Um, dois, três. Até hoje dói

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Ao reproduzir preconceito contra jovens negros do Conjunto Marco Freire II, bairro periférico da Região Metropolitana de Aracaju, mídia sergipana favorece invisibilização das demandas da população negra

*por Geilson Gomes

No dia do III Encontro Underground, 26 de abril, a Praça da Juventude do Marcos Freire II estava repleta de jovens. Segundo Dexter, todas as noites, a rapaziada se encontra na praça para se entreter, curtir um som e ‘fazer a cabeça’. Neste dia, seis bandas de reggae sergipanas se apresentaram, metendo muita pedrada musical na consciência daqueles que discriminam a cor do ritmo e da periferia.

Dexter, músico da banda JaHut’s, foi um dos músicos a se apresentar naquela noite. Ele conta que os jovens da periferia sempre são alvos da discriminação. “Certa vez, uma TV local transmitiu um vídeo da galera fumando um na praça, enquanto o apresentador deferia palavras preconceituosas, como ‘só tem marginal ali, são criminosos’. Moro aqui na praça, venho todos os dias e não vejo nenhum criminoso aqui. Agora, por quê não fazem o mesmo com os jovens da Treze de Julho? Ou da Praça Zilda Arns, no Jardins?”.

Neste caso, a mídia colaborou para que a discriminação se acentue e para que as ações da polícia militar sejam legitimadas, acarretando em cenas repressoras. O músico relembra uma das recorrentes histórias, análoga ao que acontece diariamente nas favelas brasileiras.  “Em um sábado, após um evento de graffiti, apareceram dez viaturas da PM, da RP e motos da Getam. O objetivo não era achar alguma coisa, até porque só tinha gente na paz. Cercaram a praça e colocaram todos como suspeitos, com o objetivo de intimidar. A própria cultura periférica é julgada pela sociedade. Não é todo tipo de reggae que toca nas rádios. A mídia favorece que essa discriminação se acentue. A consequência disso é vermos cada vez mais cenas de repressão”.

Isto demonstra o quanto a grande mídia faz parte do mesmo jogo dos detentores da economia e do poder político da sociedade. A mídia, ao reproduzir notícias e imagens que não condizem com a realidade da juventude negra, favorece a invisibilização das demandas da população negra e ajuda a engrossar o quadro de jovens negros assassinados.

De acordo com o estudo realizado pela Secretaria de Direitos Humanos do governo federal, Observatório de Favelas e pelo Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 36.735 brasileiros de idade entre 12 e 18 anos serão assassinados até 2016, em sua maioria por arma de fogo, caso seja mantido o atual ritmo de violência contra os jovens.

Esta mesma pesquisa comprova que a taxa de homicídios de negros é de 36,5 por 100 mil habitantes, no caso de brancos, a relação é de 15,5 por 100 mil habitantes.

O Encontro Underground foi idealizado por Michael Silva, estudante e morador do bairro. Ele coloca que o projeto engloba vários ritmos, como o rock, o blues e o punk. “O Underground surgiu da parceria da comunidade e dos amigos do Marcos Freire II. A praça deve ser mais frequentada pelos jovens. Acredito que através da música, em conjunto com a comunidade, é possível mudar nossa cultura e a educação de nossos jovens”, diz.

Embora tenha recebido o apoio da Prefeitura Municipal de Socorro, o jovem produtor aborda a dificuldade de realizar espaços culturais na praça. “É preciso valorizar a cultura sergipana e socorrense, porque infelizmente nosso município está bem carente de cultura. Os órgãos públicos só ajudam se formos atrás”, acrescenta.

Para o administrador da Praça da Juventude, Lenivaldo Barros, somente as estatísticas que passam na mídia dizem que o bairro é violento. “Eu acho que, quando há repressão, muitas coisas ruins acontecem. Quando os jovens ficam livres, a festa flui numa boa. O evento ocorre melhor quando não há a repressão”.

Perguntado sobre quem realiza a repressão, Lenivaldo é claro na afirmação. “Quem utiliza a repressão é a polícia. Em um evento deste, não é necessário a polícia no meio”.

O racismo das grandes mídias ainda persiste como fator que apaga a realidade que se passa nas periferias e na cultura dos negros. São matérias desfocadas e inconsistentes do ponto de vista da temática negra. Por isso, que a gente sempre está do lado de fora, na cozinha, fazendo um papel menor ou o papel pior.

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