A passagem de um Ogã das arquibancadas

oogã

“Entre os diversos Ogãs do Barradão, ele tinha um cargo singular, pois era seguido por um batalhão de jovens, a maioria das mesmas periferias a que saíra. Menino de Mussurunga, Lucas era o membro mais conhecido de uma família fanática”

*por Pedro Caribé



Ao ultrapassar os portões do Barradão símbolos lhe mediam com o ritual de um santuário. Um desses conectores era Lucas “Chapolin” Silva, assassinado no último dia 25 de abril. Ele tinha o dom e conhecimento para intensificar a relação das almas presentes à essa transcendência.

Puxador da maior organizada do estádio, começava seus trabalhos esquentando a percussão acompanhada com batida na palma das mãos, e evocava o cântico que ligava os velhos com os novos: “Nêgoooo, Nêgoooo”.

Por anos me guiei pelos gestos de Lucas. Entre os diversos Ogãs do Barradão, ele tinha um cargo singular, pois era seguido por um batalhão de jovens, a maioria das mesmas periferias a que saíra. Menino de Mussurunga, Lucas era o membro mais conhecido de uma família fanática.

Carregava na sua classe e cor o preconceito das antigas elites que tentam voltar a hegemonizar os estádios, principalmente aquelas que estão nos camarotes ao lado das diretorias dos clubes e federações.

Na adolescência até integrei as fileiras no nascedouro da Torcida Uniformizada Os Imbatíveis (TUI). Carregava bandeiras, registrei e doei as fotos da primeira vez que o bandeirão foi erguido em 1999.

Nunca fui muito próximo de Lucas, mais ainda ao se distanciar do cotidiano da organizada. Preferi mesmo assistir aos jogos ao lado de meu pai com mais contemplação e segurança.

Ainda assim, mantive por muito tempo admiração pela TUI e por Lucas. A TUI começou balizada pela independência com a diretoria, numa época que falar de igualdade no futebol era mais distante. Na década de 1990 o Vitória era provavelmente o “emergente” mais promissor do futebol nacional.

Porém, Lucas e a TUI contribuíram para nos tornarmos mais aguerridos na inconstância dos últimos anos. Alguns times até inferiores foram imbuídos da garra que emana das arquibancadas, e até um dos presidentes mais fortes de uma centenária história foi deposto.

Na última sexta-feira um dia após ver seu time ser eliminado pelo modesto J. Malucelli na Copa do Brasil, Lucas foi assassinado sob características de execução no local a que tocava seu singelo e honesto negócio no Centro de Salvador.

Não foi publicizada nenhuma prova cabal que associe o homicídio ao futebol, e até a principal organizada do time rival soltou notar de pesar. Mas se for confirmada a suspeita que paira no ar, será a primeira vez que meu mundo futebolístico se relaciona com a violência da forma mais crua possível.

O rosto de Lucas era familiar aos que frequentam o gol que “dá para a orla”. É fato que não era difícil ver o seu sorriso, e os mais próximos dizem que ele era um brincalhão ao que tornava pertinente o apelido “Chapolin”.

Mas sua passagem para Olorun é doída. Além das circunstâncias da morte, o último clássico a que presenciou foi de comemoração de título do rival, e neste domingo devia estar transitando pelas arquibancadas de Pituaçu ao ver o time permitir um empate com sabor de derrota.

Desejo que o encontro de Lucas com o mundo dos Deuses seja um encontro com a paz, e que essa possa ser repassada para seus irmãos que continuam no mundo dos vivos. Desejo que possa repassar aos demais que não existem reis e déspotas dentro de um clube.

Por anos esperei que Lucas puxasse algum grito por mais democracia no nosso querido Vitória. Desejei que ele buscasse o tratamento igualitário no dia a dia o clube para seus jovens e negros seguidores das periferias que cercam o Manoel Barradas.

Eles que tornam o espetáculo transcendente. Ligam o futebol ao mundo dos Deuses. Também são eles que vão morrer nas ruas com mais violência. Ou terão seus rituais tragados pela tal modernização das arquibancadas.

*Pedro Caribé é jornalista e colabora com a REVER de Salvador

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