Abelhas em fúria: o transporte público de Salvador e a mentalidade de colonizador

rodoviarios salvadorRevolta da base dos rodoviários e reordenamento da mobilidade urbana excludente e elitista colocam a questão do transporte público, novamente, na ordem do dia 

*Diogo de Oliveira

 

Diversas problemáticas se expuseram nos últimos meses em torno de um mesmo tema: o transporte coletivo de Salvador. A centralidade do transporte urbano foi intensificada com estratégias de regularização do fluxo de pessoas, ao passo que trabalhadores da base foram lançados numa disputa que, de antemão, tem pouco haver com eles.

Por outro lado uma lógica colonialista é lançada mão, numa situação em que mecanismos do Estado são utilizados em disputas eleitoreiras entre grupos adversários no governo e na prefeitura. Sob todos esses aspectos está a população preta e periférica.

Entre os dias 04, 08, 11 e 17 deste mês o Sindicato dos Empresários de Salvador (SETPS), a Prefeitura Municipal de Salvador (PMS) e o Sindicato dos Rodoviários de Salvador entraram em disputa impulsionada pela base dos trabalhadores, que usou da ação direta para pressionar os representantes da categoria. No dia 4 de maio, motoristas e rodoviários paralisaram a Estação Pirajá, onde circulam cerca de 100 mil pessoas por dia, reivindicando o pagamento do deslocamento entre casa-serviço. O sindicato trabalhista falou à imprensa que não apoiava a paralisação porque achava a pauta inconsistente.

As manifestações voltaram a acontecer no dia 08, na Estação Mussurunga e no dia 09, no final de linha do bairro da Ribeira. Apenas no dia 11 de maio uma assembleia da categoria é convocada. As pautas divulgadas giraram em torno da insatisfação da base em relação às condições de trabalho.

A direção sindical apresentou como pauta o repasse das horas trabalhadas no Carnaval 2014 e a campanha do sindicato em 2014, na paralisação do dia 11.  O foco inicial da base é desviado pela organização e direcionada para o pontual cachê do Carnaval. O jornal A Tarde registrou a fala do líder do Sindicato dos Rodoviários da Bahia, Daniel Motta, quando disse: “O prefeito como gestor tem que chamar a responsabilidade para ele e pagar essa gratificação. Essa documentação nunca foi exigida. A prefeitura tem que repassar o dinheiro para os empresários e eles depositam na nossa conta. A bola está com o prefeito e empresários”.

A gerência do transporte público esqueceu os condutores de ônibus

Os trabalhadores e trabalhadoras do transporte público em Salvador se tornaram mais resistentes (diga-se que resistência é uma força, uma linha de contra-poder) na medida em que o trânsito e a circulação de pessoas no município se tornaram estratégicos no ordenamento do fluxo de pessoas entre periferia e centro e orla.

Duas mudanças na gerencia do trânsito aconteceram na cidade: o bilhete único de passagem e a reorganização das linhas de ônibus. Uma nova realidade que trás um clássico questionamento: Todo ‘busu’ tem um pouco de navio negreiro?

Uma olhada no mapa de reorganização das linhas de ônibus mostra a forma oval (quase-circular) do trajeto dos ônibus em Salvador, esquematizado como ‘A’, ‘B’, ‘C’ e ‘D’. A integração na reorganização dos fluxos de usuários apresenta o ponto ‘D’, que se refere aos bairros centrais, como ponto de intersecção de quem sai das periferias. Chama-se Mapa de Integração de Linhas de Ônibus:

mapa_cidade

Em artigo para a REVER no início do ano, Manoel Nascimento e Daniel Caribé indicavam o que vinha um pouco abaixo da ponta do iceberg da “reforma” do transporte publico em Salvador. “Quem quer que analise a divisão territorial da cidade feita pela Prefeitura para a licitação perceberá que as áreas de atuação apresentadas na minuta de edital é quase igual à distribuição das garagens dos dois principais grupos empresariais do setor na cidade”. O mesmo artigo traz mais elementos sobre a nova lógica de mobilidade urbana implementada pela gestão de ACM Neto.

Nesta mentalidade de colonizador, os corpos pretos só precisam ter acesso aos postos de trabalho e, talvez, defender a cidade em caso de ataque marítimo (vide proximidade com o Farol da Barra) ou evacuar a cidade (que é o que se espera desde 1808). Além de induzir e reforçar a centralidade de bairros nobres onde a circulação de cultura e econômica é mais gerenciada pelo Poder Público.

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