De Stonewall ao infinito: Quarenta e cinco anos de rebeldia, a luta LGBT e o papel da proibição

???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Festa organizada pela Marcha das Vadias homenageará, no dia 28, episódio marcante na história da luta LGBT. Entenda a história e o peso do dia 28 de Junho de 1969.

*por Henrique Maynart

 

“Se pássaros podem voar sobre o arco-íris Por que então, por que eu não posso?” Over The Rainbow: Harold Arlen & E.Y. Harbur

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10486218_312601025571352_7280401133671739805_nSão Pedro que se enfeze se quiser, mas sábado a noite é dia, tempo de rasgar o fole contra a opressão pra reviver esta rebelião quarentona, pintosa e de muita luta. Stonewall é lá e cá, onde tiver peleja e sangue no olho, os gritos e dentadas que cicatrizaram as ruas do Village lá estarão, lá estaremos. (Clique na imagem para ver informações do evento, no facebook). _____________________________________________________________________

 Nova York, GreenWich Village, 28 de junho de 1969. Quando os trejeitos e os amores e os desejos entre pessoas do mesmo sexo, quando a regimental demonstração pública de afeto ou tesão eram tipificadas como crime contra a moral pública, escracho e detenção. Quem nascera “mulher no corpo de homem”, ou quem nascera” homem em corpo de mulher”, e fosse pego com três peças de roupa de mulher “sendo homem”, ou três peças de roupa de homem “sendo mulher”, era detido pelo mesmíssimo crime contra a moral pública. Crime travestido de moral.

 Quando a escola e o Estado e os especialistas e as igrejas e os homens ilibados da mais pura verve para a “coisa pública”, quando o caralho a quatro, a buceta a doze e o cu a trinta e seis – progressão geométrica da agonia – quando todos estes afirmavam com a boca farta do escárnio que o “viado” e a “sapata” e a “trava” e a “drag” constituíam desvios da natureza e associação direta à pedofilia. Diziam e falavam e algemavam e extirpavam, sem lenço nem documento nem dó nem perdão, nem qualquer coisa que lhe retocasse o peito. Mas eis que se crava no tempo a data de 28 de junho de 1969, no GreenWich Village, Cristopher Street. Cidade de Nova York. O pau, que aqui não é a “neca”, ia comer nervoso.

 Stonewall- Inn, um bar. “Muro de pedras” se cantarmos desesperadamente em português. Naquele tempo os bares eram orientados a não vender bebida alcoólica para “pessoas com comportamentos imorais”, e a Birô Federal de Drogas, Álcool e Armas de Fogo dos Estados Unidos simplesmente impedia o fornecimento a bares “de viados”. Não era rentável comercialmente associar a sua “marca” a um bando de “maricas”, quem já se viu.  Nem “viado” nem “sapa” nem “trava” nem “drag” eram dignos do álcool, devidamente legalizado apenas para heterossexuais, cristãos, tementes a Deus, ao presidente Jonhson, às tropas no Vietnã e aos quadrinhos de J. Edgar Hoover nas tiragens do F.B.I.

 Pois bem, a ausência de licença para venda de álcool era o principal dispositivo usado para batidas policiais e detenções em bares “pintosos”, com o “Stonewall-Inn” não era diferente.  Quando uma substância psicoativa é tornada ilegal para determinado setor da sociedade o mercado ilegal – vulgo tráfico ou máfia – supre a demanda, prerrogativa básica de qualquer proibição. “Viado” e “sapatão” e “trava” e “drag” também bebe, também fuma, também se distrai e abstrai.

 Organizado pela família Genovese, de algum destaque na máfia de Nova York, o Stonewall-Inn era um dos poucos bares que dispunham de pistas de dança e alguma sociabilidade, um clima minimamente agradável para uma cerveja e um afeto depois da labuta farta dos dias, nada mais compreensível. Só que os irmãos Genovese estavam vacilando no “arrego” para a polícia, a santa propina das vidas proibidas, justamente no momento em que a prefeito ultra-conservador de Nova York decretava guerra contra as “ameaças à família cristã”. Os Panteras Negras, a cultura Hippie e os protestos contra a guerra do Vietnã já estavam dando muito trabalho, nada melhor que atacar um “bando de bichas” desorganizadas para cavar algum quociente eleitoral, ora bolas! E olha que o Festival de Woodstock nem tinha dado o ar da graça, ocorreria em agosto do mesmo ano em uma fazenda ali perto.

 Mas o final de junho prometia noites turbulentas no Village. Com a justificativa oficial de “ausência de licença para a venda de álcool”, a polícia foi vingar a propina não dada e prender algumas “travas” e “viados” pra não perder o hábito, mas nesta noite a volta foi por dentro. Chegaram à paisana.  Cansadxs de tanta desgracença cotidiana, os mais de 200 presentes na noite de 28 de junho no Stonewall-Inn não passaram caladxs. As “drag´s” e/ou lésbicas eram o alvo mais fácil para a polícia, em um público majoritariamente masculino, repressão machista de uma sociedade patriarcal e misógina, mas foram elas quem resistiram na linha de frente e caíram na pancada. Relatos presentes no documentário “Stonewall Uprising” nos contam que uma drag conseguiu se safar por três vezes seguidas da viatura da polícia, detida e algemada, comendo os samangos na porrada. Aquela noite duraria uma vida inteira de resistência e muito sangue no olho.

 Doze horas de batalha. Os samangos solicitaram reforços, Xs revoltosxs reforçaram a solidariedade e as pedras e a barricadas na rua. A polícia arregou, prometeu voltar no outro dia. O povo prometeu ficar e lutar depois que a tarde caísse no dia seguinte, sob o crepúsculo, desta vez mais organizadxs, com muito mais gente e apoio dxs moradorxs do Village. O pau comeu no outro dia e os fardados abriram mais uma vez. Desta vez os “viados” e “bichas” e “monas” e “sapas” e “travas” e “drag´s” eram  donXs da rua, retomando pelas suas mãos, com paus e pedras e garrafas o destino de suas vidas.  Um mês depois foi criada a Gay Liberation Front e um ano depois, em 1970, foi realizada a primeira Parada do Orgulho Gay, no Central Park e no Village. As paradas se espalharam pelo mundo inteiro e todxs nós conhecemos: ela surgiu dos gritos da noite no final de junho em Stonewall.

 Quarenta e cinco anos após a primeira revolta organizada da comunidade LGBT frente à defesa de seus direitos e sua dignidade, a homolesbotransfobia ainda assola milhares de humanos e humanas em todo o planeta, por aqui não é diferente.  O Brasil carrega números altíssimos assassinatos à comunidade LGBT, de acordo com dados do Grupo Gay da Bahia-GGB, a bancada fundamentalista no congresso nacional dá sinais de fortalecimento e agenda própria, vide a ascensão dos deputados Marco Feliciano (PSC-SP), Osmar Terra (PMDB-RS), José Carimbão (PSDB-AL) e João Campos (PMDB-GO) – este último autor do projeto da “Cura Gay”, arquivado em junho de 2013 – a pré-candidatura do Pastor Everaldo (PSC), um ilustre desconhecido que oscila entre 3 a 4% das intenções de votos nas pesquisas, não é qualquer dado. As Marchas para Jesus, nada cristãs, representam o peso social das confissões neopentecostais com a mercantilização da fé, a criminalização e demonização moral da comunidade LGBT, do mov. Feminista, da Marcha das Vadias, do movimento anti-proibicionista e de todo campo da luta libertária.

 Podemos constatar que a proibição de uma “droga”, mesmo legalizada em um contexto geral como neste caso, é o principal dispositivo oficial de opressão e criminalização de setores mais espoliados da sociedade. A proibição que gerou a Revolta de Stonewall é a mesma, em essência e intervenção, que ocorre nas periferias do mundo no extermínio da juventude negra, que mata todos os dias. É a mesma proibição que provocou e justificou a tortura e criminalização do povo Tenetehara, no Maranhão, na “Operação Maconha” ocorrida nos anos de 1978 e 1979, a mesma proibição sob mote da “Guerra às Drogas” que esfacelou a experiência dos Panteras Negras nos Estados Unidos.  A mesma proibição que faz explodir a população carcerária feminina em Sergipe e no Brasil. Logo, a luta por outra política de drogas deve ser uma luta anti-racista, feminista, indigenista, LGBT, anticapitalista e libertária, nada menos que isso não suprirá nossas aspirações.

Na noite do dia 28, neste sábado, o bonde da Marcha das Vadias Aracaju está organizando o “Baião de Stonewall”, pra riscar sola e calcanhar sobre a zabumba da memória dos “gays” e “sapas” e “travas” e “drag´s” que botaram os samangos pra correr por duas noites seguidas.

 

*Henrique Maynart é jornalista, militante do Coletivo anti-proibicionista Legalize-SE e organizador da Marcha da Maconha Aracaju

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