Entrevista com Cid Benjamin: “A luta armada foi legítima, mas foi uma opção incorreta”

10376947_10203510567581957_3334856767643437687_naaaEx-guerrilheiro, torturado, exilado e militante da memória, Cid Benjamin lança livro sobre a sua militância durante a Ditadura Militar, e conta sua história em entrevista

*por Andrew Costa
e Karina Lopes

“Participou de diversos movimentos estudantis na Faculdade. Era da segurança pessoal de Vladimir Ribeiro na Passeata dos 50 mil e dos 100 mil, conhecido por ser ótimo lutador de judô. Em fins de 1969, ingressou na Dissidência Estudantil da Guanabara indo para a Frente do Trabalho Armado. Tomou parte no ilegal 30º Congresso Nacional dos Estudantes realizado em Ibiúna/SP. Aliciou para subversão o seu irmão menor de 16 anos de nome César de Queiroz Benjamin. É um dos mais perigosos elementos da referida Dissidência devido a sua grande periculosidade”.

Assim era definido Cid Benjamin pelos militares através de documento organizado pela Secretaria de Segurança Pública da Guanabara. A redundância da última frase do documento, inclusive, virou piada contada pelo próprio durante palestra em uma semana de jornalismo que discutia a ditadura militar. Bastante discreto e muito calmo, apenas algumas memórias muito específicas são capazes de fazer seu tom de voz subir durante suas falações em público.

Nascido em 26 de Outubro de 1948, pernambucano e filho de militar, Cid deixou sua terra natal muito cedo e encontrou a militância política no efervescente fim dos anos 60. Com o acirramento da ditadura militar trocou os megafones do movimento estudantil pela luta armada e integrou o MR-8, Movimento Revolucionário 8 de Outubro. Junto ao ex-Ministro Franklin Martins e Fernando Gabeira, foi um dos mentores do sequestro ao embaixador dos Estados Unidos para libertar 19 presos políticos e acabou pagando por isso com encarceramento e tortura. Conheceu Argélia, Chile, México, Cuba e Suécia durante seu exílio e ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores nos anos 80. Hoje é filiado ao Partido Socialismo e Liberdade, constrói a Comissão da Verdade no Rio de Janeiro e recentemente lançou um livro com suas memórias intitulado “Gracias a la Vida – Memórias de um Militante”.

Sobre o passado, Cid acha que a luta armada foi legítima mas não optaria por ela novamente. Sobre os dias de hoje, acredita que a juventude deve tomar as ruas como espaço político para além do voto e avalia positivamente as jornadas de junho. Extremamente calmo, faz duvidarmos do seu “perigo devido a grande periculosidade” citado pela gafe militar e gentilmente achou um espaço em sua corrida agenda para nos ceder uma entrevista. O destino dessa vez seria especial, estava embarcando para lançar seu livro de memórias em sua terra natal, onde tudo começou.

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Cid sendo liberto após sequestro do embaixador alemão

 REVER: Cid, conta como foi seu descobrimento da militância política. O fato de você ser filho de um militar e a saída tão cedo de Pernambuco influenciou muito nos seus rumos?

Cid– Bom, a minha saída de Pernambuco foi com dois ou três anos de idade, eu nem me lembro… Eu era filho de militar, mas o meu pai nunca foi uma pessoa conservadora. Ele sempre estimulou muito a leitura e a reflexão política dentro de casa. Minha mãe também era uma pessoa progressista. Então, o fato de eu vir de uma família em que o pai era militar não foi um elemento que inibiu meu interesse político. Além disso eu entrei na universidade em 67, no momento de reorganização do movimento estudantil. Logo em seguida veio 68, que foi um ano muito ativo do ponto de vista do movimento em que me engajei… minha formação política se deu nesse contexto.

 REVER: No momento em que você achou que era hora de assumir a luta armada, por que a opção pelo MR-8 e não outro grupo político? O que você destacaria como essencial em seu processo de lutas dentro do movimento estudantil?

Cid– Olha, quando eu era do movimento estudantil já participava de um partido clandestino, era a dissidência do Partido Comunista. Com o fechamento do regime e depois o AI-5, em dezembro de 68, o movimento estudantil teve muita dificuldade em ir para rua e seguir a luta da forma como estava travando. Muitos líderes estudantis acabaram entrando na clandestinidade e participando de forma ativa na luta contra a ditadura. Uma parcela deles se integrou a organizações políticas, que defendiam a luta a armada e estavam preparando a luta armada. É… e foi o meu caso.

 REVER: Recentemente você lançou seu livro “Gracias a la vida – Memórias de um militante”. Como foi o processo de resgate dessa memória? É fácil conseguir relembrar toda uma história cheia de fatos políticos tão relevantes sem deixar escapar nada?

 Cid – Olha, na verdade eu tenho boa memória! Foi uma experiência muito forte. O livro não é bem uma autobiografia, eu diria que é mais um livro de memórias sobre políticas na qual eu vinha refletindo há muito tempo. Mas quando sentei para começar a redigir foi uma coisa que foi feita em um tempo curto. Quer dizer, em 3 ou 4 meses eu fiz o livro. Mas na verdade ele foi fruto de uma reflexão bem mais antiga e que foi responsável, inclusive, por eu não tê-lo escrito antes. Quando eu me senti mais em condições, sentei e enfim redigi bonitinho.

 REVER: Aproveitando o “gancho” da memória de sua biografia, como você avalia a importância de resgatar a memória de nosso país através do movimento em que atua através da Comissão Nacional da Verdade?

Cid- Olha, isso tem a maior importância! Um país que não conhece a sua história está condenado a repetir seus erros. Então foi fundamental esse processo de resgate de memória. É fundamental esse processo que esta acontecendo agora… Juntou-se ao trabalho da comissão da verdade, comissões nacionais e comissões estaduais. O próprio aniversário de 50 anos do golpe militar acabou ensejando muito debate, muita reflexão… esse processo todo me parece essencial para que a gente possa virar a página efetivamente e solidificar, amadurecer, uma democracia. Eu vejo de forma muito positiva esse resgate da memória histórica pelo qual o país está passando.

Time do PT contra o Politheama do Chico Buarque
Time do PT contra o Politheama do Chico Buarque

 REVER: Algumas declarações suas a meios de comunicação deixam claro que seu posicionamento à luta armada hoje é bastante crítico. Você teria feito algo diferente em relação ao sequestro do embaixador ou outra ação?

Cid- Olha… eu tenho afirmado que a luta armada foi legitima. Contra o regime de opressão é legitimo se levantarem, inclusive em armas. Desse ponto de vista eu não tenho uma autocritica a fazer, sobre a legitimidade, mas foi uma opção política incorreta. Naquele momento, com o país que nós tínhamos, a luta armada não teria condições de conseguir apoio de uma forma tal, que pudesse questionar efetivamente a ditadura. Se a gente voltasse no tempo, e eu com a cabeça que tenho hoje, continuaria sendo militante. Teria lutado contra a ditadura sem as armas. Não integraria o processo de luta armada e tentaria convencer os companheiros de que essa não era a melhor alternativa.

 REVER: Muitos jovens encontraram nas ruas um espaço de protagonismo político a partir das jornadas de junho em 2013. Como você avalia as manifestações do ano passado para o médio e longo prazo no Brasil e que conselhos você daria à essa juventude que cada vez mais parece desencantada com o formato tradicional da política partidária?

 Cid- Olha, eu avalio as manifestações de uma maneira muito positiva. Acho que foram ótimas, quanto mais pessoas participarem da politica é melhor! Quando eu falo em participar da politica, não falo só em participar votando. Falo em participar de forma integral, indo pra rua, se manifestando, se interessando e acompanhando a politica. Se eu tivesse algum conselho para a juventude seria que ela compreendesse de que num pais de 200 milhões de habitantes, a politica vai estar na vida da gente querendo ou não. Enfim, as regras de convivência vão ter que ser definidas, as leis, a aplicação da politica, isso tudo vai ter que ser feito. As pessoas que a gente elege, pessoas que estão no congresso, que fazem as leis e pessoas que governam precisam ser eleitas democraticamente. Então se desinteressar da política significa ter uma postura parecida com a da avestruz, que enfia a cabeça na areia. Um conselho que eu daria aos jovens é que exerçam plenamente sua cidadania e se interessem pela política. Acompanhem e participem não só na eleição, mas também indo às ruas e fazendo manifestações.

*Andrew Costa colabora com a REVER do Rio de Janeiro

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