Combate à violência contra a mulher – ausência de recursos ou de prioridades?

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Sergipe sobe no ranking brasileiro da violência e coleciona caso de homicídios femininos. Marcha das Vadias partirá para denuncia no dia 14 de Junho.

*por Bárbara Nascimento

 Não é raridade o fato de as mulheres serem estampadas em capas de jornais e portais de notícia. O assunto também não é novidade para ninguém, a maioria dos casos é de violência e feminicídio. Mulheres sergipanas têm suas vidas interrompidas ou invadidas diariamente.

 Esse cenário de retrocesso e terror – que envolve violência doméstica, estupro e assédio em espaços públicos e privados – faz com que seja cada vez mais necessária a organização de um movimento de mulheres contestatório que rompa com as barreiras da opressão.

Sergipe despontou no ranking da violência e hoje é considerado estatisticamente o 6º estado mais violento do país, segundo o Mapa da Violência divulgado em maio. O homicídio feminino também cresce e parece haver um descompasso entre uma realidade violenta e a escassez de políticas públicas, sobretudo, em áreas periféricas.

 Contrariando os anseios da população, principalmente das mulheres pobres – pois a ausência de autonomia financeira implica diretamente em uma relação de dependência com os agressores, daí que as denúncias não são levadas a cabo, por exemplo – temos hoje em nosso estado pouquíssimo investimento no quesito políticas públicas para as mulheres. Aliás, a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SEPM), que está vinculada à Secretaria de Segurança Pública, também não dispõe de financiamento próprio.

 Essa constatação não diz respeito à ausência de recursos, mas de prioridades. Faltam delegacias especializadas de atendimento à mulher, falta capacitação dos profissionais que atendem as mulheres que sofreram ou sofrem algum tipo violência, faltam creches, maternidades e postos de saúde, campanhas educativas e de combate ao machismo, casas-abrigo para receber mulheres em situação violência doméstica – há apenas uma em todo o estado, e, aliás, é da Prefeitura de Aracaju Mas não falta verba para investimentos em infraestrutura com a Copa do Mundo: já foram gastos 15 bilhões com a reforma do Estádio Batistão e o orçamento previsto até 2016 é de 240 milhões para reformas de complexos esportivos.

 É importante destacar que megaeventos como a Copa, para além dessas contradições do campo econômico, reforçam relações opressivas como a exploração sexual de crianças e adolescentes e a prostituição. Meninas e mulheres serão submetidas ao turismo sexual e não vemos uma preocupação por parte dos gestores públicos. Aliás, a prostituição é lugar-comum de 90% das mulheres trans e das travestis, que alijadas de casa, da escola e da sociedade, são jogadas para as ruas.

 A negação de direitos, a ausência de políticas e os números alarmantes de violência por conta do gênero têm como resposta a efervescência de ações feministas. Nos últimos anos, o centro de Aracaju tem sido palco de uma dessas manifestações, a Marcha das Vadias, que sairá às ruas no dia 14 junho.

 Ao contrário do que nome possa sugerir no imaginário popular, essa manifestação feminista carrega o termo vadia exatamente para negar imposições e reafirmar o lugar da mulher na história. O movimento surge em 2011 no Canadá em resposta à culpabilização das vítimas de estupro. Mulheres são chamadas de vadia quando denunciam o assédio que sofrem nos postos de trabalho, quando se divorciam, quando respondem às cantadas nas ruas, quando não ficam restritas ao espaço do lar.

 O machismo enraizado na vida homens e mulheres só é passível de combate se entendermos que é preciso transgredir, não silenciar diante das ordens e tampouco recuar dos nossos sonhos. É com esse espírito que as mulheres têm se organizado e aos poucos a roda daquelas que lutam por igualdade de direitos se expande. As mulheres querem ocupar espaços públicos e não estampar capas de jornais com marcas de violência e sangue.

 *Bárbara Nascimento é jornalista, militante do Coletivo de Mulheres de Aracaju e organizadora da Marcha das Vadias.

 

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