“Os americanos estão realmente gostando de futebol” – Mas, e daí?

Eles acompanham o futebol como nunca antes. E agora?
Eles acompanham o futebol como nunca antes. E agora?

Mais do que nunca o que parecia apenas lenda começa a se tornar verdade: os estadunidenses agora gostam de futebol. O que isso significa, afinal?

*por Irlan Simões

Em 2002, na Copa do Mundo de Coréia/Japão, quando caíram nas quartas-de-final para a Alemanha, a seleção dos Estados Unidos dava a impressão de que aquele era apenas o primeiro passo de uma ascensão meteórica. Em 2006 voltaram a cair na primeira fase e em 2010 caiu para Gana nas oitavas.

Para a Copa do Mundo de 2014 a ideia foi levar mais a sério. Contrataram o alemão Jürgen Klinsmann para o comando da seleção e deram de presente ao coach a naturalização de cinco descendentes de americanos espalhados pelo mundo, sendo quatro alemães e um norueguês. Um alto investimento que complementa a proposta colocada para a Major Soccer League, a liga interna de clubes dos Estados Unidos, que já colocava em prática há alguns anos uma série de planos ambiciosos para se fortalecer.

Caso passassem do complicadíssimo grupo G, que tinha Alemanha, Portugal e Gana (melhor seleção africana), o feito já seria de grande significado. Ainda assim, mais uma vez a eliminação nas oitavas-de-final para a Bélgica fez a seleção masculina ser considerada a “nova ex-futura potencia mundial”.

Queira ou não queira, o “soccer” já é considerado o terceiro esporte mais assistido nos Estados Unidos e a audiência da seleção nacional na Copa do Mundo foi considerada uma das maiores da história. Com frequência chegavam nas nossas televisões e computadores as imagens de leste a oeste do país de estádios, praças e ruas lotadas de espectadores entoando os gritos de “iu éssi êi”. O treinador alemão aparecia repetidamente em entrevista para deixar a mensagem: “o crescimento do futebol nos Estados Unidos é um fato inquestionável”.

Klismann teve 3 anos para fazer história. Não fez, mas deu a entender que as coisas mudaram.
Klismann teve 3 anos para fazer história. Não fez, mas deu a entender que as coisas mudaram.

A “soccerfobia” num país multicultural

Inevitável segurar a surpresa com a grandeza das manifestações populares de apoio à seleção estadunidense de futebol masculino. Para alguns mais desavisados, o fato de o “soccer” estar ganhando notoriedade de forma tão tardia num país que tem tantos esportes disputados em alto nível ainda surpreende. Para outros, que torciam para que esse dia nunca chegasse, o choque também é grande: os gringos realmente estão gostando de futebol.

Mas a verdade é que o crescimento do “soccer” surpreende a eles mesmos. Para o cidadão comum dos Estados Unidos o futebol era um esporte de mulheres ou de imigrantes, algo como um desdém típico da nação que se acostumou a ser potência e a subjugar outros países. Mais valia aqueles esportes nas quais suas ligas tinham controle quase exclusivo, ainda que fossem praticados em vários outros cantos do planeta.

O preconceito ia além. Nos primeiros dias da Copa do Mundo a governadora do Alasca, Sarah Palin, lançou em seu twitter uma série de comentários assustadores sobre os fãs de futebol. “Americanos de verdade não assistem futebol”, ou “Copa do Mundo? Mais parece Copa dos Terroristas”. A mesma, durante campanha em 2008 chegou a dizer que ao conversar com um veterano de guerra, soube que os terroristas iraquianos jogavam futebol nas ruas de Bagdá e portanto esse não era um esporte para os americanos. Em 2010, outro figurão da política estadunidense, Gleen Beck já havia se posicionado de forma semelhante, ao afirmar que era um esporte de latinos e que nunca daria certo “na América”.

Sarah Palin e Gleen Beck são duas grandes caricaturas norte-americanas de uma extrema-direita que nunca morre. Em qualquer país do mundo temos figurões oportunistas que destilam ódio com uma retórica rasa e de forma irresponsável.

Mas eles têm força, sim.  Recentemente um grupo de “protestantes” foi até a fronteira impedir a entrada de alguns ônibus que chegavam do México, contra a entrada de imigrantes ilegais. Não é nada novo, desde a década de 1970 que o mundo já assiste o ataque dos WASP (brancos, anglo-saxões e protestantes) à grande leva de latino-americanos – las cucarachas – que rumavam à “terra da liberdade e prosperidade” em busca de emprego.

Só esqueceram rever que dezenas de milhões de “americanos” são oriundos de países latinos.  O multiculturalismo dos Estados Unidos de hoje significa muito mais do que desejam os seus patriotas brancos, e o futebol vem de carona nessa onda de grandes adoradores do “beautiful game”. Nesse ponto até soa interessante que o futebol tenha crescido em importância como forma de afirmação dessa imensa parcela de “novos nativos”, da mesma forma que o basquete significou para os afro-american. Mas o buraco é mais embaixo.

Nessa edição de 2014 tem surpreendido o surgimento de algumas manifestações antes não existentes. Acostumados a dar tons bélicos aos seus principais esportes, os estadunidenses perceberam que valeria a pena aplicar as velhas analogias de guerra ao futebol. Não foi a toa que o goleiro Tim Howard, com sua atuação espetacular de 16 defesas na derrota contra a Bélgica – batendo recorde em Copas – passou a ser chamado de Secretário do Departamento de Defesa do Estado.

A brincadeira foi utilizada pela assessoria de comunicação de Chuck Hagel, ninguém menos que o titular da pasta mais poderosa do planeta, que lançou uma foto no seu twitter indicando que teria telefonado para Howard parabenizando-o.  Um sinal de que o tabu já estava definitivamente quebrado e a histeria patriótica não incomodava de forma alguma.

O mote “One Nation. One Team.”, impulsionado pela própria federação nacional de futebol, a U.S. Soccer, também tem significações a se investigar para os próximos anos. Um discurso mais aberto, convidativo e tolerante não soa uma provocação direta aos insistentes e preconceituosos WASP?

Aprendendo a torcer: ainda que com contornos caricaturais, público começa a aprender a "fanculture".
Aprendendo a torcer: ainda que com contornos caricaturais, público começa a desenvolver uma “fanculture” característica dos estádios norte-americanos.

A significativa consolidação comercial dos últimos anos

Não é recente o interesse em consolidar a liga de futebol nos Estados Unidos. Há anos já se vê uma série de estratégias boladas para que esse ganhasse visibilidade, num país de tradições esportivas bem plurais e bem distantes das vistas nos principais países onde o jogo dos pés tem força.

Grande parte da resistência ao soccer se dava pela disputa entre os diferentes esportes. Cada liga esportiva nos Estados Unidos funciona como uma grande empresa, com cada clube representando uma franquia (e assim são chamados). Elas disputam entre si a atenção do público, na caça de consumidores que tornem a sua indústria mais rentável. Basquete (NBA), baseball (MLB), futebol americano (NFL) e hóquei (NHL) sempre foram as principais ligas de sucesso dos Estados Unidos.

A Major Soccer League seria a mais fraca dessas empresas, até então.  Para se ter como comparação, basta analisar como a NFL é a liga mais lucrativa do mundo, tendo suas 32 franquias inseridas na lista das 50 times mais valiosos do mundo segundo uma lista da revista Forbes.

Na MSL são 19 franquias apenas, dez na Conferência Leste e outras nove na Conferência Oeste. Recriada em 1996 como contrapartida para a realização da Copa do Mundo da FIFA de 1994, começou com apenas 10 equipes e foi expandindo. Em 2007 os canadenses foram anexados e hoje competem com três equipes (apesar de ainda manter uma liga local). Quatro equipe estão sendo formadas e sinalizam que estrearão na temporada de 2015, alcançando então o inédito número de 23 franquias.

Nos últimos 18 anos o que se viu foram a criação, dissolução, fusão ou mesmo recriação dessas franquias ao gosto do “mercado”. Essa lógica, no entanto, tem um ponto interessante: a fim de manter a atratividade da competição, a matriz estabelece regras de salários e transferências que garantam equilíbrio entre as equipes – tal qual a NBA. Em 2006, com o caso David Beckham, criou-se uma norma específica que autoriza um astro por clube, com salário acima do teto (o meia inglês hoje é proprietário de uma franquia).

O público esportivo dos EUA tem um conceito de consumo do esporte muito diferente daquele construído em torno dos clubes de futebol ao redor do mundo, em especial nas grandes ligas. A lógica do clube e comunidade não acontece por lá. Mesmo grandes franquias mudam de cidade por razões meramente comerciais.

É claro que isso já acontece no Brasil há alguns anos. Clubes que chegaram a disputar a Série A do Campeonato Brasileiro, no caso do Grêmio Barueri/Prudente ou no Ipatinga/Betim. No interior de pequenas federações também acontece com grande frequência, com motivos semelhantes, mas realidades distintas: se no EUA o público ainda é interessante, no Brasil esses clubes raramente colocam mais do que 500 torcedores no estádio.

Há de se compreender que a lógica de mercantilização intensa do futebol permite e trata como natural algo que antes era impensado, mas que os EUA são especialistas em desenvolver. Ainda que se fale que o futebol é o jogo mais consumido do mundo, o que se viu nos últimos anos foi uma adaptação constante das instâncias diretivas do futebol a nível mundial às formas de comercialização de espetáculos esportivos aprimoradas nos Estados Unidos.

 O conceito de praças esportivas em formato de Arenas, por exemplo, foi criado por lá. A FIFA assimilou o conceito depois de muito tempo, apenas passando a torna-las obrigatórias em suas competições oficiais na Copa do Mundo de 1998, na França. A UEFA passaria a fazer o mesmo alguns anos depois. A noção de clube como empresa, idem: a Inglaterra que inaugurou a modalidade no futebol tinha como exemplo o crescimento da indústria do entretenimento ligada ao esporte norte-americano.

A média de público da MSL já passou do Campeonato Brasileiro há alguns anos, mas não é necessariamente algo para se espantar. Esse “entendimento” estadunidense de consumo passivo do espetáculo esportivo se alia ao alto poder de consumo do público local e também à monstruosidade que é a indústria do entretenimento americana. Uma única Arena chega a ter cinco eventos na mesma semana – musicais, corporativos e esportivos – todos com grandes públicos. Nessa realidade tanto faz se a franquia que leve o nome de Salt Lake City jogue em Los Angeles.

Mas a consolidação financeira não é de um sucesso repentino. Depois de levar Pelé e Beckenbauer para o Cosmos na década de 1970, além de sediar uma Copa do Mundo em 1994, a tentativa de emplacar o futebol como esporte de consumo massivo nos Estados Unidos foi algo constante. Romário em 2006, David Beckham em 2007, Thierry Henry em 2010, Juninho Pernambucano em 2013 e tantos outros craques se mudaram para lá nos últimos anos. Aliavam salários astronômicos com uma liga de baixo nível técnico. Em uma comparação talvez imprecisa, era como deixar de jogar o Paulistão pelo Corinthians para jogar no estadual de Rondônia recebendo um salário superior.

Não é um fenômeno exclusivo da MSL. Existem várias outras ligas que atraem grandes pé-de-obra mundial por conta de salários inimagináveis. Os emirados do Oriente Médio foram grandes parceiros da FIFA por vários anos quando utilizavam os tais dos “petrodólares” para importar craques. Países da antiga União Soviética, como Rússia e Ucrânia, tiveram nos velhos burocratas privatistas os principais financiadores de clubes-empresa que levavam, todos os anos, dezenas de jovens talentos brasileiros. A nova bola da vez é a China, que começa a organizar uma forte liga interna.

A marca de energético Red Bull tem comprado clubes em todo o mundo. Não deixaria de ser assim na MLS.
A marca de energético Red Bull tem comprado clubes em todo o mundo. Não deixaria de ser assim na MLS.

O problema MLS se tornar uma potência de verdade

Os mais pessimistas acreditam que um crescimento definitivo dos Estados Unidos enquanto potência do futebol (e consequentemente centro importador de bons talentos) poderia levar a uma mudança brusca nas regras. Esse ponto é mais questionável, porque desde o princípio as regras do “soccer” eram diferenciadas exatamente para atrair o público interno acostumado com outros esportes. Muitas foram descartadas porque não tiveram sucesso, como a inexistência de empates, que eram decididos nos tais dos “shoot-outs”. Mas, sim, o crescimento deles pode ter influência, como já tem.

Com a saída de cena de muitos dos principais mecenas de clubes do futebol europeu, principalmente os italianos e espanhóis, a propriedade dos clubes do Velho Continente passou a ser tão internacionalizada quanto seus principais atletas. Muitos americanos já são acionistas majoritários de vários clubes da Europa, incluindo o gigante inglês Manchester United. Em alguns casos se tratam de bilionários com atividades em setores totalmente distintos, que utilizam os clubes como forma de balancear suas carteiras de ações ou para se inserir num mercado específico com a moral em alta. Pouco importa a bola, a grama, os pés e muito menos a torcida.

Os principais “excutivos do futebol” brasileiro se espelham no exemplo norte-americano para gerir os clubes locais. Qualquer meio entendedor perceberia que há um abismo cultural, financeiro e estrutural, mas ainda assim, a filosofia que rege é a mesma: esporte é uma indústria muito rentável e deve gerar lucros. Há alguns anos os torcedores já são tratados como meros consumidores, e isso não é à toa. A comemoração da chegada das novas Arenas – ainda que, de fato, sejam equipamentos mais modernos – acompanha essa falta de compreensão de que as diferenças da própria formação subjetiva do público que consome o esporte é totalmente distinta entre os dois países.

Outro ponto compete às históricas competições. O torneio continental dos clubes da América do Norte durou apenas quatro anos e se encerrou em 2011 sem motivos muito claros. De lá para cá o que se tem são anúncios de que os americanos teriam o interesse de jogar a Copa Libertadores da América, torneio da América do Sul. Isso se dá, principalmente, pelo espaço conquistado pelos clubes do México, que entraram no ano de 1998, quando a Toyota era patrocinadora oficial do torneio e sugeriu a entrada dos latinos norte-americanos. Em suma: sendo utilizado como critério o interesse exclusivamente comercial da CONMEBOL, os americanos estariam, sim, muito próximos da cinquentenária Libertadores.

Antes dos Estados Unidos muitos outros países sem tradição no futebol conseguiram desenvolver de forma bem sucedida uma indústria em torno do jogo mais amado do mundo. Os países asiáticos, as nações árabes e o leste europeu mostraram que muito dinheiro não significa necessariamente uma liga forte, quando muitos dos seus estádios ainda estão meio-vazios. Também mostraram que se estruturar internamente não significa capacidade de ditar os rumos do futebol a nível mundial.

Dos pontos negativos que viriam com o crescimento do futebol americano pouco ainda se tem como certeza. Julga-se muito mais pela capacidade do país das stars and stripes de interferir em todos os espaços onde os interesses comerciais de suas grandes empresas está envolvido. Resta saber da parte da casta dominante da FIFA – notadamente europeia – se o crescimento da U.S Soccer e da MLS significa necessariamente uma ameaça futura ou mais uma possibilidade de crescimento das incontáveis cifras que a entidade abocanha todos os anos.

*Irlan Simões é jornalista e coordenador da Revista REVER

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