‘Nossa preocupação é com a Seleção. Essa é a nossa prioridade’:

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 Clubes brasileiros seguem endividados num período em que a CBF lucra como nunca antes. Nem a Copa do Mundo poderá inverter tal situação de dependência do futebol local?

*Anderson Santos

 

A quarta-feira, 07 de maio de 2014, até poderia entrar na história como mais um dia de convocação com alguma polêmica para a Copa do Mundo FIFA. Muito longe disto. Um treinador da “Seleção” nunca esteve tão tranquilo numa entrevista coletiva, ainda mais em data tão importante. Mas, dentre perguntas que terminavam com um “boa sorte” ao comandante e outras realizadas por quem não entende de futebol ou prefere bajular, uma teve resposta marcante, a que dá o título deste texto.

Um repórter “aproveitou” a presença do atual e do futuro presidente da CBF, José Maria Marín e Marco Pólo Del Nero, respectivamente, para saber a opinião deles sobre a grande crítica do deputado federal Romário (ainda do PSB-RJ) na votação numa comissão da Câmara dos Deputados. Marín nem deixou o seu sucessor responder, foi direto: “Nossa preocupação é com a Seleção. Essa é a prioridade nossa”.

No dia anterior, como bem se vangloriou o movimento Bom Senso FC nas mídias sociais, a tal comissão aprovou uma espécie de “Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte”. Muitos pontos interessantes, como a punição às pessoas físicas que comandarem times e os deixarem posteriormente com o pires nas mãos; e da mudança de critérios na renegociação das dívidas com entes federais, que antes absolveria 90% das dívidas existentes – ou seja, dinheiro que deveria servir para escolas, hospitais, UPAs e quadras, por exemplo –, que teriam de ser aplicadas em formação de atletas; dentre outros (ver quadro abaixo).

FOTO 1 Só que na hora de fechar a lei, os nobres deputados resolveram tirar os pontos que cabiam à CBF. Como a Constituição Federal destaca a independência das organizações de direito privado, caso de instituições esportivas no Brasil – uma das exigências, inclusive, da FIFA –, a ideia era modificar o estatuto da Seleção brasileira. Passando a ser “patrimônio esportivo-cultural” e “patrimônio imaterial do Brasil”, com o futebol também sendo patrimônio nacional por aqui, a CBF passaria a estar sujeita a fiscalização e a prestação de contas. Os pontos foram tirados, fixando apenas nos clubes, e Romário falou muito (ver aqui e aqui).

Ainda há um caminho para o projeto passar, plenário da Câmara, Senado, aprovação dx presidentx, ainda mais com as atenções de nossos “representantes” estando divididas com as eleições. De qualquer forma, o maior dos vespeiros – algo que quem reclama que não deveria ter Copa no Brasil e que pensa o futebol como “ópio do povo” deveria saber bem para melhor criticar –, deve seguir com a caixa-preta intacta.

 A riqueza da CBF

 Há algumas semanas, eu recebi e-mail do consultor de marketing e gestão esportiva Amir Somoggi, colunista do site Futebol Business, com uma apurada apresentação sobre as finanças da CBF, pegando o último decênio (2003 a 2013). Já na primeira página, a afirmação de que a Confederação Brasileira de Futebol teria se consolidado como a maior entidade esportiva do Brasil em termos financeiros.

 Tirando a possível comparação com seus clubes afiliados, relacionar o dinheiro que rola no futebol com o que percorre outros esportes no Brasil é desnecessário. De qualquer forma, o principal dado que é sugerido por Somoggi, já no corpo do e-mail, é que desde que este país foi escolhido como sede da Copa do Mundo FIFA 2014, o faturamento da entidade brasileira cresceu 277%, tendo uma evolução de 310% no período de 10 anos, demonstrando que estes 7 anos foram marcantes para isso.

 Eu optei por esperar um pouco antes de comentar a pesquisa e interligar uma coisa a outra como estratégia de negócio. Ainda que sob a visão de um pesquisador em Comunicação, creio ser importante analisar toda a conjuntura por trás deste crescimento, para além da análise mais à vista dos números e de tirar conclusões que, tratando-se desta entidade, quase sempre são críticas fervorosas.

 Para início de conversa, abaixo segue trecho do infográfico feito pelo jornal Gazeta do Povo sobre a receita da CBF neste período. Pode-se perceber que de 2003 a 2007, os valores pouco variam, indo de 110 a 120 milhões de reais, com crescimento enorme a partir de então, a ponto de chegar aos R$ 452 milhões no ano passado. Até 2007, o prejuízo foi de R$ 12 milhões, enquanto que de 2007 até 2013 o lucro foi de 383 milhões de reais. Diferença gritante, não?

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 Além da confirmação do Brasil como sede da Copa – e daquelas promessas de que não se gastaria dinheiro público com ela (nós lembramos bem…) –, 2007 é o ano que começa o novo contrato com a Nike, fornecedora de material esportivo. Nos primeiros dez anos, todos lembram bem que a empresa tinha direito a uma série de amistosos anuais para divulgar as marcas. No novo contrato, salvo engano, a quantidade de partidas foi diminuída, senão encerrada. A CBF passou a contar com outra empresa, agora dos Emirados Árabes, para organizar o Tour Canarinho.

 Neste sentido, a ISE – cujo contrato foi renovado pouco antes de Ricardo Teixeira deixar o cargo de presidente da CBF e ir descansar nos Estados Unidos –, é quem organiza, geralmente terceiriza, as partidas do Brasil fora do país. (Além disso, parece que a Ambev também teria alguns jogos sob seu direito de escolha…).

 São 14 patrocinadores da CBF que, assim como a FIFA desde os tempos de João Havelange, adotou a multiplicação de patrocínios, com praticamente uma empresa por setor, de frango, passando por cartão de crédito e chegando aos refrigerantes e escola de idiomas. Este número só vem crescendo, especialmente nos últimos anos e muito graças a Ricardo Terra Teixeira.

 A “crise” econômica mundial não gerou reflexos tão pesados no Brasil, sob política também para os grandes e transnacionais empresários, além disso, o período anterior foi de crescimento de lucros em várias áreas. De todos os patrocínios, só a TAM saiu, dando lugar à Gol. Dez desses patrocinadores são concorrentes dos que apoiam a FIFA.

 Acredito ser óbvio o maior interesse em patrocinar a principal representação do esporte no Brasil com o maior evento do mundo sendo realizado por aqui. É uma atração natural, mas que perpassa também por outras questões. Do lado publicitário, pode-se pensar se vale a pena dividir pequenos espaços nas camisas de treino e nos painéis. Por enquanto, o valor da marca Seleção brasileira de futebol faz valer, e muito, ainda mais em período de Copa do Mundo FIFA nestas bandas! Ligar uma coisa a outra, desde que de forma coerente com o contexto, pode ocorrer, mas não de forma simplesmente denuncista – que creio não ser o caso do consultor, que fez um excelente e descritivo trabalho.

 O boom dos direitos de transmissão no Brasil

 Voltando aos números, o principal crescimento é dos direitos de transmissão. 1114% nos 10 anos, 950 só de 2007 para cá, com apenas uma Copa do Mundo no caminho – quando a FIFA mais lucra. Sobre este ponto, vou pegar como referência os dados sobre o Campeonato Brasileiro de Futebol, que em 2007 vive o fim da parceria Globo-Record, via Traffic, e a tentativa da emissora de Edir Macedo em tirar os principais torneios da líder de mercado – inclusive, teria oferecido mais pela Copa do Mundo FIFA, mas não ganhou porque a FIFA considerava que a escolha era da confederação local, que usou como justificativa a relação e a expertise da emissora dos Marinhos, que depois ainda venceriam automaticamente para as edições de 2018 e 2022, sem qualquer consulta. Isso inflacionou o mercado de direitos de transmissão no país.

 Em 2003, para se ter uma ideia, o SBT ofereceu ao Clube dos 13, ainda que este sob contrato com as Organizações Globo – à época contrato com todas as mídias –, um valor mínimo de R$ 200 milhões para 2003, além de outros acréscimos com parcerias em loterias e programas estilo “Roda a Roda”. Nada feito. Após o final de todo o imbróglio, que envolveu até o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) – órgão vinculado ao Ministério da Fazenda com função de garantir a concorrência nos mercados –, em 2011, as Organizações acabaram pagando mais de R$ 1 bilhão pelo torneio. Um aumento também substancial no período e que deve ser ainda maior para 2015-2018, segundo as informações dos meios de comunicação, já negociados (ver mais sobre o caso na minha dissertação).

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Só para registro, trago dois casos que demonstram crescimento puxado pelos direitos de transmissão. O primeiro é o do Corinthians, cujo fenômeno Ronaldo modificou a estrutura do marketing do clube, impulsionando receitas e equilibrando as contas do clube (dados do blog Olhar Crônico Esportivo, de Emerson Gonçalves, no Globoesporte.com).

O segundo caso é o da própria FIFA, que após o fracasso em meio à corrupção e falência da empresa de marketing esportivo ISL em 2001, mudou a sua forma de negociação dos direitos de transmissão e vem conseguindo ganhar cada vez mais com isso. Se antes vendia por região, com cada país selecionando a sua melhor forma de disputa, passou a atuar por país e por mídia, amplificando as suas receitas com isso de forma gritante desde então.

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Mas como Copa do Mundo FIFA só existe a cada quatro anos, é preciso ter outras receitas para manter o lucro bilionário anual da maior entidade paraestatal do mundo. E a turma de Blatter, Valcke e cia, fieis discípulos de João Havelange, aprenderam como se faz. Prova disso é a relação do que gastam e do que ganham a cada quatro anos – em meio a muitas críticas aos Estados alheios.

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O football association é marca exclusiva da entidade, por mais que nós torcedores fieis e apaixonados lutemos para demonstrar diariamente que não é só isso. Como diz um antropólogo pesquisador de futebol:

Pela volúpia com que atua no mercado de “bens simbólicos”, tendo valorizado exponencialmente seus produtos, seria apropriado pensar a FIFA como a gestora de uma joint venture especializada na produção de eventos futebolísticos. Todavia, seu domínio é mais amplo, estendendo-se sobre o futebol de espetáculo (DAMO, Arlei Sander. Produção e consumo de megaeventos esportivos – apontamentos em perspectiva antropológica. Comunicação, Mídia e Consumo, São Paulo, v. 8, n. 21, p. 67-92, mar. 2011. p. 87).

Os clubes endividados associados a quem muito dá lucro

 Mas um detalhe muito interessante e bem observado é apontado por Somoggi numa entrevista para a Gazeta do Povo“Alguma coisa está fora de ordem. O que acontece no Brasil é o inverso do que acontece na Europa. A seleção é uma marca extremamente relevante para o cenário internacional, enquanto os nossos clubes não conseguem expressão. Na Espanha, fala-se apenas de Barcelona e Real Madrid; na Inglaterra, de Manchester City, de Chelsea… Na Alemanha, ocupa-se mais de Borussia e Bayern do que com a seleção. Talvez a confederação tenha medo de fortalecer os clubes porque os veja como concorrentes. Eles têm de ver nesses números da CBF o potencial que existe no mercado para se desenvolverem e cobrar da confederação a melhor estratégia para o campeonato nacional”.

Enquanto eu relatei que os times a Série A tiveram acréscimo no que recebem, há clubes neste meio que recebem quase metade do último grupo com acordo plurianual com o maior grupo comunicacional do país. Na Série B então, a diferença é gritante. Ano passado, enquanto o Palmeiras recebeu R$ 75 milhões, os demais, com exceção do Sport, receberam menos de R$ 5 milhões. A CBF prega a independência dos clubes para negociarem, mas foi um dos elementos a brigar nos bastidores pela implosão do Clube dos 13 e responsável direto pelo fim da FBA, que representava os clubes da Série B, cujo contrato foi sumariamente encerrado, com os clubes calados.

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 Fora que os clubes brasileiros têm dívidas astronômicas (ver quadro acima, também do OCE, assim como os da FIFA). A Timemania, que era uma forma de renegociar as dívidas dos clubes, não teve sucesso e antecipou novos pagamentos. Não à toa se pensa em criar uma nova loteria, garantindo desta vez 10% para um fundo para formação de futuros atletas olímpicos. Como costumo lembrar, o futebol consegue ser mais arcaico em suas estruturas de poder e de relacionamento que no dia-a-dia normal de um país cheio de contradições socioculturais que demarcam classes. Assim, “clubes-empresa” não deram certo e as transnacionais de marketing esportivo fugiram do país (casos das parcerias Excel, Hicks Muse e cia) por não conseguirem vencer a batalha nos clubes. Jogar no mercado de ações, então? Como, com clubes que mal conseguem garantir estruturas próprias?

 De fato, existe a bancada da bola do mesmo jeito que outras bancadas. Apesar disso, a volta do tema aos nossos representados, depois de tanto tempo da CPI da Nike cujo relatório foi censurado de ser publicado em forma de livro – que seria do atual ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, vejam só! –, mostra que as reclamações das ruas conseguem fazer alguns pontos avançarem, ainda que saibamos que não o essencial. E, sendo pessimista, saibamos que há vários limites, com o futuro não sendo nada animador.

 Assim, ver a CBF, com bem menos jogos a negociar, dando lucro todo ano enquanto seus afiliados sofrem para arranjar um patrocínio máster que dê conta é um problema. Além de sempre tirar o dela da reta quando há alguma questão referente a um dos seus associados, que pode sofrer punição (e perseguição) da entidade, mas não pode receber ajuda.

 Quando Marín fala que para a CBF só importa a seleção, ainda que provavelmente o sentido da frase esteja num contexto ligado à Copa do Mundo FIFA algo como “a partir de agora…”, isto, e os números bem analisados por Somoggi mostram que, sob a sinceridade malufista que marca a sua carreira, o presidente da CBF segue mostrando as coisas como elas são.

*Anderson Santos é Mestre em Comunicação Social 

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