Higiene étnica e social – Todo dia nas ruas de Ará

Iunes
A cultura da repressão tem patente e uniforme

Ítalo Bruno, enteado do secretário de segurança pública João Eloy, foi preso em flagrante por roubo e porte de armas. Já está solto. Um inquérito deve ser aberto pela Delegacia de Turismo, mas todo mundo sabe como a história vai terminar.

 

*por Rian Santos

 Há dois anos, quando empossou o Coronel Iunes no Comando Geral da Polícia Militar de Sergipe, o governador Marcelo Déda não poupou adjetivos. “Um homem afeito ao trabalho das ruas”. O eufemismo é digno do orador eleito sob a égide de uma revolução pressentida no vento. Ocorre que as marcas de tamanha dedicação, muito profundas, ficaram gravadas no lombo dos mais pobres. Você pode não lembrar quem é o coronel Iunes, mas os moradores do Pantanal certamente não o esquecem.

 A lógica da carta branca concedida sob o pretexto de tantos elogios não era nova. A cultura que elege a repressão como estratégia privilegiada de combate à criminalidade, responsável por boa parte das covas rasas abertas por aí, no entanto, ganhava patente e uniforme. O resultado foi percebido em cada esquina da cidade.

 Não por acaso, alguns dias depois, o músico Cláudio Miguel (Grupo Cata Luzes), então presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SE, foi algemado e empurrado dentro de um camburão depois de meter o nariz onde não foi chamado. Nem crime, nem pecado. Cláudio Miguel se meteu a amparar o autor de uma barbeiragem num posto de gasolina e acabou humilhado numa delegacia. Pode parecer forçado relacionar os dois episódios, mas o fato é que eles se sucederam numa sequência coerente e muito reveladora. Sob o comando de Iunes, os meganhas estavam autorizados a constranger os direitos de quem fosse.

 Um legalista ao sabor das circunstâncias

 Nada como um dia depois do outro. Esta semana, um novo episódio deu relevo à higiene étnica e social em curso nas ruas de Ará. Desta vez, por força do contraste. Ítalo Bruno, enteado do secretário de segurança pública João Eloy, foi preso em flagrante por roubo e porte de armas. Pouco tempo depois, ele e um comparsa foram liberados como se nada tivesse acontecido. Um inquérito deve ser aberto pela Delegacia de Turismo para investigar o ocorrido, mas todo mundo sabe como a história vai terminar.

 A entrevista coletiva concedida pela SSP para explicar o impossível foi pontuada por evasivas. Nenhuma novidade, além da postura adotada pelo coronel Iunes. Segundo ele, o secretário em pessoa teria determinado que se cumprisse a Lei. Ninguém nunca o tinha surpreendido falando tão fino.

 Não é preciso lembrar as arbitrariedades praticadas contra os moradores do Pantanal, durante operação comandada pelo Coronel Iunes, para lembrar sua aversão às veleidades jurídicas. Denúncias de violência física e verbal foram berradas aos quatro ventos. Ninguém se deu ao trabalho de negar. Para a Polícia, o Pantanal era lugar de traficante. Simples assim.

 Esta não foi, contudo, a última oportunidade em que a truculência do coronel ganhou as páginas dos jornais, mensurando o tamanho de seu apego à letra morta da Lei. Cárcere privado, tortura e espancamento foram os argumentos utilizados para convencer um rapaz a se afastar de sua filha. À época, o coronel foi afastado de suas funções. Deu em nada. A poeira baixou e o governador em pessoa, aquele da tal revolução, que Deus o tenha, fez questão de premiar os serviços prestados em nome da ordem. Além de pacificar a tropa, num papoco de insubordinação crescente, caberia ao novo comandante dar um basta na criminalidade, a qualquer custo.

 Dito e feito. Para alguns, a Lei. Para a maioria, nem isso.

 

*Rian Santos é jornalista.

 

 

5 comentários sobre “Higiene étnica e social – Todo dia nas ruas de Ará

  1. Apesar de tentar argumentar, sem provas, sobre uma suposta “limpeza” étnica e social, a preocupação do autor do texto foi tentar denegrir a imagem de Iunes.

  2. Até gostei das denuncias, embora estranhe o fato de citar muito por cima o caso do filho do secretário , que no início parecia ser o foco da sua matéria, ficou parecendo que é pessoal, imparcialidade zero.

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