A esquerda que a direita gosta

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“Quem faz a distinção entre ‘boas manifestações’ e ‘manifestações de vândalos’ é a burguesia. A esquerda infelizmente aderiu a essa classificação. Cedeu. Capitulou. As organizações políticas chegam a competir entre si quem primeiro se posicionou contra os “Black Blocs”

 *por Alexis Pedrão

As mobilizações de junho abriram um excelente clima político para a esquerda no Brasil. Os setores conservadores, com apoio central da mídia, inicialmente elaboraram um discurso de criminalização das manifestações e dos manifestantes, mas por conta da força dos protestos se viram obrigados a mudar o tom da crítica, apontando para a divisão dos manifestantes entre “cívicos” e “vândalos”.

 Naquele momento, mesmo já apresentando algumas vacilações, a esquerda tinha bastante força política para fazer essa discussão sem ceder às pressões burguesas. Entretanto, após a morte do cinegrafista Santiago a classe dominante aproveitou a oportunidade para lançar mão de uma ofensiva conservadora e repressora frente às manifestações. A partir da espetacularização da comoção da morte de um trabalhador, a esquerda foi acuada e teve maior dificuldade de responder à “opinião pública”, que na verdade é a opinião da mídia privada e da elite brasileira.

 É verdade que foi uma fatalidade? Sim. É verdade que foi uma grande tristeza a morte do cinegrafista? Sim. Essas questões não estão em discussão, embora a mídia continue a reforçar de forma mentirosa que a esquerda não se incomoda com a morte de um trabalhador ou que foi um ato proposital. A discussão a ser feita aqui, considerando as posições majoritárias da esquerda, é a da utilização de ações radicalizadas na conjuntura dos movimentos de rua. Essa é uma polêmica importante e impressiona o recuo das lideranças e movimentos em relação a questão da radicalidade nos protestos. Condenando sempre que possível os “Black Blocs”, a esquerda brasileira afirma em alto e bom som que é “contra a violência, venha de onde vier”. Que essas ações “isoladas” não contribuem com nenhum avanço, senão afastar as pessoas das manifestações.

 Ora, a revolta social jamais poderá ser comparada a violência da burguesia e do aparato repressor do estado. E separamos burguesia de aparato repressor, pois o fato, por exemplo, de o trabalhador no percurso casa-trabalho-casa gastar duas horas de ida e mais duas horas de volta dentro de um ônibus caro, velho e superlotado, é sem dúvidas um ato de violência. Cotidiano, massacrante. A violência não é apenas a violência policial.

 O que esperar de uma pessoa que não possui as condições mínimas de sobrevivência? O que você faria se tivesse fome? O que faria se não tivesse um teto para dormir com sua família? Ou ainda, o que faria vendo um filho ou um parente inocente ser assassinado pela polícia, apenas por sua condição social e pela cor da pele? Aqueles que julgam a justa revolta popular, que se materializa de diferentes formas, inclusive com quebra-quebra, deveriam antes de tudo, colocarem-se no lugar dos trabalhadores e da violência a que são submetidos. Geralmente os analistas mais fervorosos fazem as críticas bem distantes das contradições, do conforto de seus prédios ou por trás dos “tablets”.

 Uma segunda questão é histórica. Qual a grande transformação social ou processo revolucionário que aconteceu de forma amistosa e pacífica? O próprio Estado Liberal-Burguês, convencionalmente nomeado de Estado Democrático de Direito, foi erguido em cima de muita luta e de muito sangue. Ou a revolução francesa foi um baile de debutantes? A destituição do poder político das mãos da nobreza e do clero foi um processo bastante conturbado e violento. Essa é uma característica dos processos históricos de ruptura social, uma vez que os que detêm os privilégios não cedem amigavelmente sua condição social para que possamos todos viver de forma igualitária. É preciso lutar.

 Estamos, de junho para cá, em um processo revolucionário que se justifiquem ações radicalizadas? Parece que não. Mas os fatos se desenvolvem processualmente, de modo que elementos revolucionários podem estar presentes numa conjuntura que de forma geral ainda não é revolucionária. O amanhã só pode nascer no hoje.

 Em terceiro lugar, quem faz a distinção entre boas manifestações e manifestações de vândalos é a burguesia. A esquerda infelizmente aderiu a essa classificação. Cedeu. Capitulou. As organizações políticas chegam a competir entre si quem primeiro se posicionou contra os “Black Blocs”. Paulo Freire dizia abertamente que a educação não muda a sociedade, tampouco a sociedade muda sem ela. De forma análoga podemos dizer que o ato de jogar pedras em bancos não mudam a sociedade, tampouco a sociedade se modifica sem a derrocada definitiva dos bancos. A revolta social que estava adormecida e que de tempos para cá explode de forma incontrolável enxerga nesses símbolos uma forma válida de protesto. E o papel da esquerda é negar por completo essas iniciativas? Se for, me avisem antes, para que dê tempo de escrevermos uma carta para o MST implorando que eles parem de ocupar terras, pois o que os “sem-terra” fazem há 30 anos é “puro vandalismo!”.

 Ontem morreu Santiago. Antes de ontem Amarildo. Um pouco mais atrás Dorothy Steng. E assim tantos outros. Esses são dolorosos efeitos colaterais da desigualdade capitalista, a principal causa de tantos problemas. O enriquecimento de poucos, em detrimento da miséria de muitos. A esquerda que nega as ações radicalizadas que extrapolam o limite frio e conservador da lei é a mais pura expressão de adaptação à ordem, pois além de negar a essência violenta da luta de classes, nega a história das suas próprias organizações. Para esta esquerda adaptada, o movimento das eleições é elencado como a principal prioridade, ainda que os discursos neguem. O desespero por votos e pela manutenção e ampliação de espaços na institucionalidade é tão mais importante que a organização das lutas, que acaba valendo tudo! Até mesmo negar a própria esquerda. Essa é a esquerda que a direita gosta.

 

*Alexis Pedrão é servidor da rede estadual de Educação e colunista da Revista Rever

7 comentários sobre “A esquerda que a direita gosta

  1. Bom texto, mas generalizar é complicado. Podemos fazer um bom debate sobre o seguinte ponto: “O que é Esquerda?” Será que dizer que é esquerda significa na pratica ser??? Eu sou de esquerda, sou morador de favela e tenho várias críticas a atitudes das organizações “Bolchevistas” no Brasil e as atitudes individualistas de muitos Anarquistas e posso dizer que muitas atitudes e bandeiras não me representam. Mas esse é um longo debate e não é aqui que vai se resolver.
    No mais, o texto é muito bom para abrir as ideias.

  2. Eu tenho um posicionamento mais atrelado a linha conservadora e por conta disso me posiciono a direita no aspecto politico. A unica coisa que eu concordo nesse texto é com o fato de a esquerda ser hipocrita e mentirosa na hora de se posicionar contra os back-blocs. A historia mostra claramente que em todo país aonde o socialismo se desenvolveu, os momentos de sua implementação sempre foi marcado por violencia, mortes e genocidio; por conta disso não dá pra negar o seu passado nefasto pois a mentalidade que gerou as mortes no passado é a mesma que move a corrupção estatal e a violencia das manifestações hoje.

  3. Incrível que é o PSTU quem se autodenomina o primeiro instituto partidário a emitir nota de repúdio aos black blocs! Ouvi isso na Globo, em seu “famoso” telejornal, através de um dos seus dirigentes máximos.

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