REVER Séries: Como a Europa escraviza o futebol da África – Parte 2

Futebol africano tem dificuldades de consolidar o talento e a ginga como marcas
Futebol africano tem dificuldades de consolidar o talento e a ginga como marcas

Segunda parte da série trata dos problemas que envolvem a formação de jogadores e do estilo de jogo africano

*por André Leitão e Irlan Simões

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Antes de ler “REVER Séries: Como a Europa escraviza o futebol da África – Parte 2″ confira a introdução da série clicando aqui. O link de acesso para primeira parte pode ser acessado clicando aqui.
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Após tratarmos da realidade atual do futebol africano e atual posição das suas principais forças, poderemos entrar nos temas que envolvem a formação do futebol no continente. As limitações das ligas locais, a interferências de filosofia de jogos muito distintas das esperadas, a saída precoce de jovens para o futebol europeu – com e sem sucesso – e naturalização de jogadores distantes da realidade local são os temas da segunda parte da Série.

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Joseph Minala causou polêmica no início do ano afirmar ter 17 anos e foi defendido pela Lazio, seu clube. Federação Italiana deu apoio.

 A Roda Viva do futebol e os diamantes negros 

O futebol africano, assim como o mundial, sofreu e sofre com um processo de mercantilização ostensivo. Na África algumas feridas foram reabertas e o que se vê atualmente é uma desenfreada saída de jovens em buscar o sonho de ser um jogador “de ponta”, ser Messi, ser Cristiano Ronaldo, ser Neymar. Ser a minoria dos jogadores de futebol, ser um dos astros.

Todo ano milhares de jovens são retirados de suas famílias, iludidos por agentes – dentre eles os credenciados pela FIFA – com o objetivo de crescer e melhorar a vida dos seus familiares. A maioria mais perde do que ganha: quebra seus laços de identidade, adota a disciplina europeia e se adapta a um futebol que nunca foi o dele. Muitos não conseguem concretizar o sonho e acabam abandonados no subemprego, na ilegalidade e se tornam alvo fácil da xenofobia de alguns países europeus.

As categorias de bases foram sendo sugadas e muitos jovens vão para times grandes com 8, 10, 12 anos e são moldados para atender um futebol que não é seu. Enquanto isso o futebol africano não renova seus talentos. As ligas locais, pobres e desestruturadas, tendo surgido apenas ao final da década de 1950, ainda não passaram pelos mesmos processos de desenvolvimento das ligas da América Latina.

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique francês, o presidente da associação Cultura Futebol Solidário – organização criada para dar assistência a imigrantes do futebol – Jean Claude Mbvoumin aponta que em apenas um ano uma federação africana foi responsável por liberar mais de 800 autorizações de saída. Frise-se que esses são apenas os registrados em clubes, sem contar o que são levados pelas chamadas “granjas”, escolas independentes pertencentes aos tais agentes.

Mbvoumin explica a origem desse fenômeno: “Os africanos têm fantásticas ideias preconcebidas a respeito do futebol profissional na Europa. Vêm muitos compatriotas seus ter sucesso e imaginam que é muito fácil imitá-los. Pensam que o mais difícil fica feito quando conseguem arranjar dinheiro para a viagem e obtêm um visto, e em relação à família sentem ter sido empossados de uma missão. Mais tarde, após terem fracassado, por medo e vergonha não querem regressar às suas terras”.

A França é considerada a principal importadora de pé-de-obra africano, algo incontestável  ao menos até o fim da década passada. A expectativa desse atores econômicos que usam jovens negros como mercadoria era ingressá-los nas escolas de atletas, passa-los para algum clube local e fazer essa estrutura de trampolim para ascender às maiores ligas: Itália, Espanha, Inglatera e Alemanha. A lógica pode ser alterada em breve – ou ao menos o destino geográfico dessas tramóias – uma vez que a França entrou na rota dos grandes bilionários proprietários de clubes e passará a importar jogadores, ao invés de exportar.

O tema é de tamanha relevância que se tornou filme. A película “Diamantes Negros”, de Miguel Alcantud, com participação de Carlos Bardem, foi lançada à véspera da abertura da Copa do Mundo. Trata da história de dois jovens do Mali que são convidados por um “olheiro” a se mudar para Espanha e tentar a vida como jogadores profissionais de futebol. Amadou e Moussa são lançados à sorte num país estranho, adulteram suas identidades e vêm suas vidas se dividindo entre o “sucesso” de um e o “fracasso” de outro. No caso do primeiro o contrato com um grande clube, que vira tragédia ao se lesionar gravemente; no caso do segundo ao ser deixado para trás, sem oportunidades e sem condições de retornar ao país de origem, passa a vender drogas nas ruas de Madri.

A identidade dos protagonistas é adulterada para que pareçam mais velhos e portanto cumpram as normas de importação que proíbe a saída de menores de 16 anos. Mais tarde são obrigados a adulterar novamente para uma idade abaixo da real, afim de coloca-lo para disputar espaço com jogadores mais jovens, fisicamente e tecnicamente menos aptos. A manobra também serve para driblar as normas de remuneração de clube formador em casos de grandes transferências.

Mas não nos enganemos: essa lógica acontece diariamente no Brasil. Os grandes centros do futebol, em especial Rio de Janeiro e São Paulo já possuem grande quantidade de especialistas e olheiros. A Copa São Paulo de Futebol Jr, até hoje muito comentada, tem servido praticamente para institucionalizar esse tipo de relação perigosa que traz grandes prejuízos a muitos jovens e suas famílias.

Sofiane Feghouli, craque da Argélia é apenas um dos 16 "renaturalizados". Nasceram na França e filhos de argelinos.
Sofiane Feghouli, craque da Argélia é apenas um dos 16 “renaturalizados”. Nasceram na França e filhos de argelinos.

Futebol cigano: naturalizações e vice-versa

Há duas questões relacionadas à migração, que em ambos os casos são causas muito claras dos problemas do futebol africano. A primeira é referente a jogadores de futebol filhos de africanos nascidos e formados em países europeus que optam pela “renaturalização” africana para garantir espaço numa seleção nacional. O segundo caso é referente a jovens jogadores que partem para a Europa e se destacam e são convidados à naturalização de algum país europeu.

O site alemão Torlaune.de preparou um infográfico mostrando o trânsito de jogadores do país que nasceram para o país em que jogam.  A arte de Ramiro Gomez favorece o entendimento do volume de atletas que optam pela naturalização. Diante da realidade exposta no item anterior é possível entender de pronto o motivo que leva a França a liderar o ranking com 26 emigrações.

Os números espantam. A seleção da Argélia, por exemplo, tem nada menos que 16 jogadores que nasceram na França, país pelo qual Zinedine Zidane optou por jogar, sendo argelino. Essa questão não é nova, mas nunca e viu tantos jogadores jogando por um país no qual não nasceu. Contam, de forma grave, a persistência da rigidez das relações de identidade nacional numa Europa multicultural: muitos deles, apesar de nascidos em território europeu, seguem sendo identificados como africanos.

Em outros casos, Camarões renaturalizou cinco franceses e dois alemães. Costa do Marfim renaturalizou três franceses e um norueguês. Gana tem cinco renaturalizados. Ainda assim, a segunda geração de muitas famílias que emigraram para a Europa vive esse constante trânsito. Se por um lado abre as portas, por outro gera uma relação cada vez mais automatizada com o futebol.

O lateral camaronês Assou-Ekotto, que é francês, teve resgatada uma frase polêmica sua de 2011, após os maus resultados da seleção que joga: “Sou um sortudo e fico feliz por aquilo que tenho, mas o futebol é apenas um emprego, um meio para atingir um fim. Prefiro ser honesto e dizer o que penso. Jogo futebol para tornar a minha vida melhor. Jogo futebol pelo dinheiro, mas não fazem todas as pessoas o mesmo? Fazem-no para dar uma vida melhor à sua família”.

Outra lógica cruel que corresponde ao futebol é a facilidade com que se naturalizam astros do futebol em contraste com o tratamento recebido por trabalhadores braçais africanos na Europa, sejam emigrantes ilegais ou mesmo refugiados. Uma discussão que deve ser feita com o sinal de alerta ligado, principalmente em tempos de crise, de ascensão da extrema-direita e de agressões xenófobas.

Stephen Keshi, da Nigéria, junto com James Appiah, de Gana, foram os únicos “locais” a treinar uma seleção africana na Copa 2014.

Pernas d’África, cabeças européias

O último ponto de grande relevância a se comentar sobre o futebol africano não está nos pés, mas nas cabeças. Ao mesmo tempo em que se mostrou ao mundo o talento dos jogadores africanos, alguma mente pouco brilhante entendeu que mestres das escolas de futebol mais rígidas e defensivas seriam os responsáveis por dar o norte do futebol de lá.

Estamos falando de talentos natos que eram comparados aos jogadores brasileiros. Algumas teses antropológicas podem dar conta disso: a cultura africana negra valorizou dança e ritmo e isso favoreceu seus adeptos na arte de jogar futebol. Tal qual a crueldade do regime de escravidão expurgou dos negros parte de sua criatividade e sabedoria, a lógica produtivista e “de resultado” do futebol europeu vem obrigando os atletas africanos a gingar muito menos e se desgastar no ofício de trombar, pular e correr em linha reta.

Nos idos dos anos 1990 ainda se entendia influência francesa diante do que já foi exposto, além da relação de antiga colônia e língua oficial, inda que a França só tenha tido algum destaque no futebol no ano de 1998. A questão é o que vem depois.

Camarões foi à Copa do Mundo 2014 com um alemão. Costa do Marfim levou um franco-tunisiano, já foi dirigida por um sueco, um francês e um bósnio. Escolas totalmente distintas e contrárias ao que se esperava do futebol africano no começo dos anos 1990.

Gana foi com um sérvio em 2010 e resolveu apostar em James Appiah em 2014. A Nigéria, que esteve fora da última Copa, foi uma das pioneiras em tentar locais e voltou a apostar em Stephen Keshi. Ainda que falte know-how aos mais veteranos no papel de comandar as equipes, o importante não seria o legado a ser deixado?  A tentativa de arriscar locais pode ser o primeiro papel.

Ademais, os treinadores também se formam a partir da base. Com as ligas locais fragilizadas e com uma imensa leva de atletas debutando diretamente na Europa, a “identidade” do futebol de cada país africano continuará sendo difícil de ser encontrada. Ainda que o futebol hoje seja totalmente internacionalizado nas principais ligas, é possível ver que esse é um problema que atinge países como Brasil e Argentina, por exemplo.

Segundo o jornalista David Goldblatt, do britânico The Guardian, apenas seis dos 92 atletas das seleções da África Ocidental são profissionais das ligas internas das seleções por onde jogam. Sendo que quatro deles são goleiros, o que leva a ter apenas dois jogadores “de seleção” atuando nas ligas internas de Camarões, Gana, Costa do Marfim e Nigéria.

 dançaganasensacional

“Não olhe onde você caiu, mas onde você escorregou”

Falta muito para que o futebol africano passe a encantar mais pelo que é jogado dentro de campo do que pela simpatia que nos atinge pelo sangue ancestral que corre nas veias. Muitas já foram as provas de que há qualidade, mas é preciso entender que problemas estruturais e externos comprometem  o anseio de que mais comemorações espontâneas e irreverentes possam marcar a nossa memória.

Nunca vamos esquecer Roger Milla, George Weah, Okocha, Kanu e Talibo West.  Pode ser que o futebol africano se reinvente. Para quem teve toda a sua história lutando contra a subordinação e mais que alentador saber que o futebol africano vai romper mais essa amarra. Mesmo que preocupe o desinteresse de determinados atletas em levar o nome de seu país de origem ao topo do futebol mundial.

ITA: World Cup 1990 - Cameroon v Colombia
Roger Milla numa cena que dispensa explicações.

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