Padrões e regras para torcer – A Copa e o ‘mundo real’ dos brasileiros

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“Na Copa as coisas são diferentes. Afinal, uma cervejaria é patrocinadora oficial do evento e os torcedores que ali estavam pagaram caro pelo seu assento, não devendo ser tratados com abuso e coerção”

*por Martial Machado

No dia 15 de junho de 2014 acontecia o jogo Argentina e Bósnia. Primeira partida da Copa do Mundo FIFA 2014 no estádio do Maracanã, Rio de Janeiro. Estava lotado, com 74.738 torcedores pagantes.

Na ocasião a cerveja era liberada para consumo no interior do estádio. Torcedores sem ingresso, ávidos por acompanhar a partida, pulavam o muro que dá acesso às arquibancadas. Bandeiras, faixas, cartazes e trapos maiores do que 2m x 1,5m – dimensões proibidas no código de Conduta FIFA – em profusão enfeitavam o espetáculo.

Conclusão: No nosso futebol do dia-a-dia, somos mais ‘Padrão FIFA’ do que a própria entidade. Fora da Copa, de volta ao mundo real do futebol cotidiano, a cerveja continua proibida, dentro e nos arredores dos estádios, desde 2009.

Desde sua reabertura no ano passado, o Maracanã, por determinação da polícia e de seus novos proprietários, Odebrecht e Eike Batista, não lotou jamais em jogos de clubes, isto é, jamais atingiu sua capacidade máxima atual de 79 mil torcedores, a menor de sua história. Segundo os responsáveis, isso se deu “por questões de segurança”, ainda que tenha como principal inquilino o C.R Flamengo, clube detentor da maior torcida do Brasil.

Para bom entendedor meia palavra basta: nós cariocas não sabemos nos comportar, somos baderneiros e perigosos, logo, aglomerar uma grande quantidade de pessoas num ambiente torna-se perigoso e deve ser evitado a todo custo.

Bebida alcoólica no estádio? Está vedada no entorno e interior do Maracanã, pela Prefeitura e CBF para “evitar potenciais conflitos e garantir a segurança”. Faixas, bandeiras e bandeirões são de número limitado e devem ser autorizados expressamente pelo Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (GEPE), após minuciosa inspeção de conteúdo, num claro cerceamento à liberdade de expressão e pensamento.

Na Copa, porém, as coisas são diferentes. Afinal, uma cervejaria é patrocinadora oficial do evento e os torcedores que ali estavam pagaram caro pelo seu assento, não devendo ser tratados com abuso e coerção. Os que ali estiveram no dia 15 contaram que a atmosfera lembrava um pouco a do finado ‘maior estádio do mundo’.

Ainda assim os que conheceram o verdadeiro Maracanã não se conformam com sua nova e pasteurizada versão. Em sua coluna no portal Canchallena, o jornalista argentino Ezequiel Fernández Moores, analisou a atuação da seleção portenha no mítico estádio, sob o título Messi y el nuevo Maracaná.

“Já não sou mais um Maracanã; Agora, desde que chegaram os bárbaros, me chamam de Arena. Antes recebia mais de 200 mil pessoas. Reis e plebeus. Jovens e anciões. Bêbados e prostitutas. Negros, mulatos e brancos. Favelas. Cegos. O Brasil tropical, mestiço e humanista que vivia aqui a cada noventa minutos de futebol e festa. Um cenário democrático, que igualava tanta desigualdade.

À noite eram quase todos brancos. Diz-se que alguns, vestidos de camisas azuis e brancas, como quase todos, pagaram até 2mil dólares na revenda. Desculpem, mas a FIFA e outros diminuíram e agora não tenho lugar para mais de 79 mil torcedores. Inclusive, 12 mil assentos pertencem ao setor VIP. No lugar que gritavam desdentados sem camisa, agora servem champagne Taittinger”.

Diferente de nós brasileiros, talvez os hermanos tenham a oportunidade de aprender com o erro dos outros. O verdadeiro significado da arenização e da elitização dos estádios começa, finalmente, a se mostrar inegável e inquestionável.

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