Fabiana Macenas: é de um projeto de higienismo que estamos falando

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Em um shopping carioca, uma mulher negra é obrigada a provar que não sequestrou o próprio filho

 

*Priscila Viana

 

Em qualquer roda de mães, não há aquela que não tenha reclamações, dores, dilemas ou constrangimentos a relatar durante o exercício de sua maternidade. Uma pode reclamar que não dorme mais, outra pode citar o chefe que a persegue pelos dias que ela falta no trabalho pra cuidar do filho doente, outra pode reclamar ainda do marido, que não ajuda como poderia no cuidado com o filho e tem aquelas que colocam no centro os problemas de convivência com a família e as discordâncias quanto à criação da criança.

Mas, de todas elas, a mulher negra é a única com a infeliz propriedade de levantar o dedo pra falar sobre um constrangimento que só ela sofre no Brasil: o de ter sua maternidade questionada e inquirida. Nenhuma mulher além dela sabe o que é ouvir: “quem é a mãe dele?” ou “você é a babá, né?”. Mais doloroso ainda, só ela sabe o que é ser acusada de sequestro – de seu próprio filho.

O caso mais recente aconteceu no Shopping Recreio, no Rio de Janeiro, no dia 11 de abril, quando a dona de casa Fabiana Amaral Macenas, de 32 anos, esperava seu marido (Genivaldo) terminar de pintar uma das lojas do centro de compras – com o filho de 1 ano e 4 meses no braço. De repente, Fabiana foi abordada por um policial militar, que cobrava documentos capazes de comprovar que aquele menino era filho dela – não por coincidência, a pele da criança é mais clara que a de Fabiana. Segundo a reportagem da Rádio Globo, “O PM havia recebido a denúncia de uma dentista que trabalha no estabelecimento comercial. De acordo com informações passadas ao telefone 190, Fabiana estava em atitude suspeita e poderia ter sequestrado a criança.”

Alguns pontos chamam a atenção nesse caso:

1 – O shopping não é lugar para negros, seja em rolezinhos, seja com sua família. O fenômeno dos rolezinhos carimbou na história do Brasil um episódio que representa uma das maiores heranças de uma nação escravocrata – a necessidade de segregação dos espaços de convivência social. Há lugar pra rico e lugar pra pobre, lugar pra branco e lugar pra negro. Famílias burguesas cariocas “preocupadas com a violência”, vêm cobrando veementemente da prefeitura do Rio de Janeiro a mudança de rota de ônibus que passam, ao mesmo tempo, pelas favelas e pelos bairros nobres. São famílias que não podem se misturar com os “pretos, favelados, funkeiros, empregados” e todos os adjetivos usados de forma escrachada pra (des)qualificar os que eles consideram inferiores a eles, “indignos de frequentar ambientes familiares”, “não-civilizados”. E, o que acontece quando eles ousam frequentar um centro de compras indiscutivelmente construído para o consumo da elite? São expulsos.

2 – Fabiana estava em atitude suspeita. Segundo informações da dentista que denunciou Fabiana, ela estaria em “atitude suspeita”. “Enquanto aguardava o marido, a mulher circulou pelo estabelecimento, comprou um biscoito num mercado e até amamentou a criança“. O que se costuma fazer num shopping além de passear, fazer compras, circular pelo estabelecimento e, com uma criança no colo, amamentá-la? Vamos perguntar à mãe do Pedrinho se, quando ela sequestrou o menino da maternidade, ela decidiu passear com ele no shopping e ‘circular pelo estabelecimento’, comendo biscoito? Que mulher sequestra uma criança e vai passar o dia todo passeando no shopping? Se essa é realmente uma atitude suspeita, quantas mães iremos abordar de maneira militar, a partir de agora, entre aquelas que estão passando o tempo livre no shopping com seus filhos? Se forem brancas e burguesas, nenhuma.

 3 – O policial intimou Fabiana a provar sua maternidade através de documentação. Que mãe anda com a certidão de nascimento de seu filho na bolsa? A não ser que estejamos levando nosso filho ao consultório médico (caso que realmente necessita de documentação), agora vamos incluir a certidão de nascimento de nossos filhos como documentos essenciais pra levar na bolsa, por quê a qualquer momento um policial militar vai me abordar e pedir para que eu prove ser a mãe de meu filho?

4 – Quem denunciou a ‘atitude suspeita’ de Fabiana foi uma dentista não identificada. É claro que não dá para generalizar para toda uma categoria profissional uma conduta individual. Mas é incontestável que é a categoria médica a grande idealizadora do histórico projeto eugenista e higienista implementado no Brasil desde o século passado. No início do século XX, quanto mais trabalhadores eram explorados e aglomerados em moradias insalubres, o movimento higienista se preocupava em evitar a

“[…] proliferação de cortiços e favelas, focos de desordem e reservatório de vetores de doenças infecciosas, aglomeração de maltrapilhos nas ruas à espera de trabalho, surtos epidêmicos que dizimavam a população de recém-chegados […] para ‘depurar as veias da mestiçagem primitiva’, como afirmava Ruy Barbosa” (Resende, 1987, p. 42).

 Mais ainda,

 “O discurso médico-higiênico acompanhou o início do processo de transformação política e econômica da sociedade brasileira em uma economia urbano-comercial e expressou o pensamento de uma parte da elite dominante que queria modernizar o país.” (Mansanera & Silva, 2000, p. 117).

 Estamos falando de atitudes que na verdade são herança desse projeto eugenista e higienista e não é coincidência que a mulher que tenha denunciado a “atitude suspeita” seja uma dentista. Não estamos falando de exceções. Estamos falando de um projeto de limpeza segundo o qual aquele que não faz parte da elite, que é negro ou ‘miscigenado’, deve saber o lugar “que lhe cabe”. Não deve estar “zanzando” ou “circulando” nos centros de compra e lazer da burguesia sem necessariamente ter condições financeiras (ou julgado assim como tal) e/ou esteja vestido conforme se apresenta a elite para se distinguir. A este, cabe-lhe saber que ali não é o seu lugar.

 E também não foi à toa que foi um policial militar o responsável pela abordagem. A mesma polícia militar que tem executado um projeto de limpeza muito claro nas comunidades do Rio de Janeiro e em outras periferias pelo Brasil – creio que não precisamos lembrar os casos de AmarildoCláudia da Silva e, mais recentemente, o do dançarino DG, no Pavão-Pavãozinho. É desse projeto que estamos falando e não é à toa que o nome, tanto da dentista, quanto do policial, responsáveis pela cena de humilhação e agressão psicológica, não foram divulgados. São nomes que, segundo esse projeto, devem se manter no anonimato, porque anonimato é proteção. Do mesmo jeito que se mantêm no anonimato os responsáveis pelas torturas que banharam o regime militar no Brasil. Estão todos protegidos, para “manter a ordem”.

 E que fique claro: não estamos falando de casos isolados e nem de exceções. Estamos falando de um projeto de higienismo. Estamos falando de limpeza social.

 

*Priscila Viana é mãe, jornalista e mestranda em Antropologia Social.

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Fontes:

Mansanera, Adriano Rodrigues & Silva, Lúcia Cecília da. A influência das idéias higienistas no desenvolvimento da psicologia no Brasil. Revista Psicologia em Estudo DPI/CCH/UEM, v. 5, n. 1, p. 115-137 2000.

Resende, H. (1987). Política de saúde mental no Brasil: uma visão histórica. Tunds, S.A. & Costa, N. Rosário.Cidadania e loucura: políticas de saúde mental no Brasil. Petrópolis: Vozes.

 

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