítica que se fizesse, logo aparecia um carlista, em tom ameaçador, para questionar: ‘Você num gosta da Bahia, não?’.

É que discordar dos carlistas sempre foi sinônimo de não gostar da terra onde você nasceu – e da qual eles se arvoraram a donos. Mas a cidade hoje [este texto é de 2012, é bom frisar novamente] está inabitável, dirão alguns, não sem razão. Porém, num governo de ACM Neto poderá ser ainda pior, pois, além das perseguições de toda a ordem, existirá ainda a imposição simbólica de que a Bahia, a Bahia verdadeira e única, é ele e suas políticas retrógradas.

Repito. ACM Neto representa esta tentativa nefasta de usurpação da própria cidadania, de nos tirar o direito sagrado às discordâncias, pois, afinal, tudo estará lindo e maravilhoso”.

Que beleza, né, não? Não. É uma tristeza, especialmente porque agora tem-se o auxílio pernicioso e unânime da imprensa.

É notório que o projeto carlista, desde sua origem, tentou se apropriar da baianidade, naquela base dol’État c’est moi. Porém, mesmo nos períodos mais sombrios, a contraposição ganhava espaço na imprensa. (Existiram momentos, nunca é demais destacar, em que a imprensa era a própria resistência. Basta lembrar a história de luta anti-carlista do Jornal da Bahia).

Pois bem, digo, pois mal. O mais grave no atual momento de Salvador é que há uma complacência sem limites.

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Tomemos como exemplo o jornalismo impresso, onde deveria existir mais espaço para a reflexão e o contraditório. O jornal mais vendido, Correio, antigo Correio da Bahia, é da família do prefeito, mas sofre bastante com a concorrência de A Tarde, no que se refere ao título de veículo mais governista. A Tribuna da Bahia tornou-se uma caricatura de si mesma, alcançando uma irrelevância inédita. Já o Jornal da Metrópole insiste no humor. (Sim, a manchete do day after do Bonfim, colocando o alcaide como “Muso do Bonfim” só pode ser lida como humor).

Neste primeiro ano de governo, imperou o jornalismo declaratório. Poderia chover caco de vidro, mas, se o prefeito afirmasse que era neve, os jornais publicariam que Salvador estava coberta de gelo. Vivemos alguns longos e tenebrosos meses sob o signo da acriticidade.

Neste período, não se questionou nada. Desde o suspeitíssimo incêndio na Secretaria de Educação até à derrubada de casas e expulsão de famílias na região da Preguiça, o que sempre prevaleceu foi a versão governamental.

É óbvio que isso aconteceu também porque, no aspecto político-partidário, houve uma capitulação. Para se ter uma idéia do desastre, o maior partido de oposição na Câmara Municipal, o PT, atuou praticamente como linha auxiliar do prefeito. Na votação do IPTU, por exemplo, dos sete integrantes da legenda, cinco votaram favorável à proposta de ACM Neto.

As primeiras críticas no campo partidário, e mesmo assim muito tímidas, só apareceram quando a classe média e os empresários estrilaram por conta do mesmo IPTU. No entanto, os problemas mais graves, relativos à depredação da cidade e à privatização dos espaços públicos, foram praticamente ignorados pela imprensa e a (mal) dita oposição convencional.

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E olhe que todas estas ações da Prefeitura sempre encontram opositores na chamada sociedade civil. Um exemplo simbólico ocorre em relação ao Linha Viva, que pretende expulsar famílias de Saramandaia e de outras localidades, em benefício do transporte particular. O famigerado projeto foi combatido, de modo heróico e veemente, por instituições como o Lugar Comum, Vozes de Salvador, A Cidade Também É Nossa, entre outros. Estas vozes dissonantes se transformaram em verdadeiros tapuias, índios que resistiram bravamente aos colonizadores e foram acusados de falar língua incompreensível. Porém, a luta destes órgãos nestas importantes batalhas teve pouca repercussão na imprensa.

É óbvio que esta lógica perversamente acrítica de grande parte da imprensa não podia ser diferente nos festejos momescos. Assim, um Carnaval que aprofundou a exclusão, privatizando ainda mais o espaço público, foi noticiado, antes mesmo de acontecer, “como o melhor e mais organizado de todos os tempos”.

O prefeito, que antes da folia já havia cortado uma série de linhas ligando a periferia aos chamados bairros nobres, intensificou esta política segregacionista no Carnaval. Porém, na antevéspera da folia, concedeu coletiva à imprensa afirmando que o transporte público era a “tônica” da gestão. A situação real foi tão vexatória que até o vice-líder do governo na Câmara Municipal teve que reconhecer as falhas do sistema.

E os fatos não confirmaram diversas outras obras da propaganda ufanista. No aspecto organizacional, apenas um exemplo bizarro para ilustrar “o mais organizado Carnaval de todos os tempos”. A impressora do órgão de turismo municipal (Saltur) quebrou e, mesmo já no segundo dia de Carnaval, mais de 1.500 profissionais da briosa imprensa ainda não haviam conseguido credenciais. Que beleza!

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E, graças a Baco, as ruas também não estavam dispostas apenas a dizer sim. A resistência começou com os ambulantes. Ao seu modo, eles desafiaram a imposição privatista do espaço público e não obedeceram à ilegal determinação de só comercializar uma marca de cerveja.

Esta rebeldia encontrava eco em outras manifestações. Logo na quinta-feira, a Pipoca Indignada botou o bloco na rua, bradando contra a camarotização da folia e da própria cidade. A tradicional Mudança do Garcia, apesar de domesticada nos últimos anos, uma vez mais também foi ambiente propício contra a falsa unanimidade ao prefeito, que ele e grande parte da mídia tentam vender. Porém, apesar de todos estes protestos carnavalescos, que foram mais do que justos, o prefeito continuava protegido.

O primeiro ataque ad hominem que atingiu diretamente o alcaide aconteceu no sábado de Carnaval, quando ACM Neto foi recebido com vaias no Curuzu. Ali, naquele tradicional bairro, majoritariamente negro, ficou demonstrado que é possível derrubar a máscara e o muro que impedem o contraditório atualmente na cidade.

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Os grandes veículos de comunicação, que teimam (ainda) em ignorar a resistência a esta falsa e perniciosa unanimidade, vão acabar compreendendo que os tapuias soteropolitanos estão dispostos a contrariar a linguagem oficial, rasgando a máscara farsesca de que o atual gestor municipal é intocável. Ninguém é intocável e o discurso único não vai prevalecer. E isto, sem dúvida, foi o saldo mais simbolicamente positivo do Carnaval para a cidade, que se recusa a ser mera capitania hereditária.

Fotografias de Lucio Adeodato, Mudança do Garcia de 2014

 

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