“Não tenha vergonha, seu filho também usa maconha”

 medicina

É preciso entender o que envolve a construção social e cultural do que pode ser considerado uma “droga” e, mais ainda, “ilícita” – principalmente em uma sociedade que já é considerada a “Geração Rivotril”

*Por Priscila Viana

O uso medicinal da cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha, se tornou o maior ponto de reivindicação da Marcha da Maconha, realizada em vários estados brasileiros, e quebrou as portas da hipocrisia ao trazer à tona o polêmico e controverso debate a respeito do direito à vida. Se, de um lado, a sociedade brasileira ainda é regida por uma legislação proibicionista no tocante às drogas sob a máxima de que “drogas matam”, por outro, acompanhamos a reivindicação de mães e pais que lutam para garantir a prescrição e comercialização de medicamentos à base de canabidiol (CBD), substância encontrada na planta da maconha e utilizada para aliviar crises de epilepsia.

A sétima edição da Marcha da Maconha no Rio de Janeiro se destacou, entre outros motivos, pela ala especial destinadas aos pais de crianças que fazem uso desses medicamentos à base de CBD no tratamento contra a epilepsia e que reivindicam a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a importação e administração da substância para salvar a vida de seus filhos. Algumas mães já se reúnem até mesmo para criar uma associação para fortalecer a luta, ideia liderada pela advogada Margarete Brito, mãe de Sofia, de cinco anos, que sofre de uma síndrome rara denominada CDKL5 e medicada – com resultados positivos – à base da polêmica substância.

Em Aracaju, a Marcha da Maconha reuniu centenas de homens, mulheres e famílias com seus filhos, pedindo uma sociedade mais pacífica e menos militarizada e proibicionista. Enquanto a guerra às drogas continuar matando, todos os nossos filhos estarão sujeitos a serem mais uma vítima não das drogas, mas da guerra militarizada que se legitimou no Brasil como solução. Para compreender que as ações militarizadas contra as drogas não são a solução – e sim a causa das mortes de tantas famílias – é preciso sair de uma vez do senso comum e encarar de maneira mais aprofundada um tema tão amplo e cheio de controvérsias.

É preciso entender o que envolve a construção social e cultural do que pode ser considerado uma “droga” e, mais ainda, “ilícita” – principalmente em uma sociedade que já é considerada a “Geração Rivotril”. O uso religioso e espiritual da cannabis é considerado absolutamente normal em grupos hinduístas, budistas e rastafáris. A quantidade de produtos que podem ser fabricados à base da maconha é extensa, desde alimentos (pães, óleos, manteigas, leite de hemp antialérgico etc.) e cosméticos (shampoos e cremes) até roupas (a fibra de cânhamo é altamente resistente e pode ser utilizada com custos reduzidos).

O uso recreativo até dispensa explicações – trabalhadores, desempregados, homens, mulheres, idosos de todo o mundo fumam maconha desde que existe um fator chamado: humanidade. Em apenas um mês, entre fevereiro e março deste ano, o estado americano do Colorado passou a arrecadar cerca de R$ 2,01 milhões de dólares (o equivalente a 4,6 milhões de reais) de impostos relacionados ao consumo legal de maconha – dado que mostra a magnitude do uso recreativo da cannabis e, mais ainda, o potencial de arrecadação de impostos que a planta traz quando comercializada legalmente.

Ora, mas se maconha é droga e droga mata, por que então agora ela salva vidas? A grande questão aqui é que, como qualquer planta natural, a maconha pode trazer complicações em casos de uso abusivo, bem como no caso de qualquer medicamento legalizado. No entanto, muitos dos malefícios atribuídos a ela nunca foram comprovados, ao contrário dos benefícios.

Essas informações, completamente deturpada pelos meios de comunicação, concentrados nas mãos de poucas famílias conservadoras e religiosas, e de governos regidos pela preocupação com o tom moralista das eleições, vem à tona cada vez mais forte, e com base em evidências científicas. O que mata é a rede de tráfico, fortalecida pela legislação proibicionista e por um Estado presente em ações militarizadas, mas ausente de políticas sociais e de regulação.

O que mata trabalhadores negros e moradores da periferia como Cláudia Ferreira e Amarildo Dias todos os dias é a legitimação social da guerra às drogas, que já tem dado todas as provas não só de sua própria ineficácia, como também de que é atualmente a maior estratégia de higienismo social de jovens negros e pobres no Brasil. Em um contexto regido pelo crescimento da bancada parlamentar evangélica, pelo fortalecimento das redes religiosas conservadoras em outros âmbitos e pela incapacidade da mídia em fortalecer um debate qualificado, parece utópico falar em legalização das drogas.

No entanto, é hora de encarar de frente a raiz do problema. Os filhos com epilepsia precisam da liberação do canabidiol para aliviar suas crises. Os filhos das favelas morrem todos os dias por conta de uma guerra insana e de uma legislação que só envia jovens negros e pobres aos presídios. Os filhos da classe média consomem maconha escondidos, porque são beneficiados pela criminalização que não os atinge e pela certeza de que não serão mais um a serem levados pelo “camburão negreiro” da polícia. Se você é contra as drogas, tem o direito de não usar. Mas não tem o direito de impedir que vidas sejam salvas e de permitir que vidas sejam tiradas por uma guerra que não tem nenhuma justificativa plausível. Seus filhos, nossos filhos usam maconha, seja comercial, recreativa, industrial ou terapeuticamente. E é preciso legalizar, para que eles não morram.

*Priscila Viana é jornalista – e mãe.

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