De quem são as mãos banhadas de sangue?

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Assim como não é uma mera coincidência a semelhança entre os programas de Datena e Marcelo Rezende com a versão sergipana “Tolerância Zero”, de Bareta, também não é coincidência a semelhança da página “Guarujá Alerta” com a local “Aracaju, como eu vejo”.

*por Priscila Viana

 

O fascínio humano pelas tragédias, crucificações, queimações públicas, torturas, decapitações e todos os elementos prioritários em ficções de terror é praticamente inegável. Como lobos insanos, nos colocamos à procura da próxima carne para devorar, buscando uma acusação que possa justificar humanamente os atos de selvageria. Com a justificativa de que “o Estado não cumpre seu papel” – admitindo a necessidade de controle para viver em sociedade -, é cada vez mais comum “cidadãos de bem” acusarem o transeunte da próxima esquina e “pegá-lo pra Cristo”, protagonizando cenas que traduzem um verdadeiro caos humano.

 O caso mais recente e igualmente chocante foi o da mãe e dona de casa Fabiane Maria de Jesus, que morava no Guarujá e foi confundida com uma acusada de sequestrar crianças para praticar magia negra. Fabiane foi confundida porque seus vizinhos a acharam parecida com a protagonista de um retrato-falado divulgado pela página de facebook “Guarujá Alerta”, que se diz “sempre alerta aos fatos e notícias”.

Com uma tentativa de se assumir uma página jornalística, ela está bem longe disso – não faltam imagens de pessoas divulgadas sem cautela nem zelo, informações sobre roubos e outros crimes sem a devida apuração, animais abandonados, prestação de serviços e, como não poderia faltar, a divulgação de imagens de “vagabundos e meliantes” capturados pela polícia.

Segundo informações relatadas pelos próprios administradores da página à polícia, no mesmo dia em que Fabiane foi linchada, uma outra mulher havia se direcionado à página solicitando que fosse retirada a imagem da acusada, porque ela também estava sendo confundida e ameaçada por anônimos através de recados virtuais. Antes mesmo de ser declarada a morte de Fabiane, a página havia divulgado que “A verdade dói em muitos, mas liberta. Vamos em frente sempre alerta”.

“Aracaju, como eu vejo”

Assim como não é uma mera coincidência a semelhança entre os programas de Datena e Marcelo Rezende com a versão sergipana “Tolerância Zero”, de Bareta, também não é coincidência a semelhança da página “Guarujá Alerta” com a local “Aracaju, como eu vejo”. Além de divulgar anúncios de patrocinadores, a página divulga prestação de serviços, imagens de pessoas, carros e cenas do cotidiano urbano sem qualquer responsabilidade com o direito de imagem, boatos e todas as informações enviadas por “seguidores”.

 Os administradores – claro, anônimos – acham que por vezes se isentam de qualquer responsabilidade quando avisam “é apenas um boato, não sabemos ainda se é verdade, mas vamos ficar de alerta”. Ainda assim a informação está estampada, desde uma acusação séria até piadas, chacotas e incitações à violência.

Em uma publicação mais recente, os administradores postaram um vídeo feito em Estância, situação na qual dois assaltantes de uma joalheria teriam morrido em uma troca de tiros com a polícia. No vídeo, a população aplaude a ação da polícia, mas o que chama a atenção é a legenda publicada pelos administradores da página: “Porque será que a população aplaudiu a polícia quando a viatura passou com dois corpos em Estância?”. Diante da clara incitação à violência, os que criticam são sumariamente excluídos e agredidos verbalmente.

Descrita como uma página “para mostrar uma Aracaju real, como não é mostrada na TV”, por vezes recebe a visita de coordenadores de órgãos públicos e jornalistas para explicar a falta de veracidade ou a falta de responsabilidade com informações que são divulgadas na página. É muito comum encontrarmos imagens de pessoas acusando-as de algo, seguidas de um questionamento: “Alguém confirma?”. Alguém pode confirmar ou não, mas antes disso a imagem das pessoas já está amplamente disseminada, o que não isenta ninguém de responsabilidade sobre isso.

A responsabilidade com as informações

Exatos 20 anos após o caso da Escola Base, considerado o episódio mais chocante de erro midiático no Brasil, parece que não se aprendeu nada sobre a necessidade de apuração e cautela com as informações que envolvem vidas. Um dos seis acusados, injustamente, de praticar abusos sexuais contra as crianças da escola, Icushiro Shimada, morreu no último dia 16 de abril, ainda esperando indenizações da justiça. Oficialmente, o erro policial e midiático não foi reparado.

Todos os dias, morrem muitos moradores nas favelas, anunciados pela imprensa como “traficantes” ou “colaboradores do tráfico”. Apenas com a contemporânea difusão das redes sociais, é possível encontrar informações contraditórias e verificar que pessoas como o pedreiro Amarildo Dias de Souza, a empregada doméstica Cláudia da Silva e, mais recentemente, a dona de casa Fabiane de Jesus era inocentes de todas as acusações que resultaram em suas mortes – sem direito à defesa. Vítimas de uma polícia que age com resquícios de ditadura, de pessoas que se colocam acima do Estado e dos próprios direitos humanos, mas também de profissionais da comunicação que não refletem – ou não querem refletir – sobre o papel que cumprem ao transmitir discursos e imagens de incitação à violência. “Ela só deu uma opinião”, justificam os que apoiam o discurso de jornalistas como Raquel Sherazade, Marcelo Rezende e Marcelo Datena. O problema é que não são só opiniões.

Enquanto a grande imprensa superficializa o debate, contentando-se em debater apenas os detalhes da fatídica cena ou a veracidade da acusação de que Fabiane foi vítima, chama atenção um artigo do jornalista Luciano Martins Costa, ao destacar as considerações da socióloga Ariadne Lima Natal a respeito da crescente repetição de linchamentos após um caso de grande repercussão na imprensa. Enquanto profissionais de comunicação, poderíamos nos perguntar: em que proporção estariam também as nossas mãos banhadas de sangue?

 

 

*Priscila Viana é jornalista

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