A melancolia de Maria Rita Khel e os limites da ‘Comissão da Verdade’

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“Uma comissão, que por mais que se fale e se queira, fará muito pouco ou quase nada. Não tem poder algum, a não ser de convocar para depor e só. Pesquisa, investiga, analisa documentos, dá entrevistas e para por aí”

 

*por Romero Venâncio

 

  Começo afirmando que a palavra “melancolia” aqui neste breve texto tem conotação simples: tristeza diante de alguma situação que nos deixa impotentes para agirmos. E só. Não se trata de doença ou coisa do gênero. Não tenho intimidade com a pessoa citada no titulo. No programa “Diálogos” da Globo News dirigido pelo jornalista Mario Sergio Conti da última semana de abril, a psicanalista e jornalista Maria Rita Kehl foi a entrevistada e a pauta, óbvia, a “Comissão da Verdade”. A distinta faz parte desta comissão e tem tido um papel de grande importância [A entrevista está disponível na íntegra no site da Globo News].

   Percebi no olhar e nas repostas da entrevistada certo tom “melancólico” diante das perguntas e das tímidas respostas que se obrigava a dar. Talvez muitas pessoas que viram a entrevista, não perceberam. Noto isto e chamo a atenção por conta do contexto triste em que acontecem os trabalhos da Comissão da Verdade. O problema está no caráter da Comissão e por esta completamente amarrada a uma lei de anistia elaborada e aprovada pelos militares ainda no plantão do poder governamental e mandado com um “tacão de ferro” (para usar uma expressão de Jack London).

   Minha referência intelectual hoje nas reflexões sobre a ditadura civil-militar de 1964 é o livro-coletânea que recomendo ardorosamente: “O QUE RESTA DA DITADURA” (Org. Edson Teles e Vladimir Safatle. Editora Boitempo). São 16 ensaios distribuídos em três capítulos: “A exceção jurídica”; “O preço de uma reconciliação extorquida” e “A política do bloqueio, o bloqueio da politica”.

   Logo de inicio temos o texto de Paulo Ribeiro da Cunha, intitulado: “Militares e anistia no Brasil: um dueto desarmônico”. A tese do autor é clara: tivemos 48 anistias entre 1889 a 1979 e “a totalidade delas norteadas pela categoria conciliação”. Nesta frase fica explícito o significado de uma “Comissão da Verdade” num horizonte destes. No fundo, a Comissão foi criada por “desencargo de consciência” de Lula e Dilma e por um PT acuado e reconciliado com seus aliados (alguns destes governistas de hoje, notórios militantes da ditadura e bajuladores dos militares).

  Uma comissão, que por mais que se fale e se queira, fará muito pouco ou quase nada. Porque o que tem a fazer, legalmente, é muito pouco. Não tem poder algum, a não ser de convocar para depor e só. Pesquisa, investiga, analisa documentos, dá entrevistas e para por aí. Para piorar a situação, os méritos da Comissão da Verdade não fazem parte das preocupações da maioria pobre dos brasileiros e brasileiras.

  Na luta do dia a dia para ganhar o pão, a moradia e o emprego (quando consegui numa conjuntura massacrante para os mais pobres), o direito a memória e as denúncias de tortura não é prioridade popular. Chegamos a esta situação: sem pressão popular e sem apoio intelectual que faz opinião, a Comissão da Verdade vira uma espécie de “vaca de presépio” no jogo político atual. Não faz a menor falta ou não desperta a menor interessa deste congresso atual. Ainda sofre ataques de coisas abjetas como revista Veja – e seus direitistas cães de guarda de plantão – para fazer o jogo de cena necessária para aliviar a consciência de uma classe média branca e idiota na quadra atual.

  Agora fica mais claro a “melancolia” de Maria Rita Kehl. Vindo de uma esquerda que viveu na sua juventude os horrores da ditadura e adulta e intelectualizada durante a redemocratização de Sarney, Maria Rita assistiu um desdobrar-se da história recente do Brasil fazendo fumaça da história dos de baixo e dos jogos políticos para evitar o trauma da memória.

  No próprio livro citado aqui, o artigo da psicanalista é sintomaticamente intitulado: “Tortura e sintoma social”. Numa frase lapidar e que esclarece tudo em síntese do queríamos dizer aqui: “Fruto dos abusos que aparentemente “perdoamos” sem exigir que opressores e agressores pedissem perdão e reparassem danos causados, o ressentimento instalou-se na sociedade brasileira como forma de “revolta passiva” (Bourdieu) ou “vingança adiada” (Nietzsche), ao sinalizar uma covarde cumplicidade dos ofendidos e oprimidos com seus ofensores/opressores” (p.123).

  Precisaria mais para explicar a “melancolia” de Maria Rita? Melancolia esta que também é minha e de milhares de militantes e intelectuais e gente de boa vontade perplexa com a atual situação de impunidade para torturadores e punição cotidiana para os pobres. Triste situação a que chegamos com uma suposta “esquerda” no governo de plantão.

 

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

 

 

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