Operação Cajueiro: a tortura ditatorial em Sergipe

Foto: Fernando Correia
Foto: Fernando Correia

Para rememorar este episódio da história, três diretores sergipanos se juntaram para fazer um documentário que remonta a partir de fontes pessoais, jornais e arquivos públicos, a face mais devastadora da ditadura civil e militar em Sergipe.

*Por Geilson Gomes

Em 1976, o Brasil estava sob a égide do regime ditatorial civil e militar. Este período, governado pelo General Ernesto Geisel, foi marcado pelo processo de distensão lenta e gradual da ditadura, que começava com um projeto liberal “democratizante”, com a suspensão parcial da censura à imprensa e a revogação, aos poucos, dos métodos de coerção e tortura, que feriam as liberdades públicas e os direitos sociais e individuais.

Contudo, antes do carnaval de 76, em Aracaju, paradoxalmente, aconteceu um fato que contrapôs esta hipócrita decisão dos militares. Foi a Operação Cajueiro, que culminou na prisão e tortura de mais de 60 pessoas e representou o momento mais autoritário e perverso da ditadura em Sergipe. Antes disso, nenhuma ação militar no estado tinha chegado perto desta operação em relação ao uso violência das forças armadas.

Para rememorar este episódio da história, três diretores sergipanos se juntaram para fazer um documentário que remonta a partir de fontes pessoais, jornais e arquivos públicos, a face mais devastadora do regime ditador. O nome do curta é: ‘Operação Cajueiro: Um carnaval de torturas’, dirigido por Vaneide Dias, Fábio Rogério e Werden Tavares e lançado na última quinta-feira, 24, no Teatro Atheneu, na cerimônia de apresentação dos filmes contemplados pelo segundo edital para curta metragem do governo de Sergipe.

De acordo com Vaneide, os presos na operação eram líderes políticos. “Eram líderes do movimento sindical e estudantil. Os líderes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) também foram presos e torturados. Isso demonstra que a operação queria desmontar uma possível vanguarda que se organizava contra o regime, seja ela de perfil mais democrática ou de perfil mais comunista”, revela.

Ademais, Vaneide conta que o curta retrata uma das operações mais violentas da ditadura. “Foi uma operação que usou de um arcabouço muito grande da inteligência militar, com espionagens e fotografias. O PCB era clandestino e seus militantes faziam reuniões de núcleo com vendas para não ocorrer delatações, e mesmo assim os militares conseguiram. Ela chama atenção pelo nível de violência sistematizada e deliberada”.

“A gente não conseguiu retratar e aprofundar neste documentário, mas veio um pelotão militar da Bahia para cá antes da operação. Ela era especializada em prática de interrogatório e tortura. O comandante do 28o BC daqui se negou porque ele sabia o que significava a vinda do pelotão para Sergipe. O comandante foi deposto e todos soldados rasos foram liberados do 28o BC com o argumento de que havia faltado água no batalhão. Presos que lembram deste episódio afirmam que escutaram os militares dizendo que eram da Operação Deso, como sendo uma senha para entrar na garagem do 28o BC”, acrescenta a diretora.

Sobre a produção e exibição do curta, Fábio Rogério coloca a importância dos incentivos públicos para o audiovisual sergipano. “Ver o teatro cheio é interessante porque sempre assistimos os outros na tela e não nós. No lançamento dos curtas contemplados pelo edital do estado, as pessoas estavam assistindo as nossas caras e nossas histórias. Isso é bom para quem faz e para quem assiste”.

“O cenário do audiovisual em Sergipe ainda é incipiente. As produções ainda continuam sendo por conta própria e os incentivos, como os editais, são escassos. Desde o antigo Clube de Cinema de Sergipe que se faz curta-metragem no estado e até então não temos um cenário forte. Temos o Núcleo de Produção Orlando Vieira que hoje é um elefante branco. Este foi o segundo edital do governo estadual e não há previsão que vai ter outro no próximo ano porque a política para o audiovisual não virou um projeto de estado”, argumenta Fábio.

Um dos objetivos do curta, conforme os diretores, é revelar uma parte da história para que ela nunca mais aconteça. Vaneide aborda que há um documento claro do 28o BC respondendo que desconhece qualquer tipo de informação da Operação Cajueiro. “Aqui em Sergipe, a priori, houve uma tentativa de negar e esconder o que ocorreu. Em outros quartéis a Comissão da Verdade chega a entrar e ter acesso. Os documentos oficiais jurídicos históricos comprovam o que não dá pra negar”, explica.

Vaneide ainda coloca que o tema sobre a Comissão da Verdade entra no final do curta. “Tem uma fala do Milton Coelho no documentário no qual ele aborda que a intenção da Comissão não é fuzilar ninguém, mas que as pessoas responsáveis se apresentem e sejam interpeladas pela justiça para prestarem seus depoimentos. Só o fato de estar discutindo uma operação no período ditatorial e todo o desconhecimento que se tem do fato já demonstra esta necessidade. A pergunta é: por que aqui no estado este enfrentamento é tão difícil? Sabemos que muitas pessoas continuam nos cargos executivos, como o prefeito biônico. Além das famílias ricas que dirigiam os governadores da época e que estão na política até hoje”.

Rogério complementa que o curta dá umas indiretas sobre esta dificuldade de encontrar informações. “Mesmo passados 30 anos que acabou a ditadura ainda há um silêncio e não há um aprofundamento do assunto porque é muito difícil falar sobre a operação. Se a gente não rever de forma mais contundente o que foi a ditadura militar, pode ser que aconteça qualquer outra coisa pela frente”, finaliza.

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