REVER Séries: Como a Europa escraviza o futebol da África – Parte 1

Asamoah Gyan
Ótimo time de Gana, dos irmãos Ayew e Asamoah Gian jogou bonito mas tropeçou num dos grupos mais difíceis da Copa de 2014. A Federação tinha uma dívida com os atletas.


Primeira parte da série sobre o futebol africano é reservada a contextualizar a realidade local. Como estão e quem comanda?

*por André Leitão e Irlan Simões

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Antes de ler “REVER Séries: Como a Europa escraviza o futebol da África – Parte 1” confira a introdução da série clicando aqui. A segunda parte da série pode ser acessada clicando aqui.
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De pouco adianta se arriscar a falar de futebol sentado sobre os números. A infinidades de fatores externos que envolvem o futebol tem grande importância dentro de campo. Falar das seleções e dos jogadores da África se torna uma tarefa ainda mais complexa: a independência tardia – e fictícia – de suas nações, os seus cartolas, a situação político e econômica de suas repúblicas e os tentáculos sedentos por lucros da máquina do futebol são pontos indispensáveis para entender qualquer realidade específica ou global que envolve o jogo mais praticado e amado no planeta.

Na primeira parte da série faremos uma leitura geral do futebol africano a partir das suas principais forças.

Camarões: brigas, ameaça de greve e mais uma Copa sem encantar
Camarões: brigas, ameaça de greve e mais uma Copa sem encantar

Panorama do futebol da África

Tirando em parte o sucesso feito por craques africanos que atuam em grandes clubes europeus, pouco de relevante foi feito pelas seleções e clubes do continente africano. As grandes potências, se assim podem ser chamadas, são inconstantes e transitórias. Ao longo das décadas algumas se destacaram e acabaram por perder força, enquanto outras souberam aproveitar as mudanças históricas da estrutura da grande máquina do futebol para se beneficiar.

Em termos gerais as grandes forças estão localizadas no Norte da África, de predominância árabe; e na África Ocidental, de população majoritariamente negra, nas antigas colônias francesas e inglesas.  As principais ligas foram criadas apenas ao final da década de 1950 e ainda pouco representam no contexto do geral do futebol mundial. Diferente dos países latino-americanos, há pouca formação de jogadores e portanto mal podem ser considerados clubes exportadores (falaremos sobre esse assunto mais adiante).

Para ter um panorama parcial, vale colocar em cheque três fatores: participações das seleções na Copa do Mundo e as campanhas na Copa das Nações Africanas (CNA); e a participação dos clubes africanos na Liga dos Campeões da África (CAFCL), maior torneio de clubes do continente.

Na parte árabe se destacam a Argélia, Egito e Tunísia. Na parte negra se destacam Gana, Nigéria, Camarões e Costa do Marfim. Não entrarão aqui os país de Marrocos, Congo e Senegal. Apesar de estarem em destaque nos últimos anos por motivos particulares (Raja Casablanca, Mazembe e Copa do 2002, respectivamente), são países que não conseguem manter resultados positivos com constância. A África do Sul, apesar de ter sediado uma Copa, não é uma força local.

A Argélia, com quatro participações em Copas do Mundo (1982, 1986, 2010 e 2014), foi quarta colocada da CAN de 2010. Surpreendeu pelo bom futebol na Copa de 2014, e é famosa por ser berço de bons jogadores, provavelmente os melhores de origem árabe. Sua liga interna, no entanto, tem poucos resultados relevantes: o JS Kabylie foi 3º colocado na CAFCL de 2010, mas a última conquista, do mesmo clube, se deu no longínquo ano de 1990, ano em que a seleção também venceu o torneio continental.

A Tunísia já disputou quatro Copas (1978, 1998, 2002 e 2006), e apesar de estar fora pela segunda edição consecutiva, tem tido resultados relevantes com seus clubes. Clubes tunisianos estiveram em 7 finais nas últimas 10 edições do torneio continental dos clubes, vencendo duas. O Espérance ST foi campeão em 2011. A seleção foi campeã africana em 2004.

O Egito tem provavelmente a melhor liga interna, com destaque para o Ah-Ahly e sua torcida já conhecida em todo o mundo, vencedor de 5 dos últimos 9 títulos continentais.  A seleção tem 7 títulos continentais, mas não consegue chegar à Copa do Mundo desde 1990, sua segunda participação (a primeira se deu em 1934).

Na África banhada pelo Atlântico – terra de muitos ancestrais dos afro-brasileiros que simpatizam com as seleções – Camarões se destaca como o país como maior número de participações (1982, 1990, 1994, 1998, 2002 e 2014). A terra de Roger Milla e Samuel Eto’o tem quatro títulos continentais no currículo – os últimos em 2000 e 2002. O Coton Sport é o clube que se destaca, tendo sido vice continental em 2008, um torneio que camaroneses não conquistam desde 1980.

A seleção de Gana, provavelmente amaistalentosa em campo na edição do mundial de 2014 tem crescido em importância nos últimos anos. Apesar do último título de clubes ter acontecido em 2000, com o Hearths of Oak, a seleção chegou nas últimas quatro semifinais do torneio africano. No mundial de 2010 chegou às quartas-de-final e foi eliminada nos pênaltis para o Uruguai.  Já havia participado também em 2006

A Nigéria, grande nome do futebol africano na década de 1990 e 2000 mantém a escrita. Desde 1998 deixou de jogar apenas a Copa de 2006. Em terras africanas, depois de 9 edições de jejum, venceu a CAN de 2013, a terceira de sua história. Seu futebol local só teve o Enyimba FC como campeão africano de clubes, em 2004.

Por fim, a Costa do Marfim, participante das últimas três Copas do Mundo, teve uma geração de grande talento que parece estar se esgotando. Só ganhou uma copa africana em 1992 e no mais bateu na trave duas vezes. Em 1998 o ASEC Mimosas venceu o título de clubes africanos antes do jejum que dura até hoje.

A parte árabe da África, culturalmente mais distante, não pode ser esquecida. Tem grandes feitos.

Governos autoritários e Federações idem

É notável do Continente africano a capacidade de formar grandes lideranças políticas nativas que foram incapazes de gerar mudanças relevantes na vida da população local. O futebol, por explicar muita coisa da vida, também explica isso. A África ganha relevância quando suas lideranças cumprem papéis estratégicos nos interesses das potências mundiais.

Não é a toa que grande parte das guerras civis que lavaram o continente negro de sangue foram impulsionadas, também, pelos mesmos países europeus que hoje comemoram a “estabilidade política” da região através de governos autoritários que duram 30 ou 40 anos. A Primavera Árabe provou que a base de sustentação interna dos governos do país do Norte Africano era mínima.

No futebol não é diferente. As Federações dos países listados anteriormente estão no topo das relações de poder da casta que comanda a FIFA. São numerosas, financeiramente dependentes e comandadas de forma autoritária. Os presidentes das maiores federações gozam de pouquíssimo prestígio nos seus países de origem – tal qual no Brasil e na Argentina -, mas cumprem papel fundamental para articular as menores federações africanas e garantir decisões de grande relevância como, nada menos, o número de participantes ou a futura sede de uma Copa do Mundo.  Em especial, com a compra dos votos, a exemplo das acusações que recaem sobre o camaronês vice-presidente da FIFA, Issa Hayatou.

A desorganização da federação de Gana teria sido o principal problema da eliminação da equipe. As acusações partiam principalmente de Kevin Prince Boateng, um dos principais jogadores do grupo, que além de tecer críticas sobre o despreparo da comissão técnica, detonou a organização da preparação da equipe. Segundo ele, o presidente da federação, Kwesi Nyantakyi, teve culpa no processo.

No Norte da África o futebol tem grande apelo popular e já foi utilizado como ferramenta de propaganda tanto de governos autoritários, quanto de grupos revolucionários (ver o exemplo do Egito). Invariavelmente, as federações de futebol tem relação estreita com o poder executivo, muitas vezes sendo nomeadas diretamente. A receita básica do futebol de periferia: futebol interno dependente e frágil, federação influente e grudada ao poder e dirigentes enriquecendo de forma ilícita. Não muito diferente das menores federações estaduais do Brasil.

Essa estrutura tem relação direta com o tema central dessa série. A realidade política africana sempre refletiu no futebol, e enquanto desmandos, desleixos e submissões seguirem acontecendo nas estruturas de poder, o futebol continuará refém dessa lógica. Na segunda parte da série trataremos do tema das imigrações, do tráfico de jovens jogadores e da influência negativa das escolas europeias no futebol africano.

 

ACESSE: REVER SERIES: COMO A EUROPA ESCRAVIZA O FUTEBOL AFRICANO – PARTE 2

*André ‘Baiano’ Leitão é historiador.
*Irlan Simões é jornalista e coordenador da Revista REVER.

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