Black Blocs: a igualdade e a fraternidade se manifestando

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Leomir C. Hilário retoma uma das discussões mais relevantes de 2013 a partir de resenha sobre o livro “Black Blocs”, de Francis Dupuis-Déri – recém-lançado no Brasil

*por Leomir C. Hilário

Em meados de 1920, Vladimir Lênin – então vitorioso líder revolucionário russo – criticava diretamente os chamados “comunistas de esquerda” da Alemanha. Dizia claramente que eles padeciam de uma doença infantil do comunismo, a saber, de esquerdismo. Ele se referia (em específico no capítulo V do livro homônimo) à Liga dos Espartaquistas, agrupamento político do qual faziam parte, por exemplo, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, ambos assassinados em 1919.

 A função de tal agrupamento era esclarecer e agitar, na tentativa de mobilizar a oposição socialista revolucionária contra o crescente nacionalismo do então Partido Social-Democrata Alemão (KPD). A derrota da Liga Spartakus foi a derrota de toda a revolução emancipatória do século XX. A este respeito, indico dois excelentes livros da professora Isabel Loureiro: A revolução alemã [1918-1923]; e Rosa Luxemburgo: os dilemas da ação revolucionária, ambos lançados pela Editora UNESP.

Mas por que escolher um acontecimento de quase um século atrás para iniciar um texto sobre Black Bloc? Justifico: trata-se do marco zero da avaliação da esquerda partidária em relação aos que podemos chamar de “Blocos Autônomos”. Os dissidentes radicais de esquerda sempre tiveram que conviver com os adjetivos pejorativos e serem constantemente desvalorizados em suas ações práticas e avaliações de conjuntura.

O ponto é: Lênin estava completamente equivocado em sua análise, incapaz de perceber que, ao contrário do que acontecia na Rússia, a Revolução Alemã fracassava a olhos vistos, pavimentando o caminho para a barbárie. As doenças da esquerda, então, devemos corrigir com o aprendizado das derrotas do último século, são a burocracia, a hierarquia e a disciplina, tão bem praticadas pelo Partido Bolchevique. E, terminando esse meu aparte inicial, me parece que boa parte da esquerda partidária hoje comete o mesmo erro quase um século depois com os “Blocos Autônomos”: desvaloriza-os, desqualifica-os.

Antes de entrar no livro do Dupuis-Déri, gostaria de também fundamentar minha motivação em ler o livro e, agora, escrever essa curta resenha, em meio a tantas obrigações acadêmicas. Em primeiro lugar, nunca fui filiado a nenhum Partido, embora sempre com incontáveis convergências com o campo da esquerda radical. Assim, em minha militância nos tempos de graduação, sempre estive próximos de grupos autônomos, independentes em relação aos partidos. Cito dois: primeiro o Movimento Resistência e Luta (MRL), agrupamento político responsável por muitas mobilizações nas duas maiores universidades sergipanas, principalmente entre 2006 e 2008 mais ou menos e também responsável por ter formado toda uma geração ótima de militantes que até hoje é influente; segundo o Movimento Passe-Livre (MPL), um movimento horizontal e apartidário, que fez excelentes jornadas de luta, em especial entre 2005 e 2010 aproximadamente; a história desses dois movimentos se confudem.

De certo modo, quando os Black Blocs entraram na cena política brasileira há quase um ano, não posso negar que senti uma espécie de afinidade afetiva para com eles, parecia que me lembrava de algo que não sentia há algum tempo, mas que ainda continuava dentro de mim. E quando, por motivos acadêmicos, pude estar próximo a eles em 2013 no Rio de Janeiro, tive a certeza de que, novamente, por não compreender o que estava acontecendo, a esquerda novamente usaria esquemas e slogans, tratando como infantis aqueles que expressam a verdade do momento histórico atual.

Les Black Blocs: la liberte et l’egalité se manifestent, publicado pela primeira vez em 2003 na França, tem, agora, na tradução de Guilherme Miranda e edição da Veneta, uma versão em português, contanto com 261 páginas. Optaram por retirar o subtítulo – algo como “a liberdade e a igualdade se manifestando” – e deixaram apenas o título Black Bloc. O autor, Francis Dupuis-Déri, é professor de Ciências Políticas e membro do Instituto de Pesquisa e Estudos Feministas da Universidade de Quebec, em Montreal, Canadá. Autor de vários livros sobre movimentos sociais contemporâneos, anarquismo e feminismo. No entanto, este é seu primeiro livro traduzido para o português. Para apreciação rápida deste autor, ver sua entrevista de 2013 ao Rede Brasil Atual.

O livro de Dupuis-Déri, composto de 6 capítulos, faz uma abordagem fenomênica, digamos assim, isto é, não analisa as condições históricas de possibilidade do Black Bloc, orienta-se mais pela descrição de eventos e, em alguns momentos, faz defesas do movimento. Trata-se, em uma palavra, de uma espécie de história interna ao movimento. Como ele diz na página 31 da edição portuguesa: “o objetivo [do livro] é, antes, encontrar as origens do fenômeno, examiná-lo com base nas ações dos Black Blocs, muitas das quais observei em primeira mão, comunicados, entrevistas realizadas com participantes (…)”. O livro é rico em acontecimentos e referências.

O primeiro capítulo – Quem tem medo dos Black Blocs? – é a introdução/apresentação do livro. O autor sublinha o fato de os Black Blocs serem agrupamentos pontuais, algo como forma específica de ação coletiva ou tática que consiste em formar um bloco em movimento no qual as pessoas preservam seu anonimato. Seu principal objetivo é, segundo o autor, indicar a presença de uma crítica radical ao sistema econômico e político, além de fortalecer a capacidade de resistir aos ataques da polícia contra a população. À crítica comum de que os Black Blocs não fornecem respostas incisivas sobre a derrubada do capital, o autor diz: “O Black Bloc não é um tratado de filosofia política, muito menos uma estratégia. É uma tática. Uma tática não envolve relações de poder globais, nem tomadas de poder, tampouco tenta se livrar do poder e da dominação. Uma tática não envolve uma revolução global” (p. 11).

Há uma ideia legal, mas pouco trabalhada pelo autor, que consiste em dizer que o tipo de ação dos Black Blocs entra no espetáculo midiático, na medida em que produz um contraespetáculo. Seria interessante entender como isso funciona, bem como a sua eficácia. Mas o autor simplesmente joga isso no ar. Para além disso, Dupuis-Déri comenta a estratégia argumentativa comum na crítica conservadora aos Black Blocs: eles seriam vândalos, destituídos de qualquer racionalidade política. Fãs de caos, viciados em adrenalina, jovens extremistas e assim por diante. Elenca, também, a estratégia comum à esquerda: os Black Blocs seriam denunciados por sua “insensatez infantil” ou “tática imatura e pouco construtiva”, tal como ensinou Lênin.

O segundo capítulo – De onde vêm os Black Blocs? – tenta contar a história do movimento. Escolhe iniciar pelo movimento feminista suffragettes no início do século XX, passando Maio de 1968, pelos autonomistas e movimento antiglobalização. Propõe que essa tática foi usada como hoje acontece (capuzes pretos, agasalhos pretos, calças pretas, bandeiras libertárias etc.) pela primeira vez em 1980 na Berlim Ocidental pelo movimento autonomista. Em relação à organização interna, o autor menciona os grupos de afinidade, compostas por amilitantes, o qual designa, ao mesmo tempo, ativistas que se opõem ao conceito tradicional de militante pautado na lealdade à organização (aqui o prefixo a significa negação desse modelo de prática emancipatória) e, também, a ênfase do componente da amizade como determinante nesse modo de fazer política. Um grupo horizontal, sem as amarras burocráticas próprias do centralismo democrático vertical, talvez apenas se mantenha pela amizade.  Pensar a relação entre amizade e política pode parecer hoje estranho, já que a primeira se tornou algo restrito à esfera privada e a segunda algo repleto de estratégias. Mas os melhores espaços em que amilitei foi onde mais do que pessoas engajadas em transformar mundo, existiam grupos de amizade atuando juntos.

Dupuis-Déri também elenca uma série de tipos de Black Blocks: Red Bloc [Bloco Vermelho], composto por comunistas; White Bloc, originado na Itália, conhecido também como Tute Bianche [Todos de Branco], próximo do comunismo, trabalhadores desempregados e dos Zapatistas; Book Blocs [Blocos de Livros], formado durante as mobilizações estudantis na Itália e Grã-Bretanha, que consistia em firmar uma linha de defesa durante uma manifestação, usando escudos feitos à mão na forma de livros, com títulos de clássicos da literatura mundial, como Dom Quixote, 1984, Os Demônios (de Dostoiévski) etc.  

O terceiro capítulo – Violência política – procura investigar o problema da violência no interior do anarquismo e através da perspectiva comparada com relação ao cristianismo, os conservadores e os comunistas. Além disso, o autor entende que para os Black Blocs o alvo é a mensagem. Assim, eles não atacariam centros comunitários, bibliotecas públicas ou “pequenas empresas independentes” (seja lá o que isso signifique), mas sim alvos emblemáticos do capitalismo, onde as ações tem o poder de quebrar a imagem indestrutível e inquestionável do capitalismo. Seria então algo como uma “propaganda pela ação”, uma “violência performativa”. O capítulo também analisa a diversidade tática dos Black Blocs.

O quarto capítulo – As origens da raiva contra o sistema – procura rebater o argumento segundo o qual os Black Blocs são expressões de fúria cega, composto por jovens apolíticos e irracionais. Ele retoma a ideia de George Katsiaficas de “racionalidade emocional”. O ponto é questionar a exclusão mútua entre razão e emoção no campo da política, afirmando a ação política como produto também da emoção, esta podendo advir, neste caso específico, da forte sensação de frustração originada da experiência num sistema econômico e político injusto, violento e letal. A emoção não seria, então, algo particularizado, mas sim uma sensação situada no contexto econômico e político específico.

O quinto capítulo – Críticas aos Black Blocs: fogo amigo? – Dupuis-Déri elenca três grandes críticas ao movimento: a) o fetichismo da violência, onde o uso da força seria uma forma pura de ativismo radical, politicamente superior às outras. Isto pode ocasionar, segundo o autor, que a ação direta violenta se torne um meio através do qual o futuro militante afirme sua identidade política aos olhos de outros, fazendo com que seja tentador para essa pessoa desprezar e excluir quem não se iguala radicalismo à violência; b) forma de ação sexista: alguns críticos argumentam que o tipo de ação brutal tem um quê de atmosfera de masculinidade que não estimula as mulheres a participar. Não entendi muito bem esse ponto; e c) realizar um antagonismo com a classe trabalhadora, retirando a atenção das exigências legítimas de grandes movimentos sociais não violentos. A questão seria que a tática Black Bloc impede que o público e as elites ouçam as mensagens legítimas de organizações progressistas.

Gostaria de terminar esta resenha avaliando este último ponto. O argumento contrário é o de que a mídia vai em busca de imagens de violência para convencer a chamada opinião pública de que os Black Blocs são vândalos e boa parte dos movimentos sociais que não se adequam ao esquema vertical de negociações de gabinete também o são. O problema dessa avaliação é a proposta de que, em movimentações sociais públicas, os Blocos Autônomos devem estar de fora. Ora, essa narrativa de que a manifestação é um espaço privado, passível de ser “invadido” pelos Black Blocs é contraproducente do ponto de vista da esquerda, apenas uma “esquerda que a direita gosta”, como bem disse Alexis Pedrão, pode endossar esse tipo de raciocínio. Toda manifestação de rua é pública, podendo fazer parte dela qualquer agrupamento social solidário aos sofrimentos ali colocados. Além também de supor que a “opinião pública” é um segmento uniforme e homogêneo, desconsiderando a importância de veículos alternativos de informação.

Por fim ainda há aquela acusação segundo a qual os Black Blocs não respeitam o processo democrático. Novamente, o autor responde que o pressuposto desse tipo de acusação é uma visão dominante segundo a qual um movimento social deve ser unificado e avançar em uma única direção determinada por líderes esclarecidos confortavelmente instalados na chefia de organizações que são, em tese, “responsáveis”, “democráticas”, e “representativas” da “sociedade civil” como um todo. Os Blocos Autônomos estão fora desse jogo democrático, no sentido de que são contra personalidade respeitáveis, representatividade verticais etc.

Na Conclusão do livro, Dupuis-Déri reflete acerca dos problemas da repressão policial ao Black Bloc, em especial às infiltrações, entendendo que eles são vulneráveis aos agentes provocadores. Analisa também o fato de que o “elemento surpresa” de algum modo se perdeu no Black Bloc e suas ações se tornaram previsíveis, bem como o procedimento-padrão das polícias em todo o mundo de realizar prisões em massa sempre antes dos atos públicos (o que certamente acontecerá durante a Copa do Mundo no Brasil), uma vez que os Black Blocs são facilmente identificados. O final do livro ainda conta com uma seção de Sugestão de Leitura com mais de uma dezena de livros sobre o tema. Por algum motivo ele não menciona neste momento o clássico livro de George Katsiaficas, chamado The subversion of Politcs: European Autonomous Social Movements and the Decolonization of Everyday Life.

Li o livro em dois dias, isso significa que o livro é de fácil leitura, muito bem escrito e agradável. Claro que o fato de o tema ser muito atual ajuda. O único “senão” que eu faria ao livro é a ausência de uma análise sobre a atual situação do capitalismo, isto é, sua crise estrutural, que leva os jovens atualmente a perceber que o futuro não existe para eles (os altos índices de desempregos europeus não são mencionados com o devido vagar no livro); e também o processo de destituição da classe operária e do Partido como vanguardas capazes de expressarem o descontentamento da imensa maioria da população, além de não se constituírem mais como pontos a partir dos quais o capitalismo se desfaz. Porém, admito que esse “senão” vem muito mais da leitura que faço desses dois tópicos – entendendo que são centrais para qualquer avaliação atual – do que alguma deficiência do livro. Finalizo com uma boa declaração sobre Black Bloc:

Vocês querem ver os rostos por trás dos lenços, capacetes e máscaras? São os mesmos rostos que pagam aluguel para vocês por casas abandonadas; os rostos que vocês veem quando pedem para assinar contratos de trabalho de um salário mínimo […] São os rostos que submetem propostas de dissertação e são obrigados a fazer referências aos seus textos monótonos […] eles fazem seu cafezinho com espuma […] São aqueles cujo sangue está sendo drenado pela insegurança financeira, que levam vidas de merda e que estão cansados de aguentar isso.

 (Quem é o Black Bloc? Onde está o Black Bloc?, comunicado lançado em 2010 pelo Coletivo Universidade Autônoma da Itália)

 *Leomir C. Hilário é colaboradora da REVER e doutorando em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

 

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