Barbárie e Impotência: notas sobre os justiceiros do Guarujá

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“É como se estivéssemos diante de uma “situação traumática” e ficássemos paralisados, impotentes. O fato torna-se (e é de fato) tão brutal e tão estúpido, que não temos o que fazer enquanto cidadão. Mas, como humano, aquilo nos toca, nos provoca e nos faz dizer algo em solidariedade a vitima”

*por Romero Venancio

  Impossível ficar neutro ou frio diante das fotos veiculadas pelas mídias sociais nestes primeiros dias de maio. Trata-se das fotos de Fabiane Maria de Jesus, espancada por “justiceiros” quase até a morte no Guarujá em São Paulo (ela morreu no hospital poucas horas depois e por ai, temos a dimensão do grau de espancamento que sofreu esta mulher!). Consegui ver duas fotos e não mais. Nem o vídeo que está exposto para quem quiser ver tive mais coragem de abrir. Um horror e uma impotência tomou conta da minha “alma”.

  Sei que esta história de “justiceiros” surgiu recentemente na mídia, logo após uma jornalista das mais idiotas deste país, chamada Rachel Sheherazade, comentar e apoiar abertamente um fato no Rio de Janeiro, em que um rapaz negro foi sido amarrado num poste e espancado. Como em cadeia veio a motivação para mais pessoas o ato de “fazer justiça com as próprias mãos”, sendo apoiada por uma série de pessoas da laia dela nas várias mídias sociais (inclusive num grupo de pessoas que fazem o curso de filosofia, vi e li coisas de alguns participantes em apoio, atacando quem criticava a jornalista da Casa Grande).

 Os apoios eram “argumentados” de diversas maneiras e no mais rasteiro moralismo: “contra o governo de plantão, adote um marginal”; contra as greves, um País sem ordem, os bandidos estão dominando tudo, etc… O que se seguiu, foram os primeiros casos de pessoas amarradas em poste e sendo espancada até a morte.

  Não quero aqui subestimar e nem superestimar o papel da jornalista. Ela teve culpa no episódio e foi citada por parlamentares de esquerda que pressionaram a empresa onde ela trabalha e na justiça para assumisse sua responsabilidade (ou a irresponsabilidade naquilo que diz e incentiva. E não se trata de censura ou coisa que o valha!). Percebo que a questão é mais profunda e não podemos nos resumir a culpar apenas uma jornalista estúpida de plantão e faz seu papel de “cão de guarda” de uma feroz classe dominante deste Brasil.

 Jornalistas que se prestam a este papel temos muitos e em todos os Estados. Assim como temos, também, jornalistas que não fazem este triste papel e sabem de seu papel social crítico no mesmo Brasil. Não acho que a situação se resuma apenas a uma situação jornalística e muito menos a uma pessoa…

  Leio neste momento e por razões de trabalho, o livro de ensaios de Jaime Ginzburg intitulado: “Crítica em tempos de violência” publicados pela editora Perspectiva em 2012. Trata-se de uma série de artigos publicados em ocasião diversa e sem uma sequência exata em termos de data e edição. Pode ser lido sem nenhuma ordem em particular.

 Um me chamou muito a atenção e tem algumas coisas em comum com esta triste acontecimento da mulher amarrada e espancada em São Paulo. O titulo: “Literatura brasileira: autoritarismo, violência, melancolia”. Especificamente, o artigo resenha e vai bem além do livro de Moacyr Scliar: “Saturno nos trópicos”. O que mais me chamou a atenção não foi o comentário do crítico à obra do escritor citado, mas, o destaque que nos alerta para a presença da violência e ao mesmo tempo a impotência melancólica diante dela de boa parte da população.

 É como se estivéssemos diante de uma “situação traumática” e ficássemos paralisados, impotentes. O fato torna-se (e é de fato) tão brutal e tão estúpido, que não temos o que fazer enquanto cidadão. Mas, como humano, aquilo nos toca, nos provoca e nos faz dizer algo em solidariedade a vitima. Numa definição do autor: “O trauma é frequentemente definido como uma situação de excesso, em que o sujeito não esta preparado para a assimilação de um estímulo externo” (p.175). Confesso: senti-me exatamente nesta situação diante das fotos que vi na internet daquela pobre mulher após o espancamento e de saber da sua morte logo após…

 Fiquei sem ação ou na revolta íntima de dizer apenas algumas palavras. Mas bem sei que estas palavras não mudam nada e em nada vai influenciar o curso de um País que culturalmente cultua (perdão pela tautologia cacofônica!) a violência, a banalidade, a irrelevância e falta de solidariedade com os mais pobres ou com as vitimas. Os próprios meios de comunicação acabam sendo a prova disto que afirmo. É daqui que vem a impotência diante da Barbárie instalada sorrateiramente por uma cultura da violência e da irrelevância da crítica.

 Nós “pobres mortais”, até falamos muito sobre o assunto, mas podemos fazer tão pouco ou nada (o que é ainda pior). A isto, defino como impotência diante do trauma. Penso em como poderia me solidarizar com a família de Fabiane Maria de Jesus que foi assassinada barbaramente por “justiceiros” e por uma cultura que teima em matar mais gente como ela: pobre, indefesa, frágil e “desnecessária” para lógica da política de plantão praticada pelos oficiais de sempre e de tanto tempo. Mas fico só no pensamento, por não ter a resposta e as condições de fato de fazer alguma coisa… Nem o “sentimento do mundo” como dizia Drummond acho que tenho.

 

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

 

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