‘Balada de um Homem Comum’, ou a crônica de uma geração derrotada

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Filme em destaque trata da história de “Uma geração inteira amargou o fracasso da desilusão e a maré conservadora que varreu os Estados Unidos no final dos anos 70 foi o tiro de misericórdia em muitos filhos dessa geração”

*por Romero Venâncio

  Uma marca dos filmes dos irmãos Coen é criar personagens ou situações que estão a margem do “normal” na cultura Norte Americana. É como se eles quisessem fugir do modelo melodramático e tolo dos filmes hegemônicos produzidos no País. Para eles, existem os americanos de baixo ou como é dito no filme “Balada de um homem comum”, os perdedores. A terra da promessa e a pátria da liberdade são tratadas pela visão daqueles e daquelas que estão à margem do sonho americano.  Em filmes como: “Gosto de sangue”, “Barton Fink”, “Arizona nunca mais” ou “Onde os fracos não tem vez” são a prova deste tipo de cinema “autoral” desenvolvido pelos irmãos Coen. Violência incubada e sempre prestes a explodir, loucuras e manias, drogas e suas alucinações, personagens que beiram ao surrealismo ou locais sem rumo e sem prumo, passam a ser marca inconfundível deste cinema.

 No mais recente filme, não é diferente. “Balada de um homem comum” não foge completamente a essa regra, mas tem características muito particulares na filmografia dos Coen. O filme narra a história de Llewyn Davis (Oscar Isaac), um cantor e compositor de música Folk e que sonha em viver unicamente de sua arte. Com o violão nas costas, ele migra de um lugar para o outro naquela Nova York de 1961 e sempre vivendo de favor na casa de amigos e outros artistas. Claramente talentoso, mas sem nenhuma preocupação concreta com este talento ou em como ganhar a vida com o que ganha, perambula nas noites frias e nos bares naquela onírica Nova York dos anos 60. Compra brigas em nome de sua música, pequenos casos frustrado com mulheres e estoica maneira de encarar as coisas e a arte de viver. Personagem típico daquela Nova York dos anos 60, mas com um toque particular dos irmãos Coen.

 O filme me remeteu de imediato ao livro que havia lido alguns meses atrás, intitulado: “Ponto final: crônicas sobre os anos 60 e suas desilusões” de Mikal Gilmore e publicado pela Companhia das Letras aqui no Brasil. A obra destaca alguns nomes daquela geração anos 60 dos Estados Unidos e os situa como “aquelas pessoas que ajudaram a moldar uma época e um movimento, pessoas largamente identificadas com os anos 60” (p.09).

 Trata-se de Allen Ginsberg, Timothy Leary, John Lennon, Bob Dylan, Bob Marley, Hunter Thompson, a banda Pink Floyd e outros… Gilmore parte de um pressuposto básico: aquela geração tinha um “projeto de libertário” de mundo e foi atropelada pelos acontecimentos reais das mudanças do capitalismo e pela sua própria ingenuidade em relação ao mercado e as formas de ganhar a vida.

 Obviamente, alguns se deram bem e se destacaram completamente, a ponto de fazer fortunas e fama. Mas foi uma minoria. Uma geração inteira amargou o fracasso da desilusão e a maré conservadora que varreu os Estados Unidos no final dos anos 70 foi o tiro de misericórdia em muitos filhos dessa geração. Foram pessoas que viveram intensamente a luta por direitos civis, sentiram a renovação do Blues, o nascimento de um “novo Folk”, combateram a guerra do Vietnã, marcharam com estudantes politizados e insubmissos, viram o grito negro contra um racismo delirante e assinaram os manifestos pela causa feminista ou homossexual e ainda devem ter lido a filosofia de Herbert Marcuse, pensador singular daquela geração nos Estados Unidos. Uma geração que pensou ter o presente em suas mãos e que acreditou guiar aquele país para o verdadeiro encontro com a sua liberdade. O filme dos irmãos Coen situa seu personagem naquele ano de 1961 onde tudo isso estava começando, numa Nova York noturna que abrigou toda esta geração. Para se ter uma ideia da importância destes anos, Mikal Gilmore afirma categoricamente: “… quase todos os debates relevantes sobre cultura e política dos últimos quarenta anos foram uma reação ao que se fez nos anos 1960.” (p.10).

  “Balada de um homem comum” é daqueles filmes que honra a memória de uma geração sem pieguismos ou romantismos tolos. Um homem ou uma mulher que chega na casa dos 60 anos nos Estados Unidos de hoje e que viveu e militou naqueles anos de uma “Nova York libertária” naquelas noites frias e dias quentes de luta, passeatas, música Folk, Bob Dylan ou Joan Baez; da poesia de Ginsberg; dos experimentos de Timothy Leary com LSD ou de todos os sonhos possíveis que a época ofertava e que tem no filme uma bonita e saudosa lembrança. Mas tem, principalmente, um lugar de reflexão no percurso do pobre e talentoso Llewyn Davis.

 Parto do seguinte ponto de vista: não é porque uma causa foi derrotada na história que ela estava errada ou equivocada. É claro que aqueles anos 60 com todas as suas contradições foram derrotados historicamente por um Neoliberalismo pragmático e que cultua o bom mocismo e essa cultura medíocre e sem utopia alguma. A cultura cálculo entrou na vida e nas instituições americanas e da maior parte do mundo. Como nas palavras do filósofo Paulo Arantes: “A razão de ser do Estado e das instituições é a de intervir vigorosamente para que haja cada vez mais mercado”.

 O filme nos mostra um personagem em luta contra a mediocrização da música e na defesa com a própria pele da arte que comprometa “a minha e tua vida”. Sem casa, sem grandes apoios e sem a estrutura do mercado, Llewyn segue cantando em bares noturnos e mantendo o seu sonho. Muito interessante que este filme venha em dias atuais: o sonho e a prática neoliberal mostra sua tragédia em milhares de vidas e no aviltamento completo da arte.

 O filme termina com o personagem caído depois de uma surra, mas ao fundo ouve-se a voz de um jovem cantor que faria história na música e na utopia de uma geração: Bob Dylan. Terminar com Bob Dylan e sua promessa não é terminar… É apontar um caminho. Llewyn está no chão e derrotado (como toda a sua geração), mas com os olhos em frente e ao som de Bob Dylan.

*Romero Venâncio é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe

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