Guerra aos pobres: Quem vai querer?

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Orla de Atalaia, logradouro exclusivo para turistas?

 Matéria de capa de semanário local reproduz eterna tendência da imprensa sergipana ao proibicionismo e da apologia ao extermínio. Com um agravo: promove cobertura rasa e desinformada em tempos de grandes mudanças

*por Henrique Maynart

Nada de novo no front, na retaguarda e no release sergipano, mas quem tem amor e quatro pedras na mão não passa calado. “Maconha, cocaína e sexo barato, quem vai querer?” Esta é a chamada de capa do semanário Cinform desta semana, de 12 a 18 de maio, edição de sangue pingado nos olhos da vida alheia, colírio da violência pra acinzentar a semana. A capa faz menção à matéria da página 15 do caderno A, que narra a pretensa investida sobre o uso e comércio de drogas ilícitas associadas à exploração sexual nos bairros Atalaia e Coroa do Meio, na zona sul da capital sergipana.

 A reportagem é encaixada ao lado da página de segurança do caderno A. Não é à toa, nunca. Fazendo dobradinha com matérias de título “Filho mata brutalmente a mãe”, “Mulher é presa com quase 1100 cápsulas de cocaína”, ”Seminário discute homicídios em Sergipe”, a gente já entende a pegada editorial da reportagem: Criminalização, pau no lombo e tchau e bença.

 A matéria cita a investida de dois repórteres no umbigo imundo da madrugada na zona sul de Aracaju, uma espécie relato beatnik meia-boca – metido a estiloso que só ele – sobre os rolês pra descolar um pó na Coroa do Meio. Kerouak deve estar coçando as narinas na tumba até agora, deixa quieto.

 Pois bem, o relato segue com o encontro de Andreza e Rutinha, duas adolescentes que “fazem ponto” e trabalham no varejo do tráfico da região, passam por duas bocas na mesma noite até  conseguir a desgrama da “caspa do diabo”. Cita a geopolítica das organizações do tráfico, os casos de exploração sexual intanfo-juvenil, do medo e o toque de recolher dos moradores da região, imagens de alguns pontos de comércio das substâncias e testemunham – devidamente pasmos – uma dá garotas dar um “teco” ao final do encontro.

 A conclusão da matéria? A situação é caótica, os usuários de drogas espantam os turistas da Orla, e alguma coisa há de ser feita.  Entenda-se “alguma coisa” como patrulhamento ostensivo, aumento do efetivo na região e intensificação da “guerra às drogas”.

 Os seres humanos por trás da estória.

 Andreza afirmou ter 16 anos, não se sabe a idade de Rutinha. As duas jovens são vítimas da exploração sexual comercial por uma série de possíveis motivos: Ausência de condições de sobrevivência, da assistência social, de moradia digna e uma série de direitos. Muito provavelmente abandonaram a rede pública de ensino.

 A reportagem estava preocupada com a origem e as condicionantes sociais das duas garotas? Foi atrás da família e responsáveis pelas duas?  O Conselho Tutelar ou o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, órgãos responsáveis pela execução de medidas na garantia de direitos deste substrato da sociedade, foram ouvidos na reportagem? O texto afirma que a cadeia turística é prejudicada com o cenário dos usuários problemáticos na região, mas por acaso alguma rede de pousadas, que se alimenta em parte do turismo sexual devastador, incluindo a possível exploração infantil, foi procurado ou citado na reportagem?

 As duas garotas, assim como dezenas de garotas e garotos da Coroa do Meio, passam por um quadro de drogadição potencialmente degradador. Por acaso algum responsável pelos Centros de Atenção Psicossocial de álcool e drogas da região, o CAPS-AD III, situado na Atalaia, ou o David Capistrano da Coroa do meio foram ouvidos sobre o caso? Aliás, o Programa de Redução de Danos da prefeitura de Aracaju, que trata diretamente com usuários em situação de rua, foi procurado para dar sua contribuição à reportagem?

 Não, não, não, não e não! N-A-O-til, em caixa alta e separando letras. Uma série de órgãos e entidades do poder público foi citada neste questionamento, mas a reportagem resume a intervenção do Estado no seu braço repressor policial. Porrada, cana e higienização social da Orla de Atalaia.

 Mas esta abordagem não é privilégio do semanário Cinform, justiça seja feita. A cobertura da imprensa sergipana sobre o uso de drogas ilícitas, os casos de uso problemático e ações relacionadas ao narcotráfico sempre reproduziu a mesma lógica de tornar a notícia um espetáculo de sangue, demônios e culpa presumida.

 Se for pobre, preto e for pego com dois baseados e um pino de cocaína em qualquer periferia da cidade, vai fichado como traficante pra página de segurança. Se for branco, classe média e for pego com dois baseados e um pino de cocaína na porta de um bairro nobre, vai fichado como usuário e estampa a página de comportamento do jornal. Seletivo e reto, tal como a “guerra às drogas”.

 A proibição e a guerra aos pobres

 Com menos de 100 anos de implantação em escala internacional e de origem claramente racista, a proibição de substâncias psicoativas como a maconha, a cocaína e outras drogas além de não acabar ou sequer diminuir o consumo, acaba por criar um mercado ilegal monstruoso com consequências devastadoras para a sociedade. Desde a alteração da droga para catalisar suas propriedades psicoativas e “render” na venda, a uma cadeia produtiva que explora crianças e adolescentes pobres, pretos e periféricos, financia a corrupção policial e serve a uma política de extermínio do substrato mais precarizado da classe trabalhadora.

 Muito se fala dos efeitos devastadores do crack, mas é fundamental ressaltar que o crack é invenção da cadeia produtiva do tráfico, a fim baratear o preço da cocaína para os setores mais espoliados da sociedade estadunidense no final da década de 70. O crack é a cocaína dos pobres, pasta-base não refinada, misturada com querosene, água e outros compostos.

 O programa “Crack, é possível vencer” do governo federal, além de abrir o financiamento público para a iniciativa privada, abre leque para a política de “internação compulsória” que, na prática, vai de encontro às prerrogativas dos CAPS-AD, referência internacional em saúde pública mental, e aplica uma política de higienização da cidade e criminalização da pobreza. [Sobre esse tema ver: “Crack – Tratar ou Punir” de Andrew Costa, para REVER]

 Além de tudo o narcotráfico retroalimenta o tráfico de armas, dada a necessidade de controle territorial, o setor que mais o movimenta capital em todo o mundo.  A morte do pedreiro Amarildo em 2013 e a do dançarino D.G neste ano, ambos confundidos com traficantes nas favelas cariocas, são o saldo de uma guerra que tomba diariamente policiais, traficantes e usuários pretos e pobres.

 Mais de 60% da população carcerária feminina está enquadrada por associação ao tráfico, as mulheres são as que mais sofrem com a guerra às drogas porque estão mais expostas à violência policial, porque seus corpos são os mais objetificados como “mulas” na rota do tráfico internacional de narcóticos e de pessoas para exploração sexual comercial.

 É necessário romper a cortina de fumaça da proibição, garantir o máximo de informações sobre as origens e reais efeitos das substâncias psicoativas como a maconha, cujas propriedades medicinais são descobertas a cada dia, acompanhar as experiências de países que descriminalizaram e regulamentaram o plantio, comércio e uso da Cannábis como nossos vizinhos uruguaios. Informação para combater a hipocrisia é fundamental.

 Na contramão dos direitos?

 Seria cômico se não fosse trágico, mas o próximo dia 18 de maio é Dia Nacional da Luta anti-Manicomial e o Dia Nacional de Luta Contra a Exploração Infantil.  É inadmissível que os direitos da criança e do adolescente e todo o acúmulo histórico do movimento pela reforma sanitária seja absolutamente ignorado e /ou negado na cobertura jornalística local.

 No próximo dia 25 de maio ocorrerá a 4ª edição da Marcha da Maconha, exatamente nos Arcos da Orla – local abordado pela reportagem – onde centenas de aracajuanos ocuparão as ruas para lutar por outra política de drogas, por um mundo mais solidário e menos careta. Quem sabe a realização destes eventos possa alterar o quadro de percepções da imprensa cartorial sergipana, a fim de ampliar o debate sobre os verdadeiros problemas do povo aracajuano, pelo direito à saúde, à cidade, ao seu próprio prazer e à sua própria vida. Que possamos fazer apologia a outro mundo possível e não ao extermínio, à espoliação e a criminalização da vida dos humanos e humanas que pelejam.

*Henrique Maynart é militante do Coletivo Legalize-SE e organizador da Marcha da Maconha Aracaju

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