Transporte público em Conquista: problemas, revoltas e o direito à cidade

conquista

A última semana em Conquista foi marcada pela mobilização dos rodoviários e discussões em torno do aumento da passagem. Nesta reportagem, conheça um pouco do contexto em que surge o novo sistema de integração e os problemas da mobilidade urbana conquistense

*por Ana Paula Marques,
André Thibes,
A.J. Oliveira e
Rafael Flores

 Históricas manifestações em torno da mobilidade urbana já foram puxadas pelos movimentos estudantis de Vitória da Conquista, e as mais lembradas aconteceram em 2005 e 2011. A “Revolta do Busu”, como foi apelidada essa série de manifestações, tinha dentro de suas reivindicações o direito à meia tarifa para estudantes durante as férias, a garantia de novas licitações e a implantação de dois novos guichês de recarga.

Nos dois anos citados houve aumento da tarifa de ônibus. Mas o que havia mudado no funcionamento e principalmente na qualidade do sistema para justificar esse valor mais alto? Na verdade, as principais insatisfações dos estudantes de 2005 e 2011 permanecem vivas hoje em dia, incluindo as constantes quebras dos carros e a grande demanda de passageiros em horários de pico.

Ainda em 2011, nas reuniões do Conselho Municipal de Transportes – formado por representantes do poder público, do Orçamento Participativo, da Associação Unificada de Moradores, das empresas privadas de transporte coletivo e do Movimento Secundarista – foi discutida uma série de propostas. A principal pauta naquela época era o edital do processo de licitação para a reorganização do sistema de transporte coletivo, que pontuava alguns aspectos como conhecimento prévio da área da cidade, parâmetros e índices técnicos (número de deficientes físicos, idosos, etc.) e um projeto de mobilidade urbana, qualificando o transporte de acordo com a necessidade da população.

O edital também previa a renovação e ampliação da frota de ônibus e a implantação do sistema de bilhete único. Na ocasião, apenas quatro cidades em todo Brasil tinham implantado esse sistema. Em todas elas, porém, os governos locais concederam subsídios às empresas com o objetivo de conter a elevação do custo da tarifa. Outra proposta discutida naquele ano era a de colocar micro-ônibus nas rotas mais curtas, para atender a demanda de passageiros.

O bilhete único chegou. Implantado no final de março, o Sistema de Integração Tarifária (SIT) não está presente em todas as linhas e a integração só pode ser feita dentro de um período de 90 minutos entre o primeiro e o segundo embarque. Logo nos primeiros dias, passageiros já reclamavam por não conseguir utilizar o serviço.

Segundo o coordenador municipal de transportes Daniel Botelho, a prefeitura orientou a fiscalização para receber as denúncias dos usuários que não conseguiram realizar a integração. “A integração é feita apenas para um sentido de viagem. Onde tem a linha direta não tem necessidade de integração. Se algum passageiro quiser informações sobre quais linhas que podem fazer a integração no seu bairro, ele pode entrar em contato com a nossa fiscalização no Terminal da Avenida Lauro de Freitas”, afirmou.

O Terminal da Avenida Lauro de Freitas possui três postos de fiscalização, sendo um de cada empresa e um da prefeitura. Lá o passageiro pode fazer denúncias por atraso, viagem não realizada, entre outras, além de consultar horários.

Ainda segundo Botelho, Vitória da Conquista tem uma média de 2 milhões e meio de passageiros por mês. Com a integração, a estimativa é que esse número aumente em torno de 2 a 3% no número de passagens registradas.

O SIT também dá a possibilidade de fazer a venda via web. “Como o sistema integrado está iniciando, a prefeitura ainda está acompanhando. Leva um período para que o sistema amadureça e se torne mais eficiente para, a partir de então, possibilitar novos avanços como a venda via web e a recarga a bordo do ônibus”.

Com o novo edital em vigência, o início das atividades da viação Cidade Verde trouxe para o nosso sistema de transporte melhorias reconhecidas pela população. Mais de 90% da frota já é adaptada com elevador hidráulico e espaço para cadeirante, por exemplo. Além disso, ele garante a implantação de mais dois postos de vendas na cidade, fora do centro. “Esses dois novos postos serão discutidos no Conselho de Transportes, como quais serão os locais onde eles serão implantados”, declarou o coordenador.

Mas a situação atual do transporte público em Conquista ainda é de turbulência. Apesar de não ser uma decisão oficial, um novo aumento no preço da passagem de ônibus tem sido discutido entre prefeitura e empresas, sob a justificativa de que os impostos e outros custos aumentaram. “Há três anos que não existe aumento na cidade”, disse em entrevista ao Blog do Rodrigo Ferraz o secretário de Mobilidade Urbana Luis Alberto Sellmann, como se o reajuste devesse ser uma rotina.

Paralisações

conquista 2

Já os rodoviários, insatisfeitos com suas condições atuais de trabalho, realizaram paralisações diárias nas últimas duas semanas. A reivindicação principal foi um aumento salarial de 10%. “As empresas simplesmente se recusam a se sentar à mesa com os trabalhadores para negociar melhores salários”, contou Álvaro Silva Souza, presidente do Sindicato dos Rodoviários. “Elas fizeram uma proposta inicial e querem que fique nessa proposta. Nós não. Nós queremos buscar uma proposta de um salário mais digno e também um plano de saúde para os trabalhadores, coisa que a empresa não quer”.

O plano de saúde foi o segundo ponto de pauta. Algo essencial porque, segundo o presidente do sindicato, as condições de trabalho dos rodoviários são precárias. “As cadeiras em que eles se sentam não têm uma mola”, exemplificou Souza. “Quando o ônibus passa por qualquer lombada ou buraco, não tem nada que amorteça e eles sentem todo o impacto na coluna. A maioria dos rodoviários sofre com problemas de coluna. E a maior parte das cobradoras sofre com problemas de infecção urinária, porque no trajeto de suas viagens elas não têm tempo nenhum para poder descer e fazer suas necessidades fisiológicas, depois ficam lá até as 21h00 sentadas naquelas cadeiras. Então é uma série de consequências trazidas à saúde. Também tem questões de pressão, problemas do coração, obesidade mórbida… tudo causado pela alimentação inadequada que eles têm por não ter uma hora certa para se alimentar”.

Os rodoviários também reivindicaram que o valor do seu ticket alimentação passasse de R$ 180,00 para R$260,00. As empresas ofereceram um aumento menos vantajoso (saiba mais no quadro abaixo). A população demonstrou estar ao lado dos rodoviários, mesmo sendo prejudicada pela falta de ônibus. “Essas paralisações estão chatas, mas eles têm o direito de reivindicar”, reconhece Luciano do Santos, trabalhador autônomo.

As paralisações ocorreram três vezes por dia, nos horários de pico. Pela manhã, os ônibus foram direto para a garagem, circulando a partir das 08h00. Depois pararam novamente às 11h00, voltando às 14h00, e à tarde entre às 16h00 e às 19h00 também ocorreram paralisações. De acordo com decisão judicial, 50% da frota deveria  permanecer ativa. O sindicato buscou recorrer para que esse número caísse para 30%. As empresas ofereceram um reajuste de 7% dos salários, ticket alimentação de R$ 234,00 e ajuda no pagamento do plano de saúde. Em alguns momentos dos últimos dias, os rodoviários promoveram catraca livre nos ônibus, permitindo que os passageiros viajassem de graça

Após os dias turbulentos de constantes paralisações, o sindicato anunciou uma trégua, pelo menos até a próxima quarta-feira (4), quando estará em mais uma rodada de negociações com as viações Cidade Verde e Vitória. “As empresas nos pediram um tempo e vamos aguardar até a quarta-feira. Caso não atendam nossas reivindicações, retornaremos às paralisações”, informou o presidente do sindicato, Álvaro Souza Dias, para o Blog do Anderson.

Transporte alternativo

Naturalmente, a situação atual dos ônibus criou uma procura maior pelo serviço das vans. E os motoristas desse tipo de transporte também têm suas reclamações, mas elas são de outro tipo. “O Simtrans (Sistema Municipal de Trânsito) pega no pé da gente”, lamenta Maurício Batista dos Santos, motorista de van há seis meses. “A gente que é pai de família tem que trabalhar e a maneira que arrumamos foi essa. Espero que eles tomem uma providência e deixem a gente trabalhar em paz”.

“Eles querem nos impedir de uma coisa que a gente adquiriu”, continua ele. “Devido ao fluxo de carros, eles poderiam ser mais compreensivos e nos deixar mais à vontade. Se tiver que pagar alguma coisa a gente paga, se tiver que cobrir alguma coisa a gente vai cobrir. Aí chegamos a um acordo”, afirma.

Fora a fiscalização, os motoristas têm que encarar as dificuldades do trânsito da cidade, que tem um fluxo de carros cada vez maior. Eles trabalham das 6 da manhã até às 6 da noite, levando uma quantidade de passageiros sempre variável. Como forma de apoio, eles têm um sindicato que costuma ajudar apontando opções mais em conta de produtos como combustível e peças. “O sindicato é um ajudando o outro”, resume Santos.

Os motoristas garantem ter todo o cuidado possível com o bem estar dos passageiros. “Tem que andar com o carro limpo, conservado, se tiver alguma coisa tem que dar manutenção, e assim sucessivamente”, diz Wilker Silva Prado, outro “vanzeiro”. “Acusou alguma coisa, a gente mexe logo. Não deixa para outro dia, não”.

Direito de ir e vir

Toda essa discussão nos direciona o olhar para um ponto crucial na nossa sociedade: a mobilidade urbana. O direito de ir e vir é necessário para a manutenção de várias outras garantias previstas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Para entender melhor: o cidadão tem o direito de ter acesso à saúde, à educação e a outros serviços sociais. Mas como ter isso tudo sem a possibilidade de se locomover até o local onde esses serviços são oferecidos?

O Sistema Único de Saúde (SUS), por mais precário que seja, é gratuito. Mas até essa característica se perde se não há possibilidade de locomoção. O mesmo vale para a escola e a educação em geral.

Art. I – Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade

Algumas pessoas concentram uma quantidade maior de renda em cima daqueles que tem menos oportunidades. Os serviços sociais oferecidos pelo Estado são cada dia mais precarizados, enquanto a iniciativa privada se fortalece muitas vezes com o capital público que faz falta aos serviços públicos. Quando isentamos os impostos cobrados na compra e venda de automóveis, a exemplo da redução de I.P.I., estamos fortalecendo a compra do automóvel particular com um dinheiro que poderia estar sendo usado para investir nos transportes coletivos. É a lógica do individualismo exacerbado.

Art XIII – 1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado. 2. Toda pessoa tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.

Se o preço da passagem continua a subir, não adianta ter show na praça e curso livre profissionalizante, dói no bolso pegar ônibus caro e ser humilhado pela superlotação. Os direitos mínimos precisam ser repensados e a cidade precisa se construir de fora pro centro, pensando em sua população e não em seus empresários.

 

*Ana Paula Marques, André Thibes, A.J. Oliveira e Rafael Flores são jornalistas da Revista Gambiarra

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s