“ELA” ou Da Fragilidade Contemporânea

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“Apesar de não expressar nada de política ou economia ou Estado, o filme pode ser lido incluindo estes elementos e os articulando com a situação concreta e psíquica do personagem” 

 

*por Romero Venâncio

 

“O essencial portanto não é que o melancólico tenha razão em sua penosa autodepreciação…
O importante é que ele está fazendo uma descrição correta de sua situação psicológica”
(Freud em “Luto e Melancolia”)

 Pavoroso. Assustador. Inquietante. Contemporâneo. Belo. Sensível. Leve. Pesado. Definiria assim e com tantos termos este filme de Spike Jonze, “Ela”. Situações limite e alta contemporaneidade; exata situação psíquica de um monte de gente espalhada pelo mundo atual e exagero caricatural de algo que ainda não existe; Virtualidade existencial e ficção eletrônica; a velha forma de amar e sentir-se só e uma brutal paixão virtual, literalmente… Tudo isto pode ser este filme singular na safra atual que vem dos Norte Americanos.

  Simples até de mais, uma sinopse apressada: Theodore (Joaquin Phoenix) é um escritor solitário que acaba de comprar um novo sistema para o seu computador (“Element Software” ou como se diz no filme: uma “entidade intuitiva” por nome de Samantha). Para sua surpresa (e nossa!) ele acaba se apaixonando pela voz deste programa informático (voz de Scarlett Johansson! E me pergunto ainda: quem não se apaixonaria?) dando inicio a uma relação amorosa incomum (ainda?!), onde um Homem contemporâneo vive esta situação de sentimento com a tecnologia.

 Uma bruta de uma ficção, sem dúvida, mas eu nos deixa com a pulga atrás da orelha e nos coloca no núcleo das possibilidades do capitalismo contemporâneo… Mas nunca sem contradições. Aqui começa o extraordinário da película. Apesar de não expressar nada de política ou economia ou Estado, o filme pode ser lido incluindo estes elementos e os articulando com a situação concreta e psíquica do personagem. Trata-se de uma forma de desamparo e de fragilidade, por certo, mas que nas ausências de explicação direta está uma pista dos rumos da condição humana no mundo contemporâneo.

E ainda, num filme bem feito tecnicamente e atraente emocionalmente. Um filme de tem uma leveza extremamente pesada (um paradoxo perfeito para explicar um pouco mais a película!). Deslizamos no filme e sofremos com ele… é a atualização do sofrimento de Narciso, só que não é a própria imagem que esta em questão, mas uma outra imagem que só existe virtualmente, para desespero de todos e, em particular, de Theodore. Acompanhamos a alegria radiante ao sofrimento melancólico da impossibilidade éter o que só se tem na virtualidade.

E sofremos com ele… Isto é o apavorante e assombroso nesse filme. Nós vamos entrando na vida do personagem na sua mais recôndita fragilidade e pela voz de Samantha. Nunca uma tragédia foi tão anunciada e nunca observamos a impossibilidade de saída. A beleza como terror ou o sentimento amoroso na sua forma “diabólica” (o diabo bíblico é a beleza luciferina que acusa e nos seduz. Vide o livro de Jó).

  O filme articula bem o melodrama com desamparo existencial como poucos no cinema atual. Vamos acompanhando o jogo de sedução de Homem e de uma voz, a ponto de simularem uma relação sexual e gozo intenso numa noite perdida do filme (intenso sem um outro concreto?) e no dia seguinte se falam meio envergonhados e como se nada tivesse acontecido na noite passada. Mas tudo aconteceu e não tem volta como em toda relação amorosa que vai da sedução à cama e da cama à necessidade de ter alguém para suprir e preencher algum vazio ou alguma necessidade de companhia num mundo hostil.

  O personagem flana num trem ou nas ruas depois dessa paixão que só cresce pela voz. Ele namora na rua com ela, como qualquer namorado o faz no inicio da relação. Explosão de felicidade que jamais imagina o perigo em que se enfiou. Falam de sexo como se já o tivessem feito de verdade. Pergunta a voz: “como seria nosso sexo anal”. E tudo segue como em toda vida. Mas no filme, nada é “normal”, nada é “comum”. Eles se confessam um ao outro (o que é mais torturante e belo), afinal quando se ama, se diz quase tudo sem medir nenhuma consequência. O outro sempre nos inspira confiança. Amamos, e pronto (pronto, uma porra! diriam os que já passaram por esta “caldeira diabólica” de sentimentos… e vão passar de novo, digo eu, se assim aparecer uma nova oportunidade!).

  Duas coisas me chamaram por demais a atenção: a limpeza absoluta em tudo nesse filme e a ausência de qualquer referência ao transcendente ou sagrado (pra não dizer que não há referência ao religioso: há uma imagem de monges budistas numa tela de computador destacado por uma personagem e só. Como sabemos, o Budismo é uma religião sem transcendência alguma). No filme não aparece nenhum sinal de sujeira ou de lixo. Tudo é limpo até demais. Brilham os lugares. As ruas por onde passa o personagem, seu apartamento ou seu lugar de trabalho. Uma limpeza que incomoda, por ser falsa e artificialmente preparada. Não há espaço para o improvável casual que é toda sujeira que há no mundo e em nós. Não há espaço para a impureza e sabemos das “sujeiras” que se passa na mente do personagem ou da voz/Samantha. Não há uma única referência direta a Deus ou a algo transcendente á condição humana (condição do próprio personagem). Não se precisa de nenhuma divindade quando se tem uma máquina que nos providencia quase tudo. Em sentido existencialista: é o Ser jogado absolutamente no mundo. Das máquinas e suas virtualidades aparentemente infinitas.

 Assombroso! Sem Deus e sem as “sujeiras” que nos habita, onde vamos parar? Na virtualidade limpa e perversa. Freud, Marx, Sade e Jesus superados? (só aparentemente superados, ainda sustento). Na verdade, o filme é como um “LSD de alta potência” em nosso cérebro: nos faz confundir tudo e todos, mas o efeito passa em algum momento, por mais prolongado que seja o ácido, e vem a realidade.

  A realidade convocada, ainda: e se essa voz sumir? Um vírus pode eliminá-la por completo (Não é assim com os nossos computadores e programas)? A quem recorrer? Encontra-se outra? E a questão da “traição”? A mesma voz pode tá servindo e amando vários outros, ou não? No filme isto acontece, dolorosamente. Uma voz não corresponde a uma “moral” (ou ética, talvez)… Não existe moral virtual. É preciso ação, concretude, humanidade para que haja alguma forma de moral.

 O filme nos conduz a muitas questões que não temos como respondê-las ou mesmo ter parâmetros para avalia-las. Não é preciso ir mais longe para sabermos no que pode chegar um filme com este enredo. Termino com uma singular constatação que o filme indica: somos muito frágeis e temos pouca consciência disto e desta brutal condição existencial. Só a arte em suas diversas expressões tem nos aproximado de um breve entendimento deste fato no mundo contemporâneo.

 

*Romero Venâncio é professor de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

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