ESPECIAL 4° SERCINE – A brasilidade emocionada de Dominguinhos

dominguinhos

E no passar dos minutos da projeção, fica difícil fazer outra coisa senão deixar levar-se por uma obra musical tão bela

*por Ana Ângela

O documentário “Dominguinhos”, que marcou a abertura da quarta edição do SERCINE, no último sábado, 19, é antes de tudo um filme de fãs. Os diretores Joaquim Castro, Eduardo Nazarian e Mariana Aydar não se preocuparam em esconder que os olhos que organizaram em som e imagens de arquivo a obra deste cantor, compositor e instrumentista, são olhos apaixonados. Melhor assim, não camuflar a relação dos realizadores com o objeto (nesse caso, de devoção) retratado.

Fazer a opção pelo olhar apaixonado significa, entretanto, abrir mão de lembrar dos aspectos contraditórios que envolvem o personagem principal. Do ponto de vista da relação entre arte e política, é fato que Dominguinhos esteve presente nos palanques dos políticos mais à direita, em especial nas décadas de 80 e 90. As apresentações, devidamente remuneradas, eram um chamariz para que o eleitorado nordestino marcasse presença nos comícios.

O filme nem de longe se propõe a um debate desse nível. Trata-se de uma biografia de tons intimistas, que convida o espectador a uma experiência de encantamento sobre a obra de Dominguinhos. Aliás, o encantar é um verbo chave pra a compreensão do documentário. Em uma narrativa que quase sempre nos convida a uma experiência sensorial, é como se os realizadores nos dissessem que nada mais importa sobre Dominguinhos, além de sua música.

E no passar dos minutos da projeção, fica difícil fazer outra coisa senão deixar levar-se por uma obra musical tão bela. O filme nos lembra com propriedade que Dominguinhos, embora nunca tenha estudado música formalmente por muito tempo e, como ele mesmo conta, não saber escrever partitura, foi um instrumentista de alto refino. E como se não bastasse, Deus lhe deu também uma bela voz, forte o suficiente para entoar letras que falam do amor ganho e perdido, das estradas da vida e dos mais diversos símbolos que representam a cultura nordestina.

Em ordem cronológica o filme mostra, a partir de depoimentos em viva voz do próprio artista, sua trajetória desde o nascimento em Garanhuns até o reconhecimento de seu trabalho para além do Nordeste. Ao conseguir dividir palcos com Gilberto Gil e Gal Costa, chega a afirmar: “Agora virei um sanfoneiro pop”. Eis a forma que Dominguinhos encontrou para definir a capacidade de seu trabalho em dialogar com outras matrizes musicais, sem nunca perder a marca identitária forte de tudo o que representa o baião e a sanfona nordestina.

Graças a imagens de arquivo os diretores conseguiram reunir momentos de Dominguinhos cantando e tocando junto com Hermeto Pascoal, Gonzagão (seu padrinho e principal referência musical), Elba Ramalho, entre outros. A gravação de Nana Caymmi interpretando “Contrato de separação”, acompanhada pela sanfona de Dominguinhos é uma das cenas mais emocionantes. A cantora não se contém e chora, lembrando de outra gravação antológica da MPB, quando Elis Regina chora ao entoar “Atrás da porta”.

Mas estas não são as únicas lágrimas do filme. Por duas vezes é o próprio Dominguinhos quem chora, de forma muito sutil, quase imperceptível. A primeira emoção é na gravação que reúne Djavan, Hamilton de Holanda, Mayra Andrade e Yamandu Costa. Enquanto os quatro interpretam “Retrato da vida”, o homenageado assiste encantado e emocionado.

A parte final do filme é, sem dúvida, a mais emocionante. Dominguinhos fala que o artista é antes de tudo um solitário enquanto se prepara para dividir o palco com a Orquestra Jazz Sinfônica. Canta e toca com os músicos uma de suas mais belas e conhecidas canções, “De volta pro aconchego”. Difícil nessa hora não se emocionar junto e lembrar que a existência de Dominguinhos engrandece nosso sentido de brasilidade.

*Ana Ângela é Jornalista, mestre em Sociologia, doutora em Comunicação e professora do Curso de Audiovisual da UFS. 

Rever faz especial com análise dos filmes do 4° SERCINE.

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