Contra a cultura do baculejo

Lindemberg Monteiro

Relatos a respeito da valorosa Polícia Militar de Sergipe podem ser colhidos no lombo da arraia miúda, em nome de quem o diretor da Cia Stultífera Navis, o ator Lidemberg Monteiro, vítima de agressão policial, se manifesta abaixo.

 *por Rian Santos

 Diferente de Fernando Pessoa, conheço uns três ou quatro que já levaram porrada. Relatos a respeito da valorosa Polícia Militar de Sergipe podem ser colhidos no lombo da arraia miúda, em nome de quem o diretor da Cia Stultífera Navis, o ator Lidemberg Monteiro, vítima de agressão policial, se manifesta abaixo. O soco desferido durante uma abordagem de rotina não é um incidente isolado. Embora a civilidade ensine que a imposição da força é sempre o último recurso, o episódio corrido no Verão Sergipe 2012, quando a cantora Rita Lee foi algemada tão logo desceu do palco, prova que nos domínios de Sergipe Del Rey ninguém está a salvo de um baculejo.

 REVER: Antes de mais nada, acho que cabe um relato a respeito do episódio ocorrido esta manhã. Qual a alegação apresentada pelo policial para revistar o táxi? Não deve ser fácil levar um murro na cara, assim do nada…

 Lindemberg Monteiro: Para mim, ele em nenhum momento deu nenhuma explicação. Na verdade, como é comum, a própria abordagem foi realizada com uma agressividade desnecessária. Depois da agressão, o taxista foi chamado para uma conversa longe de mim e o policial informou que tinha recebido uma denúncia de que dois ou três elementos tinham entrado em um táxi para roubá-lo. Importante: a agressão só aconteceu depois deles terem ciência de que só estávamos nós dois no veículo. Não acreditava que ele me daria um soco, mas também não me causou surpresa. Infelizmente é algo que nem a mim e nem a ninguém causa mais espanto.

 REVER: Não é a primeira vez que um agente da cultura local entra em confronto com o braço armado do Estado. Já ocorreram diversos incidentes de abuso policial na saudosa Rua da Cultura, por exemplo. Isso, pra não mencionar o caso Rita Lee. A reunião dos fatos parece sugerir que artista e polícia se encontram, aqui e agora, em territórios antagônicos em nossa sociedade. Tem de ser assim? Há alguma espécie de guerra não declarada entre a sensibilidade coletiva e o braço armado do Estado? O que está errado nessa história?

 Lindemberg: Artistas são questionadores e não se privam de denunciar erros e ilegalidades oficializadas por aqueles que estão no poder. A polícia está sempre a serviço desses e tratam o povo e aqueles que questionam com a truculência que lhe é permitida pelos seus “chefes”. O procedimento da polícia no show de Rita Lee é comum e já foi visto em vários Forrós Caju, Projetos Verão, Pré Caju (com a pipoca, é claro), tudo sob o olhar de governantes, deputados, senadores, imprensa, enfim pessoas que poderiam mudar esse comportamento. Comportamento que cabe mais a um jagunço do que a um policial.

 Na Rua da Cultura por diversas vezes questionei policiais sobre procedimentos impróprios na abordagem de jovens cidadãs e cidadãos que estavam ali para se divertir. Como eu me apresentava sempre como Coordenador Geral do Projeto nunca fui agredido e sempre me trataram com respeito, diferente de como tratavam nosso público, na maioria das vezes.

 REVER: É curioso observar, mas justamente quando os principais pleitos da Polícia foram atendidos pelo Governo (segundo a propaganda oficial, o policial sergipano está entre os mais bem pagos e equipados do Brasil), diversos episódios dão relevo ao despreparo da categoria no trato com o cidadão. Eu poderia citar os casos envolvendo a prisão arbitrária do músico Cláudio Miguel e a mão na cabeça do enteado do secretário João Eloy. É suficiente para defender que a cultura da repressão pode ser entendida como um reflexo das deficiências observadas na expressão da sensibilidade coletiva? Em outras palavras, para lembrar Raulzito: Falta de cultura pra cuspir na estrutura?

 Lindemberg: Falta cultura de paz, de cidadania, de respeito e o principal, de coragem, para mudar a representação social que a polícia ainda carrega. Lamentavelmente, quando o ex governador Marcelo Déda – e diga-se de passagem um político compromissado com o direto a cidadania do seu povo –, premia o Coronel Iunes e o elege Comandante da Policia Militar do estado de Sergipe, ele abona um comportamento policial que já não cabe e que nunca coube para servir a sociedade.

 A questão de uma polícia que respeita a população, e não apenas uma pequena parcela dela, não está no melhor salário, no melhor armamento, ou no silêncio de quem não tem coragem de denunciar. A polícia que nós merecemos e temos direito é uma policia bem diferente dessa tropa de jagunços fardados, a exemplo desse que me agrediu e de tantos que agridem, torturam e matam, obrigando colegas policiais corretos e dignos de agradecimento a uma convivência viciosa com o crime.

 REVER: O artista não é mais do que um cidadão. No entanto, ao se prestar à expiação de experiências alheias, acaba servindo de pasto para as doenças de uma dada sociedade. Me parece que você não apanhou sozinho, na manhã de hoje…

 Lindemberg: Concordo. O soco que eu levei me afeta muito menos do que os distribuídos entre as vítimas de uma mentalidade pervertida segundo a qual um suposto policial pode agir como criminoso só porque usa uma farda e tem uma pistola na mão. Em mim ele não encosta mais. No Rio de Janeiro já fui ameaçado por traficante por conta de um projeto social no Morro do Borel e não arredei o pé. Ou seja, não tenho medo de nenhum tipo de bandido. Bandido bom não é bandido morto. Pra esses, cadeia.

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