É necessário legalizar a vida

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“Trocando em miúdos: A proibição provoca uma overdose de violência e hipocrisia, construída pela apologia à criminalização, ao extermínio e ao encarceramento em massa”

*Henrique Maynart, Eder Lombra e Igor Miranda

No último dia 25 de maio cerca de 500 pessoas encharcaram a Orla de Atalaia por outra cidade possível, mais solidária e menos careta. Munida de bandeiras, cartazes, punhos e gargantas estendidas para outra política de drogas no Brasil, a 4ª edição da Marcha da Maconha Aracaju gritou aos quatro cantos da capital sergipana a falência da proibição, sua origem racista, a falácia da “guerra às drogas” e o direito sobre o nosso corpo e nossa saúde.

 Com mais ou menos 100 anos de proibição da maconha e outras substâncias psicoativas, seus resultados sociais são desastrosos: O consumo das referidas “drogas” não acabou ou sequer diminuiu, o narcotráfico é hoje o segundo maior mercado do mundo, movimentando 340 bilhões de dólares ao ano, volume dez vezes maior que o lucro da Apple, maior multinacional do planeta. A referida “guerra às drogas” mata diariamente policiais, soldados do tráfico, usuári@s e moradores nas periferias de nossas cidades. Trocando em miúdos: A proibição provoca uma overdose de violência e hipocrisia, construída pela apologia à criminalização, ao extermínio e ao encarceramento em massa.

 A humanidade convive com a cannabis há cerca de 10 mil anos. Muitas pessoas não sabem, mas no Brasil a maconha não foi proibida pelos efeitos que causava, mas para perseguir quem a consumia no início do século: A população negra. O mesmo decreto que proíbe o uso da maconha também condenou o candomblé, o samba e a capoeira. Logo, estamos falando de uma política racista e segregadora.

 Baseado em uma moral que condena qualquer forma de alteração do estado de consciência, a sociedade brasileira é bombardeada por sofismas, falsos argumentos que “justificam” a proibição da maconha. Uma verdadeira cortina de fumaça para retroalimentar a ignorância e fugir do debate. A principal delas é a máxima de que “a maconha é a porta de entrada para outras drogas”.  Vejamos: Se a maconha é um relaxante e, a exemplo, se a cocaína é uma substância estimulante, princípios ativos completamente distintos, como afirmar que uma é porta de entrada para a outra? Falácia e chicote de aroeira no lombo de quem quiser acreditar.

 A porta de entrada é um mercado completamente desregulado, preocupado em “passar a mercadoria” e suprir suas finanças. Se a cannabis está em falta na boca, o passador vai se utilizar de todos os artifícios para que o usuário leve a “trouxinha” de pó ou qualquer outra anfetamina, pra não “sair no prejuízo”. Se houver alguma substância que sirva de porta de entrada, há muitas dúvidas nesta afirmação, ela há de ser o álcool legalizado, substância cujo uso abusivo leva à morte cerca de 2 milhões de pessoas no planeta.

 Logo, podemos afirmar que a porta de entrada é de fato a proibição. A venda ilegal da maconha representa 80% do faturamento do tráfico no Brasil, com cerca de seis milhões de usuários. Mesmo não acabando integralmente com o tráfico, a regulação da maconha será o primeiro passo pra acabar com a guerra aos pobres.

O tabaco, legalizado, mata cerca de 5 milhões de pessoas no mundo. A maconha nunca matou ninguém. Para se ter uma ideia, seria necessário ingerir mais de 600 quilos da maconha para provocar uma overdose. Seu uso medicinal pode e deve salvar vidas com o uso do CBD e outros componentes. Caso a maconha fosse legalizada hoje, poderíamos ter salvado a vida de Gustavo Guedes, de um ano e quatro meses, que sofria com graves crises de epilepsia que poderiam ser aliviadas com o uso do CBD, que falecera no dia 1º de Junho. A proibição matou Gustavo Guedes, a proibição matou o pedreiro Amarildo em 2013, o dançarino DG neste ano, dentre milhares de humanxs. Até quando?

Cultivar a liberdade para não colher a guerra. Informação para combater a hipocrisia e garantir nossos direitos, tais como nossos irmãos uruguaios, como os estados do Colorado e de Washington. Cabe ao estado regulamentar o plantio, o uso e a comercialização da cannabis, garantindo o tratamento na rede pública de saúde mental através dos CAPS-AD e do SUS. Seguiremos em marcha até que esta guerra chegue ao fim, pelejando pelo direto ao nosso corpo, à nossa saúde e à nossa cidade. É necessário legalizar a vida.

*Henrique Maynart, Eder Lombra e Igor Miranda são militantes do Coletivo Legalize-SE e organizadores da 4ª Marcha da Maconha Aracaju

 

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