As sensações perante o moderno e o “ultrapassado”

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“Por mais que se tenha a possibilidade de acessar arquivos, o evento esportivo é único justamente porque ele necessita do ao vivo”

*Por Anderson Santos

Na semana passada o Jornal Hoje exibiu uma série de reportagens sobre a presença da tecnologia no futebol, a partir de três aspectos: o uniforme, a modernização dos estádios e a transmissão televisiva. É claro que as reportagens do Abel Neto serviram para enaltecer todo o processo, não mostrando possíveis opiniões contrárias.

Mas não é sobre esta série a que me dedico neste texto. Curiosamente, a reportagem (ver aqui http://migre.me/iOzoX) que tratou das mudanças nos estádios usou como exemplos dois marcos do futebol mundial, o Maracanã e o Centenário, que eu costumo utilizar como exemplo da diferença que é ver um jogo nas tais novas arenas.

Pude ir aos respectivos estádios em 2012 e em 2013, nunca estando no Maracanã antes desta última reforma. Recordo que pequenas mudanças foram realizadas antes no Mário Filho, especialmente para o Mundial de Clubes da FIFA de 2000 e para os Jogos Pan-Americanos de 2007 – gastando milhões de reais já nestes processos, prevendo-se mais gastos para as Olimpíadas daqui a dois anos.

Mas fui antes ao Centenário. Quando percebi que estaria em Montevidéu por conta de um evento científico, uma das minhas principais preocupações foi a de saber chegar ao estádio. Em maio de 2012, fazia a minha primeira viagem internacional e encontrava uma cidade que parece carregar o saudosismo por seus melhores tempos em sua aparência.

Fui visitar o estádio na manhã de uma sexta-feira cuja chuva se avizinhava. Situado num parque, com imagens da Coca-Cola em si, mas com a imponência que tanto imaginava quando o via na TV ou em revistas. Dentro, um museu simples, com várias recordações brasileiras. Claro que muitas da Copa de 1950, mas com um bom retrospecto de disputas e vitórias do Uruguai. A história de como um esporte faz um país com pouco mais de 3 milhões de habitantes pudesse ser bastante reconhecido mundialmente. Um museu simples, mas organizado.

A real sensação de estar no Centenário veio com a entrada na parte que dá acesso às arquibancadas, setor onde fica aquela gigante torre (Torre de los Homenajes). Fui subindo degrau por degrau, imaginando e sentido toda aquela aura (Benjamin que me desculpe) dos momentos iniciais. Rememorando que aquela construção surgira para comemorar o centenário do país com a primeira edição do que viria a se tornar o maior evento do mundo.

Subi até o último degrau possível e parei. Arquibancadas de concreto, misturadas a cadeiras na parte de baixo, à altura do gramado. Em cima, no primeiro ou último degrau, dependendo do ponto de vista, sentia-me vendo Uruguai e Argentina duelarem na primeira final de Copa do Mundo FIFA. Foi ali, sem dúvida alguma.

Em setembro do ano passado, mesmo passando em frente às obras do estádio nas viagens anteriores ao Rio de Janeiro, pude adentrar no Estádio Jornalista Mário Filho. Neste caso, algo ainda mais especial, já que assistiria a uma partida. Sentiria, ou não, o velho Maraca pulsar.

Quando passei pela entrada B, se não me engano – aquela que fique em frente à UERJ – e subi pela rampa, a história veio à minha memória. “Eu estou no Maracanã”. “Eu estou no Maracanã”. Quem é fascinado por futebol sabe ou deve imaginar o que isso significa. Além disso, eu sou fascinado pelo mundial de 1950. Se pudesse voltar um momento ao passado seria naquela tarde de 16 de julho de 1950. O tal do “silêncio de mais de 200 mil pessoas” que nenhum meio de comunicação foi capaz de registrar e que, imagino, caso tivesse transmissão completa da partida, seria difícil causar a real experiência de quem esteve ali.

Por mais que se tenha a possibilidade de acessar arquivos, o evento esportivo é único justamente porque ele necessita do ao vivo. Saber o que aconteceu tira um pouco, uma importante parte das sensações imediatas, das reações racionais ou irracionais que se têm de acordo com o envolvimento com o que se vê. Não descarto, é claro, como a minha sensação no Centenário comprova, que há outras memórias a serem resgatadas, e que a emoção volte sempre quando se vê, por exemplo, imagens de partidas marcantes para nossos clubes e seleções de adoração.

Entrando no estádio, ainda que do lado de (várias) organizadas diferentes do clube local, com ritos tradicionais misturados a apropriações de uma música de Sidney Magal e da Coca-Cola – olha ela aqui também – tudo era muito novo. Nunca estive numa dessas arenas, nesses novos estádios.

Mesmo que ainda estivesse no Rio Grande do Sul quando dos primeiros jogos da Arena do Grêmio, não fui para lá. Vi alguns jogos no Olímpico, um no Beira-Rio em reformas, mas a minha alegria era ir para as canchas de interior. Pequenas, algumas até mal estruturadas, mas com o “futebol de antigamente pulsando” em jogos de níveis menores.

No Maraca, cadeiras confortáveis e de diferentes cores, reclamação e quase briga cadeiras ao lado quando alguém ficou em pé – isso perdurará enquanto o torcedor achar melhor sentar no degrau da escada ou, por nervosismo, ficar de pé –, um olhar no resto do estádio por várias vezes, até mesmo para tentar reconhecer algo, e perceber que aquilo era tão diferente, tão novo. Não senti estar num patrimônio histórico cultural futebolístico.

Poderia ser no Rio de Janeiro, em Londres, em Berlim, ou em qualquer outra parte do mundo. Excluindo o modo de torcer brasileiro e a fachada tombada, aquilo não me fez lembrar em momento algum que uma final de Copa do Mundo FIFA havia sido disputada ali há tanto tempo. Que vários e vários jogos clássicos, mesmo os que eu já acompanhei pela TV, foram ali. Tudo era novo.

Por mais saudosista que eu possa parecer, realmente não me veria exprimido com mais de 200 mil pessoas num mesmo espaço. Nem reclamo que as melhorias estruturais devam vir, mesmo que a modernidade cobre o seu preço para mais tranquilidade e conforto – ainda que discorde de preços aviltantes em jogos que o produto a ser visto não vale tanto. Mas conhecia ali o “novo Maracanã”, com grande arrependimento de não ter tido a possibilidade de sentir, como no Centenário, o futebol de antes. Aquele que não vivi, mas podia absorver enquanto apaixonado por este esporte desde tenra idade ou, como costumo dizer, que deve estar inscrito no meu DNA.

Anderson Santos é Jornalista e mestre em Ciências da Comunicação, um apaixonado pesquisador de futebol.

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