‘Cinema Pela Verdade’: o audiovisual a serviço da memória

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No ano em que o Golpe Militar ‘comemora’ 50 anos, evento traz o cinema como instrumento de resgate da memória e da verdade. Conversamos com a organizadora do CPL em Sergipe, que já começa no dia 8 de maio.

*por Irlan Simões

 

Um dos principais desafios do atual momento político no Brasil é o resgate dos acontecimentos mal explicados dos tempos do Regime Militar. Mesmo passados mais de 20 anos da reabertura política democrática os arquivos oficiais dos órgãos de tortura seguem em sigilo, muitos corpos continuam sem paradeiro e o número de vítimas segue incerto.

Ainda que a criação da Comissão da Verdade soasse como um grande avanço no resgate da memória dos tempos sombrios da Ditadura Militar, o que se vê é uma extrema fragilidade dos trabalhos. Restrito à pesquisa, incapacitado do poder de punição e esvaziado pelo próprio poder público, a Comissão tem tido poucos avanços até o momento. Por outro lado surgem uma série de novas facetas autoritárias na política nacional que agem ao arrepio da Constituição e do bom senso – com um assustador apoio de grande parcela da população.

Diante desse quadro, qual a saída? Se no plano institucional pouco se avança, as iniciativas da sociedade civil vão se multiplicando com o objetivo de não deixar o passado ser esquecido. O cinema tem sido uma delas.

Na tentativa de trazer à tona e reacender constantemente o debate sobre os crimes cometidos pela Ditadura Militar no Brasil, a Mostra Cinema Pela Verdade chega à sua terceira edição em 2014. Sob a coordenação de Renato Herzog e Tatiana Maciel, a mostra já acontece a todas as unidades federativas brasileiras.

Em Sergipe a produção tem sido tocada pela estudante de audiovisual Palloma Carvalho, que explica o processo. “O projeto foi contemplado pelo edital “Marcas da Memória”, da Comissão de Anistia, que visa a promoção de projetos com foco no período da ditadura civil-militar no Brasil. Foram selecionados 27 agentes mobilizadores, um de cada estado e para produzir as sessões passamos por uma capacitação”.

A Mostra Cinema Pela Verdade acontecerá em Aracaju nos dias 8,15,e 22 de Maio. A proposta do evento é realizar debates na sequencia da exibição dos filmes. Na edição de 2014 a Mostra recebe o apoio projeto de extensão ‘Cine Mais UFS’ e da Coordenação do curso de Direito da UNIT.

Serão três filme exibidos, um em cada quinta-feira de semanas consecutivas. A cada etapa um novo nome será convidado para iniciar os debates a partir da obra assistida. Para Palloma Carvalho o projeto tem grande peso no atual momento. “A importância da Mostra Cinema pela Verdade reside principalmente em fazer permanecer de pé a discussão sobre a ditadura civil-militar no Brasil, apontando para uma revisão histórica, servindo de anteparo real a novos devaneios autoritários”.

Quando pergunto sobre a participação de grupos políticos (em especial aqueles que seriam vítimas da Ditadura naqueles tempos), Palloma afirma que tem recebido apoio. “A mostra desperta o interesse dos mais diversos grupos políticos. Na UFS esse interesse acontece de maneira mais efetiva dada a diversidade de organizações que ali se encontram. Todos grupos procurados buscaram uma forma de auxiliar na promoção dos debates seja com a indicação de debatedores seja com a divulgação entre seus membros”, conta Palloma.

A organizadora, que também trabalha na produtora CafécomGuaraná, confessa que se sente lisonjeada em participar do projeto e ressalta que nessa edição os filmes disponibilizados são, em sua maioria, nacionais. Para ela o evento cumpre o papel de formar o público.

Confira o filme que será exibido em cada uma das três etapas da Terceira Edição da Mostra Cinema Pela Verdade em Sergipe. Os três dias do evento acontecerão na Sala de Exibição da Did.VI (sala 101) às 17hs na Universidade Federal de Sergipe. Os comentários são da própria organizadora.

 

Ainda existem perseguidos políticos
Data: 08/05
Horário: 17:00

ainda_existemO debate levantado a partir desse filme gira em torno da ausência da transição democrática pós-ditadura. O filme cria um paralelo entre o passado e presente exibindo imagens de arquivo e entrevistas de organizações políticas/sociais que foram e são perseguidas por causa de suas atividades. Levando-se em conta toda repressão dirigida às manifestações das chamadas “jornadas de junho”, contra a Copa do Mundo e tantos exemplos diariamente noticiados, a discussão levantada por esse documentário produzido pela ONG Acesso – Cidadania e Direitos Humanos em Parceria com a Comissão de Anistia torna-se urgente.

 

Repare Bem
Data: 15/05
Horário: 17:00

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A mulher está no centro da discussão nesse filme que retrata a luta de três gerações: Dona Encarnação, Denise Crispim e Eduarda Ditta Crispim Leite. É um filme importante por apresentar o lado violento da ditadura brasileira, a despeito das afirmações de brandura diante de regimes congêneres no cone sul. O fato de carregar um bebê no ventre, por exemplo, não impediu que Denise Crispim fosse também torturada, mesmo que com “cuidados” para que ela não abortasse. O impacto psicológico, que perdura até hoje, também é destacado no filme. Apesar dessa carga dramática e peso histórico, um sentimento profundo de amor emana da tela. O amor que Denise sentia pelo marido, o militante Bacuri, e pela filha Eduarda transcende os momentos terríveis pelos quais ela foi submetida. Sua fé na luta política como força transformadora daquele estado de coisas é inspiradora.

 

Camponeses do Araguaia – A Guerrilha Vista Por Dentro
Data: 22/05
Horário: 17:00

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Dada a dificuldade de acesso a documentos sobre os fatos ocorridos nessa época o filme baseia-se basicamente no depoimento dos camponeses que conviveram com os guerrilheiros e sofreram com as barbaridades cometidas pelo exercito brasileiro. E é justamente nesse fato onde a obra se mostra bastante singular. Quem depõe sobre aquele período são pessoas extremamente simples, doravante analfabetas, que contam o que viu como quem contam um caso para um desconhecido que acabou de chegar à sua porta. Essa sutileza e simplicidade garantem um tom de veracidade às histórias servindo como um importante registro sobre um momento e um lugar conscientemente esquecido.

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