Entendendo a Epopéia do Cinema de Arte brasileiro

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Realizador sergipano participa de projeto pautado no financiamento coletivo, em São Paulo. Conversamos com ele para compreender a aventura de quem se arrisca a viver de arte.

*por Irlan Simões

“Para se ter noção da discrepância da proporção de produção de Aracaju para São Paulo: nos meus primeiros 6 meses, sem conhecer absolutamente ninguém, participei de doze produções de cinema. Em 9 anos de Universidade eu produzi apenas um, que foi feito inclusive com dinheiro de edital”.

O que não quer dizer que seja uma tarefa fácil. As dificuldades para quem busca trabalhar com arte atinge todos os espaços, mesmo os principais centros. Esse é o caso do sergipano Matheus Aragão, formado em Comunicação Social – Audiovisual pela Universidade Federal de Sergipe, e que no início do ano de 2012 foi se aventurar em São Paulo para estudar na Academia Internacional de Cinema (AIC), onde está concluindo o curso de Direção Cinematográfica.

Os problemas de escassez da cadeia audiovisual em Sergipe não se repetem no mercado paulista, mas os desafios – ainda imensos – são outros. Políticas públicas insuficientes, barreiras ao cinema de arte e a burocracia que desestimula o produtor independente, envolvem um cenário onde a criatividade para buscar novas fontes de financiamento são exigidas.

Aragão atualmente trabalha na produção do filme “Pequena Epopeia de Uma Certa Vida”, de autoria de Leonardo Priolli, também da AIC, com formação em Design Gráfico pela Unesp. Um projeto que aproveita a potencialidade das redes sociais e das ferramentas desenvolvidas na internet para agregar apoiadores e arrecadar fundos.

Os dois foram convidados para falar do filme e suas influências, dos desafios encarados pela equipe e também da ‘epopeia’ em fazer cinema de arte sem financiamento público, num mercado tão incerto como o cinema brasileiro.  “Um filme que não tem o apelo da exclusão social e muito menos tem uma estética trazida da televisão através de comédias românticas”, como afirma Aragão.

“Pequena Epopeia de uma Certa Vida”, de Leonardo Priolli

Leonardo Priolli e equipe, durante a gravação do vídeo de divulgação do "Pequena Epopéia de uma Certa Vida"
Leonardo Priolli e equipe, durante a gravação do vídeo de divulgação do “Pequena Epopeia de uma Certa Vida”

Antes de tratar da empreitada, é bom entender de onde surge o projeto. Seu criador, Leonardo Priolli, ficou encarregado de tratar mais diretamente das influências artisticas e do processo de elaboração do “Epopéia”. A obra tem relação direta com momentos de sua vida, e está definida como uma obra “surreal que fala de forma alegórica sobre pretensão artística e solidão”.

“Como nasci e cresci no interior do estado, não estava acostumado com todo o caos urbano e a “solidão das massas” que uma metrópole proporciona. Levei um choque e demorei muito para me adaptar. Nessa época comecei a escrever um roteiro de um homem que sonha com a própria vida, mas nascia adulto, e ficava o tempo todo dentro de um quarto”, explica Priolli.

Segundo ele, o projeto chegou a ser engavetado ainda no começo e só foi retomado quando arriscou disputar um edital de curtas, quando então foi finalizado. Àquela altura os seus dramas pessoais foram transferidos do problema de adaptação à capital paulista para o termino de um relacionamento. Questões que foram diretamente lançadas sobre o personagem central do “Pequena Epopeia de Uma Certa Vida”.

Quando perguntado sobre suas  influências, arremata: “Eu não tenho a menor ideia do estilo de cinema que almejo (risos). Gosto de experimentar estéticas e tenho vontade de fazer um filme de cada jeito,  cada um com seu estilo”. No entanto acaba revelando fontes curiosas e bem distintas que dão a entender a dimensão do projeto:  expressionismo alemão, nouvelle vague japonesa, western spaghetti… E o cinema trash!

“É engraçado pensar que muita gente que adorava esse tipo de cinema, quando vai estudar a fundo, acaba o abandonando, tendo vergonha dele. Mas eu não posso. Tenho uma divida com essa estética, foi ela um importante ponto de eu estar aqui hoje!”, explica Priolli sobre a curiosa opção.

Já sobre o filme em questão, Leonaro Priolli aponta uma influência de fora do cinema.  “No caso do Epopeia, eu cito teatro do absurdo, Becket! No caso não é uma referencia cinematográfica, apesar do enorme dialogo que tem as duas mídias. Quando tive a primeira ideia de roteiro na época eu estava lendo “Esperando Godot”, uma peça. E fiquei com vontade de fazer especificamente algo com essa estética. É algo que brinca com mínimos, mundos sem nada, onde você mesmo inventa as regras! Tem coisa melhor que isso?”.

O encontro de Aragão e Priolli se deu antes do projeto “Epopéia”. Segundo o paulista, o convite havia sido feito anteriormente, quando empreendia um projeto de nome “Espécime 53”, quando foi formado praticamente a mesma equipe com a qual trabalham agora. “Convidei pois ele gozava de uma excelente reputação como produtor de set. Como era certeza de que seria um set extremamente complicado, entrei em contato, e ele aceitou imediatamente”, explica Priolli.  Com Matheus Aragão a equipe soma 12 profissionais.

Cinema Brasileiro, políticas publicas e a ANCINE

Detalhe do storyboard do "Pequena Epopéia de uma Certa Vida"
Detalhe do storyboard do “Pequena Epopéia de uma Certa Vida”

Mesmo com formação profissional adequada e um projeto de profundidade conceitual e artística, faltou ao grupo aquele combustível que rege o mundo: verba, dinheiro, grana. Direcionadas a Matheus Aragão, algumas perguntas buscavam extrair explicações do que podia ser um empecilho para que o projeto não tivesse espaço para disputa de um edital público.

“A fundação da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) foi uma conquista histórica de todos os cineastas e dos trabalhadores de cinema do Brasil, o que é importante ser frisado. Mas ao mesmo tempo em que ela foi ganhando corpo e estrutura de uma grande agência, inclusive com muito dinheiro, ela se comporta de maneira antiquada e burocrática”, critica Matheus Aragão.

Nos últimos anos foram divulgados grandes avanços referentes ao crescimento do volume de produções cinematográficas nacionais, mas para o realizador do cinema a realidade ainda é muito complicada. A prioridade dos editais públicos segue sendo para iniciativas de fins comerciais.

“Dois exemplos de problemas relacionados à ANCINE são a retirada do CPB [Certificado de Produto Brasileiro – CPB, documento apto à comprovação da nacionalidade de obras audiovisuais não publicitárias brasileiras] de um filme e as prestações de contas inalcançáveis. Outro ponto é a seleção dos filmes através de editais: os filmes são avaliados de maneira em que aqueles que tem um potencial artístico maior são subjugados a filmes que tem um potencial de venda maior”, explica Matheus Aragão.

O sergipano acredita que o órgão está engessado e suas normas, exageradamente complexas, estão constantemente desestimulando os realizadores, ao invés de cumprir o papel de fomento à produção audiovisual.

Financiamento coletivo: uma saída e uma nova forma de relação

Equipe do "Pequena Epopeia de uma Certa Vida"
Parte da equipe do “Pequena Epopeia de uma Certa Vida”

Mesmo diante das dificuldades, Matheus Aragão confia no projeto: “Nós fazemos cinema por que amamos a nossa linguagem e temos a completa noção de que é isso que queremos fazer para o resto das nossas vidas. Apostar na realização desse projeto é apostar numa parcela do futuro cinema nacional”.

Com o que tinham em mãos – um roteiro e doze profissionais de cinema interessados – desenvolveram o projeto na perspectiva do Crowdfunding, ou Financiamento Coletivo, como forma de viabilizar financeiramente a iniciativa.

Geralmente atrelados a um site estruturado de uma plataforma que permita o registro de apoiadores, o sistema de crowdfunding ainda dá seus primeiros passos no Brasil. A grande barreira ainda é cultural: conceber a produção de bens simbólicos de forma colaborativa e não comercial, a partir da doação de  quantias não obrigatórias. Uma modalidade que requer confiança e engajamento.

Matheus Aragão explica: “Neste novo formato, todas as pessoas que acreditam e apostam numa forma de colaboração mundial, podem se tornar parceiras recebendo recompensas escolhidas através da particularidade de cada projeto. É cooperação e não filantropia”.

O “Pequena Epopeia de Uma Certa Vida” está registrado na página do Benfeitoria, iniciativa especializada em agregar projetos independentes e de financiamento coletivo na forma de colaboração.

Para colaborar basta escolher o valor que deseja contribuir, fazer um pequeno cadastro (que pode ser feito via facebook no site) e escolher a forma de pagamento em débito, crédito ou boleto. [Veja mais informações ao final da matéria].



E o Cinema Sergipano?

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Aproveitando o ensejo, fiz algumas perguntas para Matheus Aragão sobre as possibilidades de trazer essas experiências – técnicas e administrativas – para Sergipe; além de pescar algumas impressões que ele tem hoje, de fora do estado, do cenário da produção audiovisual sergipana. Eis o que segue:

“Nós temos em Sergipe um curso de cinema que não chega nem perto do que é necessário tecnicamente para a formação de produtores audiovisuais que precisam se submeter as politicas de editais, e têm muita carência técnica para executá-los pois nunca tiveram realizadores para se espelhar. As produções são escassas, apesar de muitas vezes de ter grande qualidade, mas a falta de motivação para produzir um filme com qualidade profissional e que seja visto e admirado pelo público é enorme. Já tentei agrupar pessoas envolvidas para podermos concretizar sonhos de mesa de bar para fazer um filme slasher que nunca conseguiram sair de lá.”, explica sua vivência.

Sobre a possibilidade de voltar à terra do Cacique Serigy, ele afirma: “Não tenho pretensões de voltar a morar em Aracaju por hora, pois estou engatinhando no mercado audiovisual daqui e que para poder num futuro produzir o meus próprios filmes, pagando a equipe e com um network mais sólido preciso trabalhar mais alguns anos”.

Ainda assim, deixa um recado para os locais: “Como amo Aracaju, voltarei sempre que puder para colaborar com todos os parceiros que batalham para sobreviver dessa linguagem como Vinicius Chuckro, Alessandro Cabelo, Everlane Moraes, Gabriela Caldas, Raphael Borges, Luiz Oliva entre tantos outros. Inclusive estou desenvolvendo um roteiro com o grande amigo de Universidade, Igor Andrade, para ser rodado em Porto da Folha com uma temática bem sanguinolenta. Deixaremos todos a par do processo”.

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Para colaborar com o “Pequena Epopeia de uma Certa Vida”

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Para colaborar com o projeto basta acessar a página http://benfeitoria.com/pequenaepopeia , se cadastrar e colaborar com a quantia desejada. Caso tenha lhe interessado, faça até o dia 31/05, quando termina a campanha de doação.

Para entender o Benfeitoria.com

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