O presente de grego dos sergipanos

nao vai

Para quem está servindo o discurso do “legado da Copa”, senão para as empreiteiras, empresas privadas de segurança, especuladores, entre outros grupos seletos? O que fica para os trabalhadores após o fim da Copa? Não seriam as mesmas filas nos hospitais ou a falta de saneamento básico para milhares de comunidades?

*por Alexis Pedrão

Estamos a menos de dois meses da data prevista para a abertura da Copa do Mundo no Brasil. Sergipe participará ativamente desse evento como uma das cidades sedes. Nosso pequeno, rico e belo estado receberá a seleção da Grécia. Mas para além da aparência e dos festejos oficiais de melhorias na economia, no turismo e etc., será que não estamos diante do agravamento de velhos problemas sociais ao invés de avançar nas suas resoluções?

Não é de hoje que são discutidos os mega eventos e seus impactos, se positivos ou negativos, para a maioria da população brasileira. Desde as jornadas de junho é comum ouvirmos em greves e passeatas, manifestações acerca desse tema. A histórica greve dos garis do Rio de Janeiro, por exemplo, cantou em diversos atos públicos a palavra de ordem “Não Vai ter Copa” [1]. Ressalte-se que as grandes mobilizações no país “estouraram” justamente no período da Copa das Confederações.

Do nosso ponto de vista, enquanto não forem garantidos direitos mínimos para a sobrevivência da classe trabalhadora, não é possível concordar com a farra de dinheiro público e de subserviência do governo, parlamentares e judiciário às organizações internacionais, sendo preferível que não tivesse copa. Isso não significa não gostar de futebol ou de incapacidade do Brasil. O problema é a contradição visível entre a falta de investimento em educação, saúde, moradia e transporte e a abundância de dinheiro público para construir estádios.

Para quem está servindo o discurso do “legado da Copa”, senão para as empreiteiras, empresas privadas de segurança, especuladores, entre outros grupos seletos? O que fica para os trabalhadores após o fim da Copa? Não seriam as mesmas filas nos hospitais ou a falta de saneamento básico para milhares de comunidades?

Ademais, há uma série de impactos imediatos. Mortes e greve de operários nos estádios, em virtude do ritmo de trabalho para cumprimento dos prazos da FIFA, remoções forçadas de comunidades tradicionais e aumento da perseguição e criminalização dos movimentos e sindicatos são alguns dos principais agravantes. Nos 50 anos do golpe civil-militar no Brasil é assustador discutir a possibilidade de ser considerado terrorista apenas por lutar por direitos durante o período da Copa.

Em Sergipe, o investimento conjunto do governo federal e estadual ultrapassa os R$15 milhões. De acordo com a ASN, o governo estadual participa com a contrapartida de 10%, cerca de 1,5 milhões. Quando o “papo” é sobre Copa e obras do Batistão não se ouvem falas temerosas em relação à LRF ou ao limite prudencial, como foi ouvido por milhares de servidores públicos durante os últimos anos.

Uma outra questão no envolvimento do estado com a Copa diz respeito à produção dos gramados da Arena Mané Garrincha/Brasília e do Batistão, na cidade de Neópolis [2]. Enquanto os movimentos sociais discutem a urgência da reforma agrária e da diversificação na produção de alimentos, o governo insiste no avanço do agronegócio, nesse caso na monocultura da grama. Em outubro do ano passado, durante ocupação de uma fazenda de grama em Neópolis, Gileno, liderança do MST, foi enfático: “O povo não come grama, nem eucalipto e nem come cana. Nós estamos dizendo aqui que o papel dos projetos governamentais seriam priorizar a produção de alimentos” [3]

Nas obras do Batistão não foi registrada nenhuma morte. Mas não devemos esquecer da greve e das paralisações dos operários do Batistão [4]. Por diversas vezes os trabalhadores da empresa MRM paralisaram as atividades, devido aos desrespeitos trabalhistas. Essas práticas são parte da rotina e do tratamento das empreiteiras para com os trabalhadores. Isso exemplifica uma realidade de empregos gerados com base na super exploração dos trabalhadores. Importante destacar ainda, a temporalidade dos empregos criados nos setores de comércio e serviços, já que boa parte passa a não ter serventia para o mercado tão logo se encerre o evento.

No quesito “segurança pública”, Sergipe se destacou no discurso repressivo. Sediou em fevereiro último, o encontro de secretários de segurança pública do nordeste e plenária do colegiado nacional de secretários em conjunto com o governo federal, através do ministério da justiça [5]. A síntese foi em torno da intensificação do enfrentamento às manifestações. Para o governo Déda/Jackson que pediu a ilegalidade de diversas greves, utilizou-se do aparato militar para desocupar famílias sem teto e não apresentou os culpados das mortes dos garotos Jonathan e David Felipe, a orientação de mais repressão às manifestações funcionará na prática como autorização expressa para o terror de Estado.

Poderíamos falar das denúncias de corrupção, do caos da mobilidade urbana, da ausência de participação política e mais uma série de questões. Esses apontamentos nos levam a refletir que não vale a pena o preço social a ser pago para garantir algumas migalhas para os trabalhadores, enquanto as empresas e a FIFA lucram milhões e os políticos garantem suas eleições.

Tudo bem que nenhum desses problemas começa ou termina com a Copa. Reconhecer isso é um importante passo na análise. Pois nos diferencia de setores políticos que visam apenas vantagens pragmáticas a partir do processo eleitoral. Mas é inegável que a Copa aprofunda as contradições sociais e, portanto, ganha centralidade no atual período. Com a falência da garantia de direitos, a mobilização se apresenta como único caminho possível para reverter esse quadro de injustiça social, caso contrário Sergipe está prestes a receber um tradicional presente de grego.

*Alexis Pedrão é servidor estadual da educação básica e colaborador da Revista Rever.

Referências:

[1]Vídeo Greve dos Garis: http://www.youtube.com/watch?v=oEQEFEzRImA

[2]Grama do Estádio Nacional Mané Garrincha está no campo – http://www.copa2014.df.gov.br/noticias/5331-grama-do-estadio-nacional-mane-garrincha-esta-no-campo

[3]Empresa de produção de gramas de Neópolis é invadida por sem-terras – http://www.jornalneopolitano.com.br/2013/10/empresa-de-producao-de-gramas-de.html

[4]Operários da reforma do Batistão entram em greve – http://a8se.com/conteudo/91/39279/oper%C3%A1rios-da-reforma-do-batist%C3%A3o-entram-em-greve.html

[5]Encontro com secretários da Segurança Pública acontece em SE – http://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2014/02/encontro-com-secretarios-da-seguranca-publica-acontece-em-se.html

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