O hooliganismo realmente morreu ou as intenções sempre foram outras?

industria da banning orders

Desmitificar o “exemplo inglês para o fim da violência no futebol” se tornou a pauta do dia para os torcedores brasileiros. Mais do que lendas, supostas soluções inglesas estão criando novos problemas como a indústria dos banimentos.

*Gian Petry

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NOTA DA REVER
O texto que segue abaixo é fruto da contribuição do autor a outro material lançado na REVER, de título “Uma resposta a Jonathan Watts: sobre a violência e estádios vazios”. São leituras complementares sobre um tema de grande relevância para o futebol brasileiro no período que antecede a realização da Copa do Mundo FIFA 2014.
[I.S]
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Relatório Taylor. Hillsborough. Futebol moderno. Você provavelmente já leu ou ouviu estas palavras por aí. Caso contrário, cabe uma breve explicação no parágrafo que segue.

Em 15 de abril de 1989, 96 torcedores do Liverpool foram vitimados na tragédia de Hillsborough, em uma partida pela semifinal da Copa da Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest. Já saturado pelo problema do hooliganismo, que estava em seu auge, o futebol inglês clamava por mudanças urgentes. E elas vieram. Em 1990 foi publicada a versão final do Relatório Taylor, documento elaborado para investigar as causas do trágico incidente e sugerir alterações quanto à segurança nos estádios ingleses. Dentre as recomendações estava aquela que apontava que os estádios, a partir daquele momento, deveriam modernizar-se. Em pouco tempo as velhas arquibancadas foram dando lugar a estádios repletos de cadeiras e a novas arenas, onde todos os espectadores deveriam assistir aos jogos sentados. Paralelamente, o que se seguiu foi uma modernização total do futebol britânico. Os clubes, os estádios e a própria liga passaram a ter acionistas ou donos. Surge, aí, o futebol negócio.

  Com o álibi de botar um ponto final no problema da violência no esporte, o preço dos ingressos subiu de forma grotesca. Isso deveria afastar os torcedores “brigões”, já que estes, historicamente, sempre pertenceram à classe trabalhadora inglesa, com poder aquisitivo restrito.

Porém, estes torcedores não foram, exatamente, impedidos de viver o futebol ou o Matchday. Durante a década de 90, os grupos violentos continuaram viajando para jogos de suas equipes e da seleção inglesa fora de casa. E, obviamente, promovendo caos por onde passavam. Como na Euro 1992, na Suécia. Ou no episódio de Lansdowne Road, em 1995.

Lansdowne Road,  1995.
Lansdowne Road, 1995.

  Para solucionar de vez a questão, foram introduzidas, via Football Act em 1999, as banning orders. Por meio destes rígidos banimentos, aliados a fiscalização quase onipresente de câmeras nas ruas, todo e qualquer  torcedor que protagonizasse atos de violência seria imediatamente reconhecido e preso, perdendo o direito de frequentar jogos por um longo período de tempo, ou, em alguns casos, até ser preso, de acordo com o “crime” cometido. Um simples soco poderia garantir quatro anos de proibição ao “meliante”.

  Era a liga perfeita para os olhos da mídia europeia. Estádios lotados, famílias e turistas presentes em um ambiente aconchegante, arrecadações altíssimas, futebol de qualidade e o tão sonhado fim do hooliganismo. Um exemplo a ser seguido pelos demais países do velho continente, também acometidos pela febre da violência. Será?

Lansdowne Road,  1995.
Lansdowne Road, 1995.

  Nem tudo é o que parece. A menina dos olhos das autoridades, inclusive das brasileiras, hoje está incontrolável. Alguns clubes tradicionais da ilha tornaram-se nada mais do que máquinas de lavagem de dinheiro e negócios sujos, muitos dos quais decretaram falência. Outros, sob mandos e desmandos de donos que não tem o mínimo apreço pelo esporte se não pelo dinheiro que o mesmo movimenta, tiveram suas histórias rasgadas com trocas de cores de camiseta, do escudo e mudanças de nome. Torcedores e até treinadores fazem campanha pela volta da atmosfera de torcida nas arquibancadas, tão ausente nas últimas duas décadas.

Agora surge a indústria das banning orders. Segundo artigo do Independent, as unidades de Inteligência no Futebol faturam, em média, £747,139 libras por ano, via proibições. São diversos os processos abertos por torcedores que alegam coerção e aleatoriedade nas prisões, efetuadas com um único proposito arrecadatório. Muitos foram punidos sem investigação do processo, sob o argumento: “É hooligan? Deve ser culpado”. Torcedores foram presos por cometerem o suposto crime de tirar a camiseta no saguão do estádio.

Violência no derby entre Birmingham e Aston Villa, 2010.
Violência no derby entre Birmingham e Aston Villa, 2010.

 Mesmo sob a vista grossa da grande mídia, o sistema inglês vem mostrando a sua verdadeira face: um relatório forjado há mais de duas décadas, que culpou injustamente os torcedores do Liverpool para mascarar a incompetência do governo e da polícia, acabou criando um grande mercado, onde empresários de caráter no mínimo discutível e de fortunas duvidosas movimentam dinheiro sujo a bel-prazer, sob o silêncio da federação inglesa, ignorando a tradição, a história e o verdadeiro torcedor, que foi expulso do esporte graças a elitização do público.

A pergunta que fica é: todo este aparato está servindo a seu propósito, o de exterminar a violência? A resposta é um sonoro não. Um artigo do jornal britânico Mirror aponta alguns dados do hooliganismo no ano passado. Apenas em 2013, 2.456 torcedores foram presos em dias de jogo. 589 foram banidos dos estádios. Chelsea e Manchester United, dois clubes expoentes do mercantilismo no futebol, estiveram entre os cinco primeiros na lista dos violentos. 

Violência no derby entre Birmingham e Aston Villa, 2010.

Segundo a British Transport Police, o número de prisões relacionadas a brigas de futebol nas imediações dos estádios cresceu 49% em 2010. Foram inúmeros os confrontos e as invasões de campo nos últimos 5 anos. Se tais números fossem relacionados ao futebol brasileiro, os grandes jornais e canais de televisão tratariam o assunto como uma epidemia. Cobrariam medidas repressoras inimagináveis. Mas não. Isso acontece na terra da Rainha. É o conto de fadas, o intocável exemplo a ser seguido.

Hooligans do Manchester United ameçam Wayne Rooney em frente a sua casa
Hooligans do Manchester United ameçam Wayne Rooney em frente a sua casa

  A média de idade do futebol inglês hoje é de 41 anos. Poucos jovens se interessam pelo esporte, em virtude dos preços altos e da falta de atratividade. Em compensação, dentre os presos por atos de violência, a média não passa dos 23. A cada dia surgem novas alas de jovens violentos, as youth firms, dentro dos históricos grupos hooligans.

Confronto entre torcedores e guardas no jogo entre Millwall x Wigan, Copa da Inglaterra, 2013
Confronto entre torcedores e guardas no jogo entre Millwall x Wigan, Copa da Inglaterra, 2013

Não precisa ser um especialista em estatística para concluir que os poucos jovens que vivem o futebol na Inglaterra não são exatamente do tipo pacífico. Atraídos por uma subcultura que lhes garante a sensação de pertencimento, aliado a um sistema de interesses escusos, que trata com repressão e higienização um problema de caráter social e de natureza humana, cabe a reflexão sobre qual será o resultado final da experiência britânica quando esta geração mais velha passar e os mais novos retomarem as rédeas, como nas décadas de 70 e 80.

*Gian Petry é torcedor gremista e aspirante a escritor

2 comentários sobre “O hooliganismo realmente morreu ou as intenções sempre foram outras?

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